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domingo, 22 de maio de 2011

A Mina da UNICEF

Mais uma vez, olá, gente boa! Neste desagradável mês de Maio em que não há feriados (afinal, o Dia do Trabalho me resolve cair em um domingo) eu senti saudades e resolvi voltar para despejar mais bobagens no meu cantinho preferido da internet. Aê, viva o meu blogue!!
E obrigado pela visita :)

A postagem de hoje me ocorreu em uma epifania durante uma caminhada pela Avenida Paulista. Ah, vá, até você que não tem nem ideia de onde fica São Paulo deve saber que a Avenida Paulista é o nosso cartão-postal por excelência, a avenida mais importante, o lugar mais frequentado... É o xodó paulistano, a nossa tia Paulista. E aí este autor que vos escreve teve essa ideia. E achou por bem por no papel (ou na internet, vocês entenderam) antes que a ideia voasse. Será que fica um bom texto? Ou era melhor ter desencanado?

Contos do Cotidiano
XII - A Mina da UNICEF

"Alô?"
"Alô, Carlinhos? É o Márcio, cara!"
"Oho, seu viado! Tudo bem contigo?
"Tudo certo, Carlos, tudo certo... Escuta, véio: seu pai, como ele tá?"
"O meu velho tá bem, cara. Já voltou do hospital, era só um susto."
"Ufa, menos mal. O tio deu mó susto na galera."
"Pois é. Mas meu pai é assim mesmo: uma piada pra ele sempre vale a pena..."
"Maaano, preciso te contar, cara: conheci uma mina hoje!"
"Mais uma, Márcio? PQP, que aconteceu com a última? Ela já cansou de você?"
"Porra, não enche, cara. O que importa é que conheci essa mina hoje! Ela é linda, ela é uma graça, ela parece um anjo, velho!"
"Okay. Onde você a conheceu?"
"Na Paulista, Carlão. Tava andando lá, indo pra livraria comprar uns livros pra facul. E aí ela me abordou e a gente ficou conversando"
"Pera: ela te abordou?"
"É. É que ela é uma daquelas funcionárias de ONGs, manja? Que ficam na Paulista pedindo pra você ajudar alguma criança de algum país-quistão, sabe?"
"Ah, sei."
"Então, ela é da UNICEF."
"Putz. Ela foi vender o peixe dela e você se apaixonou. Típico de você, Márcio. Típico"
"Porra, Carlão, vá se fuder, velho. Eu falei pra ela que não tinha como ajudar. Era universitário, falido, liso, nem trabalhava. Ela insistiu. Eu falei que doava se ela saísse comigo. Ela sorriu. E aí eu peguei o telefone dela."
"É mesmo? Que cantada loser."
"Mas funcionou, mano, larga de encher o saco. Amanhã eu vou ligar pra ela e marcar alguma coisa. Que você sugere?"
"Ah, mano, sei lá. Leve-a pra jantar. Ou leve-a ao cinema. Algo bem sossegado. Só não vai levá-la pra ver Resident Evil, velho!"
"Huahuahua... Beleza, nunca mais faço isso de novo, prometo."
"Depois você me conta o que aconteceu com a mina da UNICEF."
"Beleza, Carlinhos. Manda um beijo pro tio"
"Mando sim."

---

"Fala, Márcio!"
"Eaê, Carlão? Beleza?"
"Beleza, cara. Escuta, meu pai pediu pra te mandar um beijo, agradeceu por você ter perguntado."
"Valeu. Avisa o tio que não é pra ele morrer antes de me levar pro Rock in Rio. Ele prometeu."
"Hehehe, vai esperando... Ow, e aí? Ligou pra mina da UNICEF?"
"Liguei, velho. Liguei ontem, antes da aula."
"Eaê, cara? Que pegou?"
"Maano, ela é um barato! Ficou fazendo docinho, disse que gostava de cinema, mas que não tinha nada legal... Então ela topou irmos jantar"
"Onde você vai levá-la?"
"Sei não. Tem uns restaurantes legais lá pela Paulista, mas eu não conheço muitos. E são caros."
"Eu tenho um legal. Vou te mandar por e-mail hoje quando chegar em casa. Lá é barato, e eu tenho um cupom de desconto. Usa lá pra aliviar pra você, seu pobre."
"Huahauhua, valeu.... O único chato é que ela ficou me enchendo saco pra doar pra porcaria da UNICEF. Mano, eu não quero dar meu pobre dinheiro pra alguma criança remelenta do Tadjiquistão! Nem sei onde fica esse país!"
"Larga de ser inculto, cara. Senta lá no Wikipédia, e aprende mais sobre o país dela. Surpreenda-a!"
"É, talvez você tá certo. Vou ver"
"Quando você vai?"
"Acho que sexta"
"Beleza. Não se esqueça de que domingo vai ter churras em casa por causa do jogo do São Paulo"
"Fechado, velho. 'Té domingo"
"Até, Márcio."

---

"Márcio, meu querido."
"Fala, seu viado."
"Ow, meu pai pediu pra você não se esquecer de trazer pr'aqui amanhã o pote que ele emprestou pra sua mãe aquele dia."
"Opa, tá lembrado! Vou pedir pra minha mãe deixar separado aqui."
"Eaê, cara? Saiu ontem com a mina da UNICEF lá?"
"Saí, velho..."
"Porra, cara, então conta! Que diabos aconteceu?"
"Putz, cara, a gente foi lá no restaurante que você indicou. Aliás, valeu pelo tíquete, ele aliviou bastante. Aí fomos lá, comemos, e eu me ofereci pra pagar a janta dela, claro."
"E ela?"
"Mano, ela aceitou, mas ficou me enchendo o saco a noite inteira. Disse que achava injusto eu ter dinheiro pra levá-la pra jantar e não ajudar a UNICEF com uma doaçãozinha de nada, que nem iria doer em mim. E me perturbou a noite inteira"
"Porra, velho, que foda. Ela é idealista mesmo, hein?"
"Ô se é. Aí ela disse que topava ir no cinema semana que vem comigo, mas com uma condição: eu deveria fazer uma doação pra UNICEF. Uma só, e ela parava de me encher."
"Huahuahuahua, não acredito, Márcio!! E aí? Que que você vai fazer?"
"Sei lá. Acho que não vou não. Vou ver se eu a enrolo"
"Pode crê, enrola a mina. Ow, peraê, meu pai tá me chamando, vou lá ver."
"Beleza, amanhã a gente se vê."
"Até amanhã, Márcio"

---

"Alô."
"Márcio, você é um grande filho da puta."
"Pô, Carlinhos, respeito com a sua tia."
"Maaano! Você não foi em casa ontem!"
"Foi mal, velho. Eu deitei no sofá e dormi. Só acordei no meio do segundo tempo do jogo. Aí desencanei."
"Bem feito, meu pai fez uma picanha que é de dar água na boca só de lembrar, cara. Como você me perde, velho? Como?"
"Foi mal, velho! Queria mesmo ter ido. Pior que nem levei o pote do tio. Que mancada."
"Mancada mesmo. Seu brocha."
"Acontece."
"Falar em acontecer, já falou de novo com a mina da UNICEF?"
"Falei, falei. Liguei pra ela hoje. Ela agradeceu a janta, a gente ficou conversando. Aí ela perguntou se eu fiz a doação que prometi."
"E você fez?"
"Não, claro que não. Mas eu falei que fiz. Que tinha ido no caixa eletrônico e tudo."
"E ela?"
"Maaano... Ela disse que ia entrar amanhã na conta pra ver se era verdade. Ela duvidou de mim. Mas que mancada!"
"Mancada mesmo, né? Até parece que você iria mentir pra ela"
"Carlão, que eu faço?"
"Agora, filhão, ela vai descobrir que você mentiu, né? Então, o negócio é o seguinte: ou você não doa o dinheiro e desencana da mina, ou você dá logo seu dindim, e pega ela duma vez. Mas peloamordedeus, depois de tudo isso, é bom que vocês no mínimo namorem uns 6 meses"
"É. Me dei mal, mesmo, vou ter de dar meu rico dinheirinho pra alguma criança remelenta no Tadjiquistão. Porcaria."
"Me liga depois pra me contar o que rolou."
"Firmeza."
"E sábado tem jogo no Morumbi. Vê com seu irmão se vocês vão também."
"Tá. Te cuida, Carlão"

---

"Marciããão"
"Fala, Carlinhos."
"Credo, Márcio, que animação é essa? Morreu alguém?"
"Acho que levei um fora."
"Como assim? Da mina da UNICEF?"
"É, velho"
"Como assim? E você não fez a porcaria da doação?"
"Então, meu. Eu fiz. Até dei um print screen do comprovante no site do banco e mandei por e-mail pra ela. Mó bonitinho."
"E então...?"
"Dia seguinte eu liguei, ninguém atendeu."
"Ué"
"Acho que liguei umas 10 vezes. O dia inteiro. Mandei e-mail no fim do dia. E no dia seguinte liguei de novo, mais umas 5. Aí, alguém atendeu o telefone. E desligou direto, manja? E aí passou a cair no ocupado"
"Pffft... Huahuahuahuahua!!"
"Porra, Carlos, vá se fuder, de que você tá rindo?"
"A mina esperou você doar o dinheiro e te deu um fora! Não acredito, velho!! Huahuahuahua!"
"Caramba, mano. Será?"
"Poutz, meu, tá na cara! Você mandou comprovante e tudo, e ela sumiu. Até bloqueou você do celular dela! Ai, caramba, eu não acredito... Huahuahua!"
"Velho, não é possível! Eu fui usado?"
"Caiu feito um pato! Hahuahuahuahua!"
"Maaaano... Que filha duma puta..."
"Bom, ela fez o trabalho dela, né? Conseguiu fazer com que você doasse pra UNICEF"
"Poxa, mas precisava de tudo isso? Ela me magoou, mano."
"E você doaria, de outro modo?"
"Nem a pau!"
"Pois é. Ela arrancou seu dinheiro. E sumiu. Huahuahuahua, eu não acredito..."
"Mano, nunca mais doo nada pra UNICEF"
"Desencana, velho, você já doou uma vez. Era o que ela precisava. E aí, a gente vai sabadão no Morumbi?"
"Pô, mano, nem vou não. Vou ficar em casa."
"Por quê, seu molenga? Tá tristinho, é? Tá sem vontade de sair de casa?"
"Pior - tô sem dinheiro, mesmo. Doei pra alguma criança remelenta no Tadjiquistão."

Ouvindo:
It's OK
Cee-Lo Green
The Lady Killer (2010)

domingo, 5 de abril de 2009

Zero a Zero


RENASÇA, INOMINATIVO!! :D


Boas noites boas noites para os senhores! É hora de eu tirar a poeira desta minha gaveta de textos despretensiosos, e retornar à fina arte da escrita! Sim, escrever é uma arte fina e requintada, não acham os senhores?

Mas eu não sou requintado. E aí dá nisso, esse monte de bobagens. Can't help it :P

A primeira da nova leva de postagens inominatívicas (e isso existe?) está saindo. Vejamos se sai tão ruim quanto os outros, ou se eu pioro. Huah!

Contos do Cotidiano
XI - Zero a Zero

Para Alex, sexta-feira à noite prometia. Tanto que ele acordou cedo, naquele dia, por causa da ansiedade, mas descobriu que não adianta nada acordar mais cedo; o relógio continua andando na mesma. Às vezes, um pouco mais devagar, até, só pra fazer sofrer. Hehe.
Havia duas semanas, nosso amigo havia ido na balada da faculdade de um amigo dele. Balada vai, balada vem, conheceu a amiga de uma amiga de um amigo do amigo dele. Os dois se conversaram, descobriram que gostavam de filmes hollywoodianos e de música brasileira (e, embora Alex nunca fosse admitir em público, ele descobriu que gostava de Britney tanto quanto a moça). "Ah, pegaê meu MSN" (guardanapo sendo rabiscado). "Ah, eu te adiciono depois no meu orkut". É, rolou uma química. Rolou uns chutes a gol. Mas o placar foi zero a zero praquela noite. Não faz mal, o campeonato ainda não terminou. Ainda rolariam outras chances.
Nas duas semanas seguintes à baladinha, eles descobriram mais algumas afinidades. Gostavam também de Outback e de filmes do Will Smith. "Ah, tem um filme do Will que eu ainda não vi, e que está em cartaz. Quer ir? Podíamos jantar no Outback depois, né?". "Ah, boa ideia, vamos sim". Nada mal pra um primeiro encontro, hein? Conseguiu um cinema e um jantar. Ah, aquela noite, certeza, seria goleada...

Não é de se espantar que nosso menino Alex estivesse animado. Depois de ouvir uns CDs e estudar umas matérias da sua faculdade, resolveu dar uma volta. Viu uns amigos, fez a cruzadinha do Estado de S. Paulo que vivia abandonada no saguão do seu edifício. Lá pela uma da tarde, deu-lhe fome. Como seus pais trabalhavam, ele almoçava sozinho. Ele subiu pro seu apartamento, deu uma re-esquentada na janta de ontem (o popular soborô), almoçou male-male e ligou a TV pra ver se tinha algo que o distraísse até o filme. Pra variar, umas zapeadas, mas nada rolou. Ele resolveu ligar o seu vídeo-game, e colocou um Winning Eleven. Depois de 3 derrotas (incluindo uma espetacular goleada com direito a gol contra), ele achou melhor desligar o jogo, porque aquilo prenunciava má-sorte. Não que ele acreditasse. Mas nunca se sabe. É melhor não dar sorte pro azar, certo? Nunca se sabe.
Deu uma navegada na internet. Encontrou a sua companhia, Gabriela, online em um programa qualquer de conversação instantânea. Checaram o horário, recombinaram o ponto de encontro, conversaram aleatoreidades. É, nada parecia dar errado.

Lá pelas seis, de banho devidamente tomado e devidamente perfumado, achou melhor embarcar rumo à diversão. Entrou na estação de metrô que servia o bairro em que morava (o sortudo Alex calhou de morar em um bairro com linha de metrô), tomou um trem lotado e foi sentido cidade. Acontecem, aí, aquelas intempéries que sempre ocorrem em viagens. Coisas como estações apinhadas, folgados enormes que não saem da frente das portas, escadas rolantes quebradas... Só que, tudo de uma vez. Desgraça pouca é bobagem, hehe. Nosso amigo Alex chegou, naturalmente, atrasado. Mas não faz mal, ele havia combinado de se encontrarem cedo no shopping pra evitar que pequenos atrasos os impedissem de ver o filme. E, ademais, bem ele sabia que Gabriela iria atrasar. Mulheres sempre atrasam. É meio que um charme delas. E assim, ele chegou no shopping, foi ao ponto de encontro, não viu ninguém, e se ocupou em ver vitrines de livrarias e de lojas de jogos.
Seu telefone chacoalhou, então, por causa de uma mensagem. Sua companhia, Gabriela, o esperava no ponto de encontro. Lá ele foi, e lá ele a viu. Ele notou que ela estava bastante bonita. Ele se congratulou, eles se cumprimentaram, e foram à bilheteria comprar os tíquetes para o filme. Ah, aparentemente, nada daria errado. Alex sabia que era errado comemorar vitória antes dos noventa minutos, mas ele, ao chegar no guichê e encomendar os dois ingressos (como bom cavalheiro, ele pagou a entrada de sua companhia), pensou que não podia dar nada mais de errado. Tudo terminaria bem, agora.

Ou quase.

"ALEXANDRE, SEU BOIOLA!". Alex estacou ao ouvir seu nome, e virou pra seguir a origem do berro escandaloso e da ofensa gratuita. Ele terminou de virar o pescoço, e um abraço desajeitado turva sua visão. Dois murros nas costas, e um amigável "E aí, seu bosta!" fazem o Alex reconhecer o perpretador das frases. Um amigo seu, Ricardo, que o encontrou (contra todas as probabilidades, como Murphy gosta) na fila do guichê, e que tinha gritado o nome dele várias vezes. Mas Alex estava tão animado com a companhia que nem ouviu o que vinha de fora. "Só virou pra ver depois que eu chamei você de boiola, né? Seu são-paulino bambi de merda. Tinha que ser um queima-rosca, mesmo! Huahuahuahua!". De trás de Ricardo, mais três amigos aparecem, cumprimentando nosso amigo, dando tapas nas costas, abraços desajeitados. Alex, nosso amigo, estava estupefato, é claro. Tudo o que ele menos queria agora era que empatassem o jogo dele. É, essa história de comemorar vitória antes dos noventa minutos...
Encabulado, apresentou Gabriela aos amigos. A educada menina lhes disse oi, eles responderam. Ricardinho, o nosso amigo sem-noção, não perdoou: "Namorando, então, Alex? Caramba, que sorte, a mina é bonita mesmo, hein?". Sem jeito, Alex mal conseguiu balbuciar uma resposta. Restringiu-se a rir amistosamente, enquanto digitava a senha do seu cartão na maquininha da menina do caixa do cinema.
"Ah, então vocês vão ao cinema!", constatou Ricardinho, mestre em notar o óbvio. "E que filme é?". A menina respondeu, dado o grau elevado de vergonha que Alex estava. "Vamos ver o filme do Will Smith, sabe?". E aqui, a noite, que já estava perdida, acabou de ficar tenebrosa. "Pô, Carlos, bem que a gente podia ir ver esse filme com o Alex, né? Eu não tenho nada pra fazer hoje à noite, mesmo...". Os amigos concordaram. Entraram na fila pra comprar seus ingressos. E Alex estava considerando, seriamente, se utilizar de magia negra avançada para desaparecer. Ah, se ele tivesse ido pra Hogwarts...

Vencido, lá foi ele pro cinema. Sentou-se, claro, ao lado da Gabriela, mas seus amigos sentaram do outro lado. Ricardinho, óbvio, preferiu se sentar do outro lado do Alex.
Eu posso estar enganado a respeito de vocês, meus amigos homens, mas acredito que a última coisa que vocês desejam, ao estarem em estágio de flerte aberto com uma moça, é que seus amigos escrotos façam a menina perceber o quão escroto você é. E comecem a contar, por exemplo, da vez em que você passou mal na balada e vomitou no cara que fazia coquetéis. Ou da vez em que caiu na piscina com o celular dentro do bolso, porque estava muito bêbado. Ou da sua fama na escola de vagabundo e matador de aula. Ah, sim, Alex estava sumindo em sua poltrona. Até que o filme começou. E Alex deu graças a Deus porque a sessão se iniciava. Pelo menos, ele não passaria mais vergonha. Mas que tudo tendia pra um zero a zero... Ele se vira pra engatar conversa com a Gabriela, que estava dando risadas das histórias do Ricardo desde que entraram na sala do filme. Mas ela devolveu um "shhhhh". Ai, meu coração...
Além dos amigos que gostam de empatar, tem os amigos que você não pode convidar pra ir ao cinema contigo, porque eles preferem incomodar você com piadinhas ridículas ao ver o infeliz do filme. E o Ricardinho, esse guri levado, era uma soma dessas duas classes. De modo que ele não deu paz a Alex, nem no meio do filme. Coisas como terminar as falas de um personagem com piadinhas sem graça, se lembrar de uma piada com um papagaio e um argentino, começar a jogar pipoca nos casais que estavam nos finalmentes, rir alegremente de piadinhas do filme... Alex, que se sentia mais em uma tortura do que em uma sala de cinema, se perguntava o que ele fez de errado para os Céus. Gabriela, a traidora, ria gostosamente das travessuras do Ricardinho. Alex estava sozinho. Poverello, poverello...

Zero a zero. A frase ecoava na cabeça de Alex, enquanto eles saíam da sala de cinema. Dos seis que tinham entrado na sessão, cinco adoraram o filme, e faziam piadas infelizes e riam mais ainda. Alex, educado, tensionava um sorriso, mas estava desgostoso. Quase como tomar leite azedo, sabe? Como colocar pimenta no pastel quando você jurou que aquele tubo vermelho era catchup.
Ao voltarem ao shopping, eles se encontraram na praça de alimentação. Um dos meninos emendou "E aí, alguém come?". Alex notou uma última chance. "Ah, não, cara, vou jantar fora com a Gabriela, thanks". "Opa!", disse Ricardinho. "Onde?". "Ah, vamos ao Outback". "Posso ir também, gente? Estou com fome, e faz tempo que não vou lá. Vamos, macacada?" PQP, que cara mais inconveniente. Parece chiclete que grudou no cabelo. Saco.
Chegaram no Outback. Pra Alex, a janta, que poderia ser a redenção, só foi mais do mesmo. É como descobrir que o para-quedas reserva também falhou. E lá vem o chão, se aproximando da nossa cara.
Decidido a perder o jogo com nobreza, ele engoliu a infelicidade, e resolveu aproveitar. Jantaram juntos uma carne de porco apimentada (que custou ao Alex quase um litro de Coca-Cola, porque ele tinha baixa tolerância à pimenta), falaram mais algumas ogrices da vida pregressa de Alex, contaram da baranga que ele pegou no segundo ano só pra não zerar em uma festa...

Zero a zero, pensava Alex, quando deu tchau pros seus "amigos", sob o pretexto de deixar Gabriela no ponto de ônibus, e aguardar o comboio com ela. Ensaiou um último ataque. Um gol aos 49', pra somar os 3 pontos. Mas veio o golpe da redenção. "Aquele seu amigo, o Ricardo... Ele é bem engraçado, né? Escuta, vai rolar uma festa lá na minha faculadade sexta que vem. Convida ele com você, se você for, pode ser?". E ela embarcou no ônibus. Era o apito final.
Afinal de contas, saiu um gol na prorrogação. Um a zero. Mas pro time errado. Foi, aliás, o mesmo placar de uma das partidas que ele havia perdido no vídeo-game, mais cedo. Se foi coincidência, nunca se sabe. Mas era melhor ter ficado no zero a zero, mesmo.
E Alex voltou pra casa mais cedo aquele dia. Havia sido eliminado. :P

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E com isso, retorna o Inominativo! Seja bem-vindo de volta, meu querido blog. Senti sua falta. :D
Algumas considerações acerca desse retorno, entretanto:
* Como eu não tenho mais tempo livre entre as semanas, é muito provável que eu só consiga escrever algo aqui aos sábados e domingos. Mas eu farei o máximo para que eu poste pelo menos uma vez por semana. Se eu não puder, por favor, me perdoem.
* Se não for pedir demais, comentem sobre o que acharam! Eu quero mesmo mesmo saber o que vocês acham sobre meus novos textos. Sabe, boa parte do meu interstício foi porque eu sempre tive receio de sair algo ruim, que não mantivesse o nível anterior. E preciso saber da opinião de vocês, né? Agradeceria se o fizessem. =)
* Descobri, ainda recentemente, que meu antigo blog, O Mal do Século, não existe mais no servidor do Blogger.com.br. Apesar de fazer mais de 2 anos desde que ele deixou de existir, fiquei bastante chateado em saber disso. Eu gostava bastante de lá. Mas não faz mal, o Inominativo é mais legal, certo? :P
* Tomara que eu não torne a desistir do meu blog. Ainda nutro desejos secretos de escrever um livro, vendê-lo como água, ficar muito rico e passar o resto da vida preguiçoso e feliz. Hehe.

Bem-vindos de volta, leitores. Senti a falta de vocês.

We Started Nothing
The Ting Tings
We Started Nothing (2008)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Os Últimos Chocolates da Caixa

Opa! Daê, galera? Tudo supimpão? :D

Chegamos ao último suspiro do ano de 2007 da Era Comum. Em breve, estaremos comendo doces gostosos junto de pessoas agradáveis, comemorando o Natal e o Ano Novo. Celebrando o ano que chega, torcendo para que ano que vem tudo seja diferente, assim como a gente torceu ano passado. E a gente sabe que nada vai mudar, mas sabe como é, né? Como a Raça Humana é boba... A gente é facilmente enganado. Inclusive por nós mesmos. Nunca vi. :P

Vamos ao trabalho. Por favor, desliguem o celular, o filme está começando.

Contos do Cotidiano
X - Os Últimos Chocolates da Caixa

Sábado. Depois de três dias de nuvens pesadas, o sol saiu no horizonte, tímido. Um cenário comum no fim do inverno. Também era comum nessa época a mãe comprar uma daquelas caixas de chocolates sortidos, que vendem no supermercado, pra família ter alguma glicose para ingerir no fim de semana. Uma caixa de uma marca famosa, com bombons famosos e gostosos e que todos amavam. As crianças estavam felicíssimas, vendo a caixona vermelha em cima da geladeira, sendo armazenada para depois da janta.
A janta veio e a janta foi. Assim que terminaram a janta, o mais velho fez menção de se levantar, rápido como um tiro. O pai o segurou. "Calma, garoto. A caixa não vai fugir. Vá, fique sentado que eu vou pegar a caixa". Educado o pai, não? É nada, ele queria abrir a caixa no meio do caminho e pegar pra ele o bombom recheado que ele mais gostava. Os outros se degladiariam pelos bombons comuns, mas o dele era dele e ninguém tascava.

Meia hora depois, metade da caixa tinha sido esvaziada. Foi-se o bombom recheado com nozes e o com avelã. O de chocolate branco foi pro menorzinho, que adorava. A mãe pegou um com recheio de morango, lá, que todo mundo abominava, menos ela. Os dois irmãos maiores se revezavam pegando bombons aleatórios: um de coco, um com biscoito wafer, um amargo e um doce. Até o de café pegaram, porque era um bombom com embalagem nova, queriam testar pra ver se era bom. Não, não era. O cachorro adorou, entretanto. Tanto que se atreveu a esperar por mais um, que alguém abrisse e não gostasse. Mas isso não voltou a acontecer. Shoot.

Depois de meia hora de festa, a caixa, pela metade, foi recolhida pela mãe, e todos saíram para assistir a um filme na TV. O sábado acabou, o domingo veio. No café da manhã, os filhos assaltaram a caixa de novo. Acharam um pequenininho que era crocante e um duro pra caramba, mas também era ótimo. Quando chegou na hora do almoço que o bicho pegou. Sobraram na caixa 6 chocolates. Que são os chocolates lá do título. "Os últimos chocolates da caixa". *vento tenebroso*
Manja aquele chocolate que tem uma embalagem muito sem-graça? Tão sem-graça que você, sem querer, faz associação preconceituosa? Você não pensa verbalmente - isto é, você não chega a mentalizar as palavras, mas pensa - que se um chocolate tem uma embalagem tão mequetrefe como aquela, ele TEM que ser ruim. Ele deve ter gosto de chocolate de terceira amolecido no bolso daquele seu vizinho gordo nojento. Ele deve ter sido feito com a maior má-vontade do mundo pelos cozinheiros que tomam conta das fornadas de chocolate. O marqueteiro que criou aquela embalagem devia estar sendo chifrado pelo macho dele. O cara que idealizou aquele chocolate devia ter pensado nisso enquanto teve um surto de diarréia. Enfim, um chocolate cheio de histórias desgraçadas e infelizes. Um chocolate que mais parece um boneco de vodu maligno. E você pensou em tudo isso olhando pra uma embalagem. Credo, como você é preconceituoso.

Foi essa associação preconceituosa que todo mundo fez quando olhou para o que sobrou na caixa. Todo mundo fingiu que não queria chocolate depois do almoço, e cada um foi fazer uma coisa - afinal, era domingo. Lá pelas tantas, no meio do jogão de futebol na TV, o paizão se lembra da caixa. Sorrateiro, pula até a cozinha, abre a caixa e se depara com os últimos chocolates da caixa. Credo, que depressão. Tão deprimido ficou que, por um momento, se esqueceu que seu time estava ganhando. Guardou a caixa, e foi curar sua vontade de mastigar um doce ao atacar as bananas. "Trocar um chocolate por bananas... Que azar...", pensou ele, comendo a banana como se fosse um fardo.
O filho do meio acorda da soneca da tarde, a fim de comer chocolate. Também se frustra quando abre a embalagem. E ainda pensa, nervoso: "Mas que diabos, por que ninguém come isso logo? Fica me fazendo passar vontade...". A mãe também acha que alguém deveria comer logo aqueles chocolates, assim ela pode se desfazer da caixa. Mas ninguém comeu.
À noite, o filho mais velho volta do futebol. Vai para a cozinha, toma um copo d'água e se vira maquinalmente para a caixa de chocolates. Chateia-se. Esconde a caixa. Pega, também, uma banana, e vai pro chuveiro tomar banho.

E veio a segunda e veio a terça. O pai levou alguns em sua mala para a empresa, ver se ninguém queria. Ninguém quis. A mãe pensou em dar pro cachorro, mas ele passou mal da última vez que comeu chocolate, melhor não. Aquilo estava se tornando uma crise familiar. Logo logo, uma reunião seria convocada, e eles teriam que tomar uma séria providência. Eles não admitiriam ser desrespeitados em sua própria casa por alguns chocolates sem-graça!
Foi só na sexta-feira que o filho do meio, chegando mais tarde da escola graças a um trabalho, descobre que não sobrou almoço pra ele. Ele disse que esperaria a mãe dele chegar, faltava pouco. Mas ele estava verde de fome. A barriga reclamava como um estudante de esquerda. Ele precisava tapear o estômago. Como?
Olhou para a cozinha, desanimado. E viu a caixa vermelha. Decidiu: levantou-se, pegou a caixa, voltou à sala, ligou a televisão, sentou-se com a caixa no colo e abriu o primeiro. Ele mordeu o chocolate receoso, como se estivesse com medo que o chocolate explodisse. E mastigou... E gostou! "É crocante!". E pegou outro. E pegou um de marca diferente, mas que também tinha embalagem abominável. E também gostou. E treminou os seis chocolates antes dos comerciais terminarem. Estupefato por ter gostado do gosto, e aliviado por ter, enfim, dado cabo da caixa, ele voltou à cozinha e colocou a caixa, amassada, no lixo. Lembrou-se de que deveria contar pra todo mundo que os chocolates não eram ruins! Mas, quando a noite chegou, ele havia esquecido. E todo mundo se esqueceu da caixa. E ele se esqueceu dos bombons.

Tanto que na quinzena seguinte, quando a mãe comprou outra caixa, todo mundo comeu os bombons de sempre. Mas aqueles seis ficaram lá, por uma semana, quase. Êta, coitados. Quem mandou serem feios?

Ouvindo:
Big Day
Tahiti 80
Fosbury (2005)

sábado, 3 de novembro de 2007

Teleatendimento

Buenas, galera! O mês de Novembro vem aí! Isquindô, isquindô! Ziriguidum!

Deixa de bobagem, Rafael. Antes de continuar, devo explicações aos senhores, presumo. Eu simplesmente sumi nas últimas semanas do findo mês de Outubro, deixando este pobre blog às moscas. Mais tempo do que gostaria, aliás. Mas dessa vez, a culpa não foi (somente) minha. Eu fui, senhores, vitimado por um complô. Os eventos foram cuidadosamente manipulados por uma grande companhia multinacional, cuja única intenção era de humilhar e destruir a minha feliz vida de cidadão terceiro-mundista. Depois de nove dias sem internet (Ouviram bem? Nove dias!) o técnico veio até o meu condomínio, abriu o modem do condomínio e descobriu que era mau-contato do cabo com o modem. Caralho, nove dias por uma bobagem dessa. A Telefônica me enoja. Fizeram o maior rebu, disseram que não tinham gente pra mandar pra cá, diziam que os técnicos vinham e não achavam ninguém... Enfim, riram muito da nossa cara.
Graças à Telefônica, fiquei sem internet durante o fim de Outubro. E daí a falta de postagens. Mas tudo bem, tudo muito bem. Continuo mandando tiros pra cima e pra baixo, gentem. Alguém me segure! Inspirado pelo acontecimento, reacendo a chama. Go, Inominativo! o/

Contos do Cotidiano
IX - Teleatendimento

Quando nosso herói chegou em casa aquele dia, fez o de costume. Trocou-se para uma roupa mais caseira, foi ao banheiro, e sentou-se, placidamente, em seu sofá de costume, para acompanhar o noticiário noturno, que em breve começaria. Assim que ele senta, entretanto, seus filhos - dois anjinhos terrivelmente energéticos - o interrompem. "Paiêêêê", diz o mais velho, portando a voz da dupla. "A internet, paiê! Não tá funcionando!". Assombrado, o pai se vira ao rebento mais velho. "Como não? O técnico não veio hoje?". "Não, pai. Não veio ninguém", responde o mais novo. Ele se virou para sua esposa, que estava de férias da empresa, e ela fez uma negativa com a cabeça, confirmando a versão dos guris. Sem visitas.
Com todas as cabeças viradas pra ele, o herói se sentiu impelido a tomar uma decisão. Levantou-se, e pegou o telefone, odiando a vida. Discou para o telefone da empresa.

Como de costume, uma odiosa voz monótona saiu do telefone, pedindo para ele discar o código de área da cidade dele, seguido do número do telefone. Ele obedeceu, nervoso. Concluiu a digitação, e a voz automática diz: "Este número não está cadastrado. Por favor, tecle o código de área, e o telefone". Se o papai não fosse um ser civilizado, teria esmagado o telefone com suas mãos, e cometeria tantos homicídios quanto conseguisse, até chegar na sede da empresa e cometer um ato terrorista realmente chocante. Mas ele se segurou. Digitou os vários números pausadamente. A voz disse "Boa noite". Ele respondeu, mentalmente, um "queime no Inferno, vagabunda", enquanto a voz repetia, idiotamente, as opções. "Para promoções e plano especial, digite 2. Para contratações de novos pacotes, digite 3". Ele se vira à sua esposa, buscando apoio, mas ela parece feliz picando um maço de cebolinhas. Talvez, se ele estivesse com aquela faca, ele já teria sido preso por homicídio em massa. Finalmente, a moça falou algo sobre suporte técnico. Ele discou o número correspondente. Veio outro menu de opções. Ele aguardou, digitou novamente o valor, e aguardou o atendimento. Pelo visto, finalmente um ser humano o atenderia.

"Maristela falando, boa noite", uma voz odiosa o atendeu. Engraçado como tudo parece odioso quando estamos com ódio, ele pensou.
"Olá, Maristela. Eu sou um otário que contrata o serviço da sua empresa, e gostaria de reportar que a sua empresa não está fazendo o serviço que eu contratei. Devo implorar por perdão, chamar meu advogado ou cometer um ato terrorista?". Sua esposa o olhou feio, mas deu risada. Os filhos acharam engraçado. Mas a atendente notou que ele não estava brincando. Como a profissão reza, entretanto, ela deve tentar manter o consumidor racional. E manteve a calma.
"Que problema que o senhor está tendo, senhor?".
"Minha internet, minha querida. Estou sem internet. Já chamei suporte, inclusive, e não fui atendido. A senhorita poderia me explicar o porquê?". Ele ouve barulho de teclas sendo golpeadas. E a moça diz que às vezes os técnicos perdem o prazo, mas quando é o caso eles ligam informando. "Então, veja só, eles se esqueceram de me avisar que não passaram em casa. Será que eles acharam que eu ia notar sozinho?".
A moça tentou manter o nível paciente. "Pode ser, senhor, que eles foram, resolveram o problema e deram baixa no seu pedido sem lhe informar. Isso é comum quando ninguém é encontrado em casa".
"Bom, querida, temos um problema. Se foi isso o que aconteceu, o cara se esqueceu de bater na porta, porque sempre tem alguém em casa. E se esqueceu de consertar o problema! Vai ver, consertou o da vizinha, que tem 78 anos e não sabe nem o que é internet". Por dentro, ele ria de suas piadinhas. E ria do fato de ela não estar achando a menor graça.
"Olha, Maristela. É Maristela seu nome, né? Já é a terceira vez que faço esse teste de retardados, digitando números atrás de números, e eu acho que acertei todos eles. Por que ninguém vem aqui em casa arrumar a minha conexão?".
A moça pergunta: "Que erro que o senhor está tendo, senhor?".
"Maristela", responde o rapaz. "Vamos supor que eu já tenha passado por isso, oka? Vamos supor que você já saiba que o problema não é o fato de eu ser burro, e que o problema é o fato de ter algum erro em qualquer um dos seus aparelhos. Vamos supor que você não possa fazer nada pra me ajudar, a não ser chamar alguém que tenha esse poder. Que tal? Você pode ou não pode?".
A moça insiste em segurá-lo na linha, entretanto. "Senhor, você poderia estar me confirmando o número do telefone?".
Ele perde a paciência, mas sem perder a calma, sabe? "Não, minha filha. Não vou poder estar confirmando o número do telefone, porque eu digitei ele quinhentas vezes, e eu tenho certeza e você tem certeza do número que estou usando". Suas mãos tremiam, seu rosto estava quente.
"Então o senhor poderia estar, pelo menos, me confirmando o nome do titular da linha?".
"O nome do titular é o meu nome, mocinha. E, por favor, você poderia estar me transferindo ou vai estar sendo difícil?". A moça ficou ofendida pelo deboche do cara com o gerundismo dela.
"Senhor, antes de concluir, gostaria de informar que nossa empresa está realizando um concurso cultural durante todo o mês, e estamos convidando nossos usuários a participar".
"É mesmo? Que interessante", respondeu o rapaz.
"Sim, senhor. É só o senhor acessar o site da empresa, e clicar em 'Promoção'". Foi a deixa do rapaz.
"Minha querida, como eu vou participar da promoção online se vocês não consertam minha internet?!". A atendente se deu por vencida, e digitou o ramal do suporte avançado.

"Boa noite, senhor. Meu nome é Evandro, estarei dando continuidade ao seu atendimento". O pobre cliente notou que o Evandro parecia mais inteligente. Sabia usar gerundismo com verbos no futuro!
"Boa noite, Evandro. Vou ser direto com você. Estou sem paciência. Esta é a terceira vez que estou batendo papo com atendentes da companhia que lhe emprega, e não porque eu sou um velho desocupado que não tem nada para fazer da vida. Ao contrário, tenho muitas contas pra pagar, inclusive a sua, e preciso acordar cedo pra pagá-las. O caso, meu colega Evandro, é que estou sem conexão com a internet. Já fiz todos os diagnósticos e, se bobear, já fiz até exame de fezes. Os técnicos anteriores não encontraram problemas, e ficaram de enviar técnicos pra minha casa. Ninguém veio. E pelo visto, ninguém virá. Então, posso partir pro vandalismo e usar o meu martelo nos seus produtos? Ou você, finalmente, será a alma eleita a me ajudar?". O atendente deve ter dado risada, porque a voz dele parecia mais animada.
"Vou fazer o máximo, senhor. Vejamos. Você pode me confirmar qual é seu sistema operacional e o modelo do seu modem?". O homem se irritou.
"Evandro, por favor. Não teste minha paciência. Por favor. Eu não quero mostrar pra você o meu repertório de ofensas. Ele é muito extenso e ofensivo, então preserve-se. Apenas faça o seu serviço, sim?". Evandro concordou, pediu um momento e foi fazer uns diagnósticos. A voz dele sumiu.

Alguns pares de minutos depois, ele retorna. "Olá, senhor. Perdoe a demora. Aqui no registro diz que o senhor tem duas chamadas recentes, exato?". Nossa! Então a empresa armazenou as chamadas anteriores! Não foi uma ilusão dele, afinal! Ele diz que sim, é verdade. "E em nenhuma das vezes seu problema foi consertado".
"Aparentemente não, Evandro. Senão não estaríamos tendo esta aprazível conversa".
Mais barulho de teclas sendo dedilhadas. "Senhor", diz o atendente. "Vou estar realizando um diagnóstico padrão. Vou pedir para o senhor estar aguardando alguns minutos". O paizão alivia um pouco sua tensão.
"Okay, Evandro. Não vou estar indo a lugar nenhum, se é o que lhe aflige".

Mais alguns minutos.
"Senhor?".
"Sim, Evandro, eu não fui a lugar algum". Evandro continua.
"Então, senhor. O problema era uma falha no protocolo de registro do seu terminal local ao nosso roteador interno. Houve uma compilação feita há pouco, e alguns protocolos venceram, mas não foram substituídos".
Ele para, repete a mensagem no cérebro, e ao não entender de novo, diz: "Ah, sim... E em Português? O que aconteceu?".
"Ah, senhor, é que atualizamos nosso sistema, mas não atualizamos sua conexão". Olha só, que sortudo, hein?
"Bom, e aí? Vão atualizar meu sistema? Ou vou subornar algum deputado pra isso?".
"Ah, não, senhor. Já estou realizando a compilação. Em momentos, sua conexão estará renovada. Mais alguma coisa, senhor?". Ele ponderou.
"Na verdade, tem sim, Evandro. Diga ao seu chefe que a empresa que ele dirige é uma grande merda? E certifique-se de arranjar emprego em uma empresa decente na próxima vez?".
O técnico riu do outro lado da linha. "Agradecemos a ligação, senhor. Boa noite".

Pronto. Agora, era só aguardar a compilação das quantas lá terminar, e eles teriam a internet. Viu que fácil?
Na verdade, a internet não voltou naquela noite. O paizão ligou de novo na noite seguinte. E ligou no fim de semana de novo, porque outra vez não funcionou. E o problema?Era um buraco que foi mal plugado por um outro técnico, em uma visita rotineira. Mas a empresa não deduziu um centavo da conta. Ah, mas se o consumidor atrasar o pagamento por dois dias, pobre dele...

Ouvindo:
Sly
The Cat Empire
Two Shoes (2005)

domingo, 7 de outubro de 2007

Tortura Profissional Autorizada

Aê, pessoal! Feliz domingo pra vocês, cambada! Já é hora de continuar a rotina deste blog, não acham? Então vamos metralhar palavras! Hora de postagem! Post it, or DIE! \o/

Antes, um pouco de explanações cabem aqui. A Larissa, um anjo de menina e minha grande amiga, também conhecida como Fu, chegou a perguntar se as idéias postadas aqui são minhas, mesmo. Bom, Lari querida (e pra qualquer um curioso), já é conhecido que nada se cria, tudo se copia. Então tem, deveras, algumas idéias que eu vejo em algum lugar, que ouço em uma conversa, que leio em alguma revista ou sort of. Mas eu não as posto cru, elas têm de passar por um mínimo de sandice minha, sabe? Afinal, eu estou as escrevendo. Mas, sim, meus posts nascem, normalmente, do nada no meu cérebro, e eu as aproveito. Tenho que escrever correndo, para que eu não ache que ela ficou chata e eu desista. Só que são todas idéias minhas. \o/

Falando em ir rápido, é melhor que eu o faça. Senão eu desisto de novo deste post. A ver.

Contos do Cotidiano
VIII - Tortura Profissional Autorizada

Tudo começa quando você volta da escola, em um dia genérico. Inocente, você se desmonta do aparato estudantil para aproveitar mais uma belíssima tarde de primavera, fazendo o que a imaginação lhe permita. Ah, la belle vie. Antes de você dar o terceiro passo dentro de sua casa, entretanto, o telefone de casa toca. Você atende maquinalmente, e a voz de sua mama está saindo pelo aparelho. Diz sua mãe, depois da usual saudação de mamãe a um filho querido: "Filho, é melhor você se apressar para trocar de roupa. Daqui a pouco eu vou passar aí pra te buscar". "Buscar-me, mãe? E vamos onde, exatamente?". Ela execra a sua notável falta de memória para assuntos importantes. E lhe recorda: "Ao dentista, filho. Temos consulta marcada às 16h00".
Olha, rapazes, não sei quanto a vocês. Não sei se vocês são masoquistas, se sua dentista é uma loira linda ou um moreno atraente, mas eu morro de terror de dentista. Demônios vestidos de branco, lobos em peles de fofinhos carneirinhos, com mascarazinhas e jalecozinhos e um sorrisinho simpatiquinho (que merda de frase de boiola, essa), dispostos a nos ajudar a nos livrar dos males bucais, com todo o amor e carinho. Mas eu nunca consegui ver este lado de amor e carinho deles. Quando meus pais abandonavam a sala, tudo o que via era uma sala repleta de instrumentos medievais de tortura, todos brancos-hospital, para catalisar o meu receio sobre dentistas - a intenção deles não é nada boa, de longe.

Antes de você entrar no consultório, entretanto, tem toda a concentração. A preparação psicológica. Ao chegar na ante-sala, aquele clima hostil te chega de sopetão. A atendente diz, com uma voz de buzina de Fusca, que o dentista já já atende. Você senta, tremendo feito gelatina, em um banco qualquer. Seus pais pegam aquelas revistas veeeeelhas (Revista Veja: Cai o Muro de Berlin) pra dar uma folheada nas manchetes antiquíííssimas. Você, é claro, não gosta de ler a Veja. Tampouco as opções, como Caras, Revista TiTiTi, e essas depravações do nobre mundo do jornalismo sério e competente. Sentado como um homem às vésperas da cadeira elétrica, privado de suas liberdades, concedidas por Deus, pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição, você aguarda. Essa parte é uma das piores partes da vida, na minha opinião. Do outro lado, aquele zumbido fininho corta o silêncio e gela a alma. Bzzzzzzzzzzzz...
Você só imagina o que aquele ser vindo das profundezas mais esquecidas do Inferno está fazendo com o pobre humano do outro lado da porta, mas seu cérebro não consegue trabalhar com clareza. Ele está em torpor, com o barulhinho preenchendo cada vazio entre os seus neurônios. Todos os seus nervos - em especial os nervos dos dentes - se contorcem de pânico com o barulhinho mais temido pela humanidade. Sua mãe, aquela espiã traidora, não manifesta qualquer semblante de complacência, de pena, de apoio. Claro que não, ela está te entregando, em uma bandeja de prata, ao inimigo! Vendendo-o, tal qual um soldado de guerra, entregue ao inimigo.

Seu coração bate mais rápido quando a porta abre e o outro paciente sai do consultório. Você mal consegue olhar a expressão do paciente, quando o doutor pede um instante para reorganizar a sala medieval de tortura dele. Em minutos, ele reabre a porta, sorri para a sua mãe, e diz: "ele pode entrar". E vira pra você: "vamos lá?", sorrindo, como um anjo da morte. A mescla de fúria e pânico impedem você de ver com clareza. Você pensa em furar o pescoço dele com a broca maldita. Pensa em atacar a atendente e fazê-la de refém, em troca de sua liberdade, pensa em fugir pela janela do consultório. Mas tudo o que consegue fazer é ser conduzido pela espiã até a sala.
Se Dante Alighieri, escritor renascentista italiano e autor de "O Inferno", visse a sala que você agora vê, ele certamente adicionaria alguns capítulos à obra dele. No centro, uma cadeira/poltrona/divã, dando a falsa sensação de conforto. Em volta, aqueles aparatos todos, como brocas, e ferrões, e tubos, e pinças, e cutucadores... Seu estômago começa a ceder à pressão interna. Em seu estado de torpor, suas pernas começam a ceder e, para não passar vexame, você se senta na poltrona, que é o único lugar para se sentar, afora a cadeira do dentista que, claro, está ocupada por ele. O dentista fica entretido com sua mãe. Perguntas genéricas sobre sua saúde, seus dentes, formas de pagamento, essas miudezas. Sua mãe abandona a sala. Vamos à carnificina!

"Abra mais um pouco a boca", e uma cutucadas aqui e ali. Algumas broncas pelo relaxo na escovação, outras cutucadas. Ele pega um tubinho. Joga alguma coisa na sua boca, e manda você cuspir. "Bom, vamos fazer uma limpeza aqui para tirar o tártaro, e você tem que escovar melhor aqui", diz, bonzinho. Você não tem a menor noção se seus olhos deixam transparecer o seu medo simples e puro. Simples e puramente medo. "Olha só...", ele diz, ao checar um dos dentes. "Parece que temos um morador aqui...". Algumas cutucadas. O espelhinho entra na boca. Outras cutucadas. "É, é uma cárie. Vamos ter de removê-la". Acho que essa é uma boa hora para entrar em pânico.
"Ah, ah-eh-há, eh-ah, ah?", diz você, mas o que você diz é ininteligível, porque sua boca está aberta, e cheia de tubinhos e coisas. Ele deve entender a essência, entretanto, porque responde "Não se preocupe. Vai ser rápido. Nem vai doer". Agora, sim. É uma ótima hora de se entrar em pânico.

Queimando de ódio por ter dado munição ao inimigo, você toma a única decisão possível: preparar-se para o pior. Ou, como a nossa estimada Ministra do Turimo tão bem disse, relaxa e goza. Ele coloca uma agulha na sua boca. "Relaxa, é só o anestésico...". Depois, algumas preparações, um tubinho de sugar baba, e vamos ao trabalho! Alguns dentistas são tecnológicos, têm trequinhos de última geração, mas a idéia é a mesma - furar seu dente até a cárie sair rendida.

O barulho cessou. A ausência do barulho deixa seu cérebro livre para realizar pensamentos avançados. "Acabou?", você pensa. O dentista puxa a máscara, e diz: "Pronto. Terminamos. Viu como não doeu nada? Você nem reclamou!". Você olha, estupefato. Não doeu, mesmo! Ele diz que, devido à anestesia, é possível que você tenha dificuldade em falar. E que não é sensato comer nada por uma hora, e não comer nada muito duro por umas 4 horas, para que a massa endureça bem. Dente restaurado, tudo arrumado, você está liberado para ir. Como assim? E a dor? Já acabou? Ele foi simpático, mesmo? Sorridente de verdade? Fez piadinhas, elogiou seus dentes? Isso é injusto! Como é que você pode odiar um dentista se você gostou dele? Se ele torce pro seu time? Se ele é um amor de pessoa, se ele mostra a foto do filhinho dele, que acabou de nascer? Como?
É duro odiar um cara que é tão gente boa, que gosta de você, que cuida de você, que é simpático, bonito, inteligente, agradável. Mas, sei lá, eu esqueço de tudo isso quando ouço a broca. Aquela maldita broca.

Ouvindo:
An Honest Mistake
The Bravery
The Bravery (2005)

terça-feira, 31 de julho de 2007

Atraso

Hey hey, people! Todo mundo feliz? Que saudades agudas deste blog! E de vocês também! \o/

Antes de começar, aqui, pára tudo! Eu sei que é muito improvável que Vitor, meu irmão menor, venha a ler isto, mas ainda assim, acho justo. Meu maninho querido, que está ao meu lado desde que me deou por gente, desde que me lembro de fazer bobagens, completou na véspera deste dia seu décimo-oitavo ano de vida. Agora, entre outros, ele poderá ver filme de sacanagem, beber até cair, fumar, assinar suas dívidas e ir preso. Mas como ele nunca fez nada disso e - até onde sei - não pretende fazer tão cedo, ele vai descobrir que chegar à maioridade não é nada demais. Assim mesmo, foi mais um ano que meu irmão esteve ao meu lado, sendo o meu irmão que eu não escolhi, mas que escolheria de novo, sem a menor dúvida. Parabéns pra você, Vitor, meu irmão. Que você aproveite seu próximos anos às bicas. Amo você, bros. ^^
Ok, de volta a programação usual.

Esse título bem que poderia servir para a minha falta de freqüencia aqui no blog, não acham? Quer dizer, eu, nesta sanha minha de ser alguém na vida, praticamente abandonei as minhas raízes de inutilidade aguda aqui, neste blog, que tanto amo. Mas, ah, eu tomei vergonha na cara hoje, e estou furando uns 25 compromissos, incluindo um almoço importantíssimo com o Primeiro-Ministro Gordon Brown e uma rodada de discussão com proeminentes membros da economia liberal japonesa. Viram só, como sou importante?
Mas não. O "Atraso" em questão nada tem a ver com o fato de eu estar atrasado. E sim com o fato de eu ter me atrasado. Hoje. Sabe, quando tudo dá errado ao mesmo tempo? Os deuses conspiram cada mínimo detalhe para que um breve espaço da sua existência seja marcado por uma inexplicável concentração de imprevistos azarados? Pois é. É quando você está atrasado.

Contos do Cotidiano
VII - Atraso

Ele estranhou quando deu mais uma virada na cama. "Devo ter acordado bem cedo", pensou, enquanto tentava reencontrar o sono para dormir mais um pouco. Estava acostumado a ser acordado pelos seu despertador infalível e, quando este falhava, seus pais forneciam um insuperável backup, retirando-o de seu sono na hora correta. Aliás, correto até demais. Bem que eles poderiam deixá-lo atrasar alguns dez minutos, pô.
Não era de se suspeitar nada ao virar para o outro lado e notar que já havia acordado. As pessoas, dentro de uma certa rotina, costumam despertar mais ou menos no horário em que elas estão acostumadas. Mas ele acordou meio cedo, pelo visto. Dormiu demais? Estava descansado? Era o vento frio que o despertou, talvez? Nah, não era importante. Ele poderia voltar a dormir. Mais uns quinze minutos de cochilo, oras. E foi assim que aconteceu, Mais uns quinze minutos de cochilo.

Quando ele percebeu o que estava acontecendo, já havia passado tempo demais. Seus pais estavam pulando da cama com o rosto em pânico, gritando palavras ininteligíveis e, esporadicamente, berrando o nome dele. Uma sinfonia desajeitada ecoando o ar, como quando derrubam uma pilha de panelas no chão e a tampa fica barulhando por minutos. Abobalhado, sentou-se na cama, e olhou para os lados. "Sol? Não costuma ter sol na janela em Julho quando eu acordo. Estamos no Inverno. O que está acontecendo?". Eis que, maquinamente, ele vira-se ao infalível despertador. E onde deveria estar escrito 6h00 está escrito 6h45. Ele estava meio atrasado, afinal.
Antes de partimos para o desespero, vamos entender a rotina do protagonista. Ele acorda às 6h00, e vai para a cozinha aos trancos e barrancos, arrumar algo para comer. Ele toma café antes de seus pais, porque sai mais cedo. Quando já são 6h30, aproximadamente, ele já concluiu sua refeição, e vai ao chuveiro, pra ver se ele acorda na marra. Quinze minutos de uma tentativa sem sucesso, e ele veste suas roupas, disfarça o cheiro corporal com um desodorante e sai do seu reduto familiar às 7h00. Então ele tem quinze minutos para fazer o que ele faz em uma hora. Agora podemos imaginar que ele está em pânico.
"C***lho", estou atrasado!", grita, em meio aos gritos de seus pais, enquanto ele se joga de sua cama para se desvencilhar mais fácil do edredom. Lembrando que está frio do lado de fora, ele sai desabalado para o guarda-roupa para pegar uma blusa e um casaco. Seu pai saiu para comprar pão, e sua mãe foi para o banheiro tomar banho. Ele não come o pão que o pai busca, ele tem de sair mais cedo. Então ele foge pra cozinha, olha para os pães de forma e decide que quinze minutos não é lá tempo suficiente para passar manteiga no pão. Ele pega então uma caixa de leite e o Toddy e senta-se, às pressas, para tomar seu meio-café-da-manhã. Ele vira o leite na caneca, coloca as duas colheres e toma um gole. E ele quase vomita, porque ele não lembra de ter provado algo tão ruim em muitos anos. Ele olha pra caneca, e nota que os flocos estão com uma cor estranha... Ele cheira a caneca, e constata: a porra do leite azedou fora da geladeira. Ééééca, ele pensa, jogando a caneca na pia e desejando passar mal de propósito para tentar se desintoxicar. Ele se lembra de uma garrafa de Coca-Cola na geladeira e, vorazmente, agarra-a, e toma vários goles. Ele quer ter certeza de que o gosto da Coca vai inibir aquela sensação horrível de leite azedo, aquele gosto nojento, aquela cor de merda em pó... Que nojo!

Frustrado em tentar disfarçar o gosto de nhaca na sua garganta, nosso herói conforma-se com o azar de seu dia. Atrasado, sem pão com manteiga e com essa lembrança de ter virado aquilo na sua boca, ele sente-se derrotado. E vai para o chuveiro, afinal, para esfriar a cabeça. E acaba esfriando, mesmo. Deixaram o chuveiro no "Frio" ontem à noite, e esqueceram de voltar ao normal. Não é gostoso tomar uma ducha fria quando a temperatura é de 8º. Amaldiçoando a vida, ele desliga a porra do chuveiro e coloca o infeliz no lugar.
Depois de um banho relâmpago, onde ele nem pôde aproveitar a água quente, ele sai correndo para o quarto, caçando roupas. Acha lá uma camiseta que deve estar legal, uma calça que deve estar limpa, um par de meias que deve ser um par igual, roupas de baixo que ele reza que estejam limpas, e joga tudo na sua cama, para se vestir. Em tempo recorde de 1'35'', ele consegue estar vestido. Quando ele se olha direito, ele vê que a calça dele não estava limpa, tinha uma mancha de algum lugar, que ele não recordava. Frustrado, ele remove-a e coloca outra calça. Tudo bem, é a vida. Coloca os sapatos, arruma sua mala e vai até a mãe para lhe desejar um dia feliz, já que o dele não será, mesmo. É quando a mãe diz pra ele: "Filho, suas calças estão curtas". Ele olha pra baixo e vê seus tornozelos. Ele olha no relógio. 7h15. E responde "Ah, mãe, grande coisa". Ele sai correndo para o ponto de ônibus.

Em um dia normal, depois de pegar o ônibus que passa pela estação de metrô, ele desembarca, vai à plataforma e espera, em média, 90 segundos até o próximo trem, que está vazio o suficiente para que ele entre, e lotado o suficiente para que ele não tenha muito conforto. Mas é o suficiente. Mas hoje não é um dia normal. Ele vai ao ponto e constata, frustrado, que o ônibus de sempre já passou. Ele está uns vinte minutos atrasado. Enquanto ele está no ponto, ele se lembra do Teorema do Atraso, um teorema interessante, que merece nossa atenção agora.
Segundo uns estudiosos alemães e franceses, há uma correlação muito forte entre o seu tempo de saída do lugar de origem e o tempo de chegada ao lugar destinado. Teoricamente e logicamente falando, a proporção deveria ser de 1:1 - ou seja, pra cada minutos que você se atrasa para sair, é um minuto que você se atrasa ao chegar. Acontece que seja lá em que criou esta nossa realidade não ligava patavinas para sensos de lógica e razão, de modo que esta proporção é cruelmente desobedecida. A proporção é, normalmente, maior do que isso (ou seja, 1:2, 1:3, ou até 1:5, respectivamente um minuto pra dois, um minuto pra três e um minuto pra cinco). Quanto mais caótica a cidade, quanto mais terrível for o tráfico e mais azarado for o seu dia, maior a proporção será, provam estes estudiosos, por meio de cálculos realmente enfadonhos e chatos, que serão beneficamente evitados. Seja lá como for, podemos esperar que para vinte minutos de atraso ele não chegará no seu destino antes de meia hora, no mínimo, de atraso, certo? Azar. Amargo, amargo azar.

Embarcado no ônibus, ele remove de sua bolsa uma revista, que ele recentemente adquiriu e não pôde lê-la. Ele aproveita o tempo de viagens entre ônibus e metrôs para pôr a leitura em dia. Lendo ele esquece que é azarado, ele imagina. Mas só imagina. Porque lá vem a porra do azar dizer oi de novo. Desta vez, na forma de uma gota d'água em cima da página de sua preciosa revista, tratada com o maior dos carinhos. Quando ele, por reflexo, vira seu rosto em busca da fonte da gota, vem uma segunda. Ele defende-a no meio do ar, mas a terceira passa por entre seus dedos e atinge em cheio a página. Em fúria e em pânico, ele olha para o velhinho com cara de tapado, segurando uma sacola com um guarda-chuva molhado dentro, lá no alto do ônibus, acima da cabeça de todo mundo. Onde ele molhou o guarda-chuva é um mistério, porque faz uma semana que não chove. E porque alguém carregaria um guarda-chuva molhado acima da cabeça dos outros, é outro mistério sem resposta. Mas nosso amigo não pode ter um piti com o velho porque, afinal, ele é um idoso, coitado. Não podemos maltratar estes seres frágeis, estes senhores tão vividos, que viajam de graça às nossas custas e ainda nos desrespeitam, estes velhacos caquéticos filhos de uma... Opa, quase que ele diz em voz alta. Ele avisa ao senhor que a sacola dele está a gotejar, na esperança de que alguma providência seja tomada. Mas o vovô somente troca a sacola de mão. Derrotado, ele guarda a revista. Sem donut para nosso amigo. Coitado.

Chegamos à estação de metrô, at last! Agora, sim, a viagem engrena. O trem passa rápido, vocês vão ver só.
Depois de quase três minutos, a estação parece um portão de entrada para o show de alguma dessas bandas ruins que fazem um sucesso popular que é cientificamente impossível. As pessoas se amontoam atrás da linha amarela, e em cima dela e além dela também, aguardando o trem que ainda não chegou. Temendo ser empurrado nos trilhos por estes vândalos, ele fica a uma distância segura, mas corre o risco de não caber no próximo comboio. Rezando para qualquer um que ele acredite que seja o Criador, ele pergunta o que diabos que aconteceu com ele enquanto ele dormia. "Venderam minha alma pro Demônio em meu nome? Não é possível!", pensa, enquanto um cara que deve ter três vezes mais massa do que ele posiciona ao seu lado, pisando no seu pé e fazendo ele perder as esperanças de que conseguirá embarcar no metrô.
Eis que ele chega. Pra variar, apinhado de outras pessoas. Mas, huah, este é o Brasil! Aqui todo mundo cabe em qualquer lugar! "Um passinho pra lá, por favor", dizem os mais educados, em quanto todo mundo se esfrega e se acoxa uns nos outros, numa verdadeira demonstração de Sodoma e Gomorra. O pecado sobre trilhos. Nosso amigo é um dos últimos a embarcar. Para sorte dele, o cara assustador entrou em outro vagão.
A poucas estações do destino, uma situação inusitada: uma das passageiras, uma atraente mademoiselle, descansava inocentemente em um dos poucos bancos do comboio. Ao notar a estação, e ao perceber que a estação era a estação de desembarque dela, ela tenta cavucar um caminho por entre os metros cúbicos de pessoas para chegar ao ar livre, ou quase. Nosso amigo salta do trem para dar passagem à mocinha, mas o trem apita e a porta fecha. Com ele do lado de fora. ;_;

O outro trem está vazio, do jeito que Murphy gosta. Ele poderia ter esperado mais 30 segundos e pegar um trem vazio a viagem toda. Ou poderia nunca ter percebido que o trem vazio estava logo atrás para não ficar desapontado. Mas não é assim que a vida funciona. Ele embarca, e vai embora.
Felizmente, ele não dorme e perde a estação. Ele desce na estação correta, chega à superfície com notável rapidez e confere um bonito sol de terça-feira olhando para ele. Talvez, afinal de contas, o azar tenha passado. Mas só talvez. O dia ainda nem começou. ^^

Ouvindo:
The Iron Sea
Keane
Under the Iron Sea (2006)

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O Dia em que Vendi Minha Alma

Boa noite, crianças! Hoje eu estou orgulhoso de anunciar que estou postando, pela primeira vez, da minha faculdade!! Aê!! Antes que vocês pensem: "que horrível, o Rafael matando aula pra entrar na net", explico-lhes que não tenho a minha segunda aula, de modo que estou razoavelmente livre para ir para onde eu bem entender. E isso inclui o meu blog e a página de postagens dele, não? Claro que sim.
Muito bem. Diretamente do Centro Acadêmico Visconde de Cairu da FEA-USP, o post #36, caso você esteja a acompanhar a contagem de posts. Vamo lá, macacada!

Contos do Cotidiano
VI - O Dia em que Vendi Minha Alma
Eu estava olhando para ele. Magnânimo, imperioso, chamativo. Ainda lembro bem quando eu o vi pela primeira vez e ele fez a proposta indecente. "Venda-me sua alma", ele me disse. Eu achei um abuso, é claro. Nem te conheço, nem sei quem você é, e vou sair vendendo minha alma pra você? Mas eu pesquisei, me informei, fiquei a par de coisas. Vi o que ele poderia me dar em troca da minha alma e, ah well, fui convencido por mim mesmo.
"Faço-me presente, então", falei a ele. "Disposto a negociar".
"Você decidiu aceitar a minha proposta, então", ele respondeu. Com um tom que beirava a indiferença. Como se ele dissesse que a minha decisão não faria a menor diferença pra ele.
"Não a aceitei, ainda. Me convenci, mas não o suficiente, entende? Como posso saber o que você poderá fazer por mim? Quer dizer - estou te vendendo a minha alma! Não é qualquer coisa!"
"Você sabe, sim, o que eu posso fazer se você aceitar, criança. Eu posso fazer qualquer coisa. Qualquer coisa", ele disse, reforçando o termo e rindo soberanamente pra mim. "Posso te dar o que quiser, oras. O que você quer?"
Eu olhei pra ele, desconfiado. E não respondi. Na verdade, perguntei "E como você pode fazer isso?"
"Ah, pare de perguntar miudezas. Eu simplesmente posso. São coisas demais para explicar de uma vez só. Mas, ah, eu não sei, posso te fazer herói, posso te fazer rico, te fazer famoso com as mulheres, posso te fazer general de guerra, piloto de uma aeronave. Essas coisas que as pessoas costumam gostar de ser, sabe?"
Não sei se estava disfarçando bem, mas eu estava quase explodindo de alegria. No fundo no fundo, era tudo o que eu queria ouvir. Que eu estava vendendo a minha alma por algo que valesse a pena. Ele continuou.
"Você só tem, é claro, que dar a sua alma para mim".
"E eu levo uma vida normal?"
"Tão normal quanto você desejar"
"Eu estudo, faço amigos, fico feliz, fico triste, vou trabalhar, vou namorar... tudo normalmente?"
"Ahhn... Veja bem, tudo isto está englobado no pacote 'alma'. Então eu acho queee... não. Mas será que você vai sentir mesmo falta de tudo isso sendo Imperador do país que você escolher?"
Estava em dúvida. Mas sabe quando você está em dúvida mas já sabe que vai dizer sim? Eu esperava que viesse algo que me dissesse que eu estava errado. Mas no fundo, lá no fundo, era isso mesmo que eu queria. Respirei fundo.
"É, talvez você tenha razão. Não sentirei falta de nada disso quando eu for o que eu quiser ser."
"É essa a atitude! Viu como não é difícil? Não tem como você se arrepender." E sorriu. "E então? Temos um acordo?"

- Muito bem, senhorita. Temos um acordo. R$1038,00. Vou pagar no cartão.
- Ótimo. Tome a nota fiscal. E parabéns pelo seu mais novo PlayStation 2! Garanto que você não vai se arrepender.
- Espero do fundo da minha alma que não, senhorita. Muito obrigado.

Vinte e um de dezembro de 2004: o dia em que vendi minha alma. ^^
Boa noite, pessoas! Espero vocês no próximo episódio!

Post levemente inspirado no texto da Gabriela, a Bié, "Fila". Que a Bié atualize o blog dela mais freqüentemente. ^^

Ouvindo:
Knights of Cydonia
Muse
Black Holes and Revelations (2006)

sábado, 14 de abril de 2007

Radinho de Pilha

Olá, pessoal visitante daquê! Inominativo de volta, para o vigésimo post do ano, depois de uma atribulada semana! Eu tinha uma prova no fim dela, e decidi não usar muito a internet, para que eu pudesse estudar. Só que não deu muito certo - eu continuei usando a internet, arranjei joguinhos para jogar e não estudei. E também não postei nada aqui. Shame on you, Rafael...

Mantendo o ritmo, hoje eu vou falar um pouco mais sobre o cotidiano de um bom metropolita. Vamos embora, senão eu desanimo! Hooray!

Contos do Cotidiano
V - Radinho de Pilha

Sabe, muitos de nós, pobres mortais desprovidos de reservas financeiras abastadas (i.é, pobre), não podemos comprar tecnologicas nipônicas avançadérrimas, como o iPod - tá, eu sei, o iPod é coisa de americano nerd da Califórnia, mas eu gosto mais de fazer piada com os djapas. Seja lá como for, nós, os pobres mortais desprov... ah, os pobres, temos direito de ouvir boas músicas, acalentar as ondas cerebrais e sermos felizes. Mas na falta de um iPod, temos que nos virar com os instrumentos que Deus nos deu em sua santificada pena da raça humana. Refiro-me ao sistema de estações de rádio.
Manja o rádio de dial? Aquele ponteirinho que fica em um número e você tem que ir torcendo o sintonizador até achar uma música que você gosta? Pois é, o excelentíssimo rádio. Existem alguns até mais avançados, que mostram númerozinhos luminosos eletrônicos e tudo. Mas ele só é uma versão siliconada do rádio. Seja lá como for, é o que resta para pessoas, digamos,do meu tipo. Então, vai o Rafael sintonizar rádio. Aliás, aqui abro espaço para contar minha frustação com as rádios. Houve uma época, quando os preços eram acessíveis, os políticos eram honestos e as crianças respeitavam os mais velhos (fiz uma alusão ao vídeo Wear Sunscreen, caso não tenha notado), em que Rafael gostava de ouvir rádio. Eu ouvia a estação... bah, não vou dizer o nome da estação, e tocava lá boas músicas. Eu sabia um pouco sobre o que as pessoas ouviam nas rádios paulistanas, um luxo. Eventualmente, entretanto, a rádio enveadou. Passou a tocar... bah, não vou dizer as bandas emos que fazer sucesso hoje em dia. E quando não era emo era aqueles raps de gângsters americanos. Vou deixar claro - eu gosto de rap e hip-hop, acho um estilo musical dançante e fascinante. Mas eu não gosto da alusão ao crime e às drogas e à sexualidade barata. Eu ainda sou conservador neste aspecto, okay?
Então, pulhas, a rádio ficou imprestável. E eu deixei de ouvir rádio, mais ou menos no mesmo tempo em que fui presenteado com uma conexão à internet com banda larga, e pude ouvir música pela internet. De maneira totalmente legal, é óbvio.
O problema de uma pessoa que ouve música no computador é que ela não pode passar o dia inteiro no PC. Eventualmente ela precisa ir para outros cantos da cidade. E, no meu caso, ia eu para a escola - que depois foi substituída pelo cursinho - pegando as peruas, que são substitutas mais porcas, menores e consideravelmente mais velozes do que os ônibus. Peruas em si não são ruins. O problema é que elas têm rádios embutidos. E como elas são menores, a p***a da música é ouvida na perua inteira! Então eu entrava nas peruas e estava sintonizado na odiosa e abominável estação que eu odeio - na verdade, existem muitas estações para as quais eu nutro ódio. Então eu ia odiando a viagem, odiando o motorista, odiando ser pobre, odiando tudo. Credo, que mal-humor.
Mas o pior não era isso!! Não!! Eu achava que nada poderia ser pior quando eu entrava nessas peruas. Até o dia em que eu entrei (tão ingênuo o menino...) e vi que a rádio estava sintonizada em uma estação evangélica!!! AAAARGH!! O cara do rádio gritando coisas ininteligíveis a plenos pulmões e, pior, o cobrador dizendo "Amém, Senhor"!! Eu olhei para a cara do cobrador, para o motorista e desci da perua. =)
Desde lá, eu tentei pleitear com a minha mãe um CD-Player, um MP3-Player, sei lá, qualquer droga que não me obrigasse a ouvir aquilo. A minha mãe me jurou, uma tarde de Novembro, que queria me dar um iPod, mas ela descobriu que os iPods costumam ter quase 4 dígitos no preço, então ela desistiu. Então eu tive que me virar com aqueles radinhos de R$10, que só pegam FM e se você colocar na posição errada ele não funciona. Eu tive dois, e os dois funcionaram, somados, por 3 meses. Grande coisa... Continuei à mercê dos maléficos cobradores de ônibus.
Finalmente, consegui um tocador de CD! Aê!! Eu arranjava cds para ouvir no caminho, nem me importava com o que o chatão do motorista tinha colocado, e ia cantando Jamiroquai como se fosse música de natal. Aê! Até que a pilha recarregável parou de funcionar, e comprar uma nova é muito caro. Então, o que sobrou? Um walkman de 1987 que achei jogado aqui em casa. Comprei pilhas novas e, hoje em dia (me sinto Joseph Klimber), passo o dia ouvindo Alpha FM. Apesar de ser uma estação de tiozão, que só toca músicas de tiozão, eu lembro da minha infância, e da minha mãe ouvindo as músicas na Alpha FM, e das músicas que me ensinaram a engatinhar no Inglês... É a única rádio que eu não tenho medo de pegar uma banda cantando emo, ou gangsta rap, ou pagode, ou forró ou, pior ainda, um "aleluia, irmão!!". Quer dizer, a não ser quando eu chego no Campo Limpo, lugar esquecido pela metrópole paulistana, e o bairro onde moro. Aqui as rádios clandestinas começam a funcionar a plenos decibéis. E, quando eu menos espero, gritam um Aleluia entre uma música do Kool and the Gang. É o azar de se viver na periferia. =)

Ouvindo:
Too Hot
Kool and the Gang
Ladies' Night (1979)

sábado, 24 de fevereiro de 2007

O Homem que Falava Demais

Bom-dia! Bom-dia! Fevereiro chegando ao fim, hein? Alguns de nós já voltaram a rotina, e continuam apanhando dela. Outros, como eu, voltarão logo mais. Outros de nós começam uma rotina nova em breve - certo, Gabriela querida? - e outros estão sem rotina definida para o ótimo ano de 2007. Rafael está animado para continuar a sua rotina, e foi passear para fazer compras necessárias. E aconteceu o que vou lhes contar hoje.
Atualmente, muita gente reclama que a sociedade moderna é uma merda. Os metropolitas são grossos, mal-educados, prepotentes, donos da verdade, sem paciência, preconceituosos etc. Rafael aqui, que não gosta desse tipo de imagem negativa para a humanidade, tenta ser uma pessoa, digamos, melhor. Sabe, educada, atenciosa, feliz, curiosa. Mas é só com pessoas deste tipo que acontece este tipo de evento.

Contos do Cotidiano
IV - O Homem que Falava Demais

Como eu dizia, estava Rafael ainda hoje no Shopping Jardim Sul, na Zona Sul de São Paulo. Eu ia esperar minha mãe sair do trabalho dela e fazer compra de reposição de bens escolares. Enquanto minha mãe não saia, entretanto, Rafael foi passear e observar a vida. Entrei em algumas lojas, vi alguns preços, li alguns livros na Siciliano - eu realmente adoro livrarias.
E daí eu entrei em uma papelaria para ver preços de estojos. E encontrei o figuraça do título. Vocês já viram aqueles senhores na rua que adoram parar para conversar com todo mundo? O cara fica no ponto de ônibus contando sobre alguma aventura dele em 1930 e coisas do tipo, sabe? Então. O senhor que estava na papelaria era um deste tipo. Estava lá, conversando com a mocinha que fica no balcão. Se eu não tivesse conversado com o cara, eu poderia até pensar que ele fosse um dos velhos babões, que adoram ficar olhando pras adolescentes. Mas não, ele estava passando uma das lições que ele tem, em grande quantidade, de sua vida.
Eu fiquei na minha, deduzindo que o senhor sairia e fosse embora para, enfim, eu poder perguntar para a atendente onde ficavam os estojos. Mas, é claro, ele veio falar comigo. Pegou uma caneta dessas de desenho da Era Espacial e me disse, como se fosse algo terrível: "Hoje em dia todas essas canetas são feitas pelos chineses", e se virou. Lembra o que eu falava lá em cima? Sobre eu ser educado, atencioso e etcétera? Então, Rafael parou para ouvir o senhor. Ingênuo...
Depois das canetas, ele começou a falar que o preço estava barato. Preço de camelô, aliás. Talvez na 25 eu poderia achar uma caneta por um preço parecido. Assim como em Nova York, em que você pode achar ótimos relógios a preços muito reduzidos com os camelôs de lá. "Aliás, quando eu fui pra Nova York", dizia o senhor, "teve um moço que vendia relógios abrindo o casaco dele. Eu comprei um relógio bem bonito, e só paguei US$40,00, o que é barato para o padrão dos relógios americanos. Agora, quando ele deu problema, levei em um relojoeiro, e perguntei se existia uma maneira de trocar a bateria, como quem não espera nada. Pois não é que quando o cara abriu o relógio ele me mostrou que as peças eram feitas de diamante e, portanto, eram bem verdadeiras? Naturalmente, o camelô roubou de alguém e me revendeu, mas eu não podia contar ao relojoeiro, né?"
Como é de se esperar, ele conta a história com uma riqueza maior de detalhes pois, afinal, foi ele quem viveu a história, não eu. Mas o interessante é a maneira que a história foi evoluindo. De repente, ele falava sobre os furtos daqui do Brasil. E como o Brasil é um país atrasado e infeliz, porque as pessoas reclamam da sociedade mas não fazem nada por ela. E existem os incultos e os marginais, mas eles são resultados de vinte anos de democracia pessimamente guiada. E hoje estes votam no Lula, e ficam pedindo dinheiro, e a sociedade piora. Aí, ele fez uma pausa. Eu calculo que ele estava processando novas palestras.
Que fique claro neste ponto: eu não concordava com a maior parte do que ele dizia. Qualquer um que conhece o autor deste blog um pouco deveria saber que ele não gosta de engolir esta falácia de que somos atrasados, e de que o Primeiro Mundo é a sociedade perfeita, etc. Acontece que eu não estava a fim de discutir com um senhor de, no mínimo, 70 anos, que já tinha uma opinião formada beeeem antes de eu pensar em nascer. Além do quê, como eu falei, eu sou educado. E deixei o homem concluir. Mesmo porque eu vi que ele não gosta do Lula, então ele é um dos meus.
Enfim, depois de uma breve pausa ele continuou falando que ele não gosta da sociedade hipócrita brasileira, porque existe tanta imundice aqui neste país que passou a ser comum para as pessoas verem mendigos na rua. Elas vêem, e passam como se não vissem. "Outro dia", disse o figuraça, "eu vi uma mulher na rua, em pleno Natal, com seu filho no colo. Eu vi um policial e pedi para que ele fizesse sua obrigação, e retirasse a mulher da sarjeta e a levasse para um abrigo. É claro, nos Estados Unidos os policiais fariam isso sem hesitar mas, aqui, neste país atrasado, o policial nem se mexeu. Falou que não era da conta dele. Então eu tive que mostrar minhas credenciais para ele, e obrigá-lo para fazer". Neste ponto, o senhor me mostrou as credenciais em questão. Ele é oficial superior do Segundo Batalhão do Exército (ooooh). Deve ser importantão.
De qualquer jeito, contou mais umas histórias onde ele precisou usar de sua influência militar, e passou a falar da classe média brasileira, que é vista lá fora como uma das mais atrasadas do mundo. Segundo o senhor, os intelectuais brasileiros não gostam de ler, e passam o dia inteiro vendo televisão. "Isto é típico dos novos ricos, que ganham dinheiro e não querem repartir. Quando pessoas sabem ser ricas, elas demonstram classe. Os verdadeiramente ricos são educados, simpáticos, afáveis". E ele contou que a elite americana sempre faz doações para programas sociais nos Estados Unidos. Ah, sim, Rafael sempre temperava a história dele com um "É mesmo?", "Nossa! Não sabia!" e "Que interessante!".
Finalmente, ele disse que precisava ir, e me perguntou o meu nome. Eu respondi, e ele já emendou outra história. Ele tem um neto com o mesmo nome que o meu, que nasceu um mês antes de mim e que está estudando para ser piloto de táxi aéreo. Eu fiquei (ou eu fingi ficar, já não sei) bastante interessado. Ele concluiu contando que o neto isso e aquilo, e foi embora, dizendo que foi um prazer conversar.
Depois deste banho, o que eu concluí? Na análise minha, o senhor é um militar que ganhou bastante dinheiro na Era Militar e nos períodos anteriores, quando o Exército era influente e vivia reescrevendo a história do Brasil. Como ele devia estar acostumado com a sociedade de 1940 ou 1950, sei lá, ele está acostumado com uma época onde policiais prendiam ladrões de bolsa de mulheres, e os Estados Unidos acabaram de ser promovidos a mocinhos na história mundial. Acredito eu que ele tenha ido para Nova York na mesma época, e tenha tido uma ótima impressão da Grande Maçã. E hoje, envelhecido, e amargurado pela realidade do bom século XXI, ele solta seu veneno para quem quer ouvir. Pessoas que têm a paciência de ouvir as lamúrias de um pobre ancião, que viu bastante sobre a vida e o mundo. Alguém como, digamos... eu. ^^

Enfim, não sei dizer se o vovô está certo ou errado. Acho que cada um está certo, no seu ponto de vista. Ele acha que o Terceiro Mundo é só uma gaiola de macacos mal-amestrados que errou terrivelmente, quando decidiram abandonar a Europa. E que lugar civilizado mesmo é o Primeiro Mundo. Eu, por outro lado, acho que as sociedades têm lá seus defeitos e qualidades, mas são todas, em geral, sociedades humanas. E agradáveis, apesar de tudo.
Mas o cara viveu pelo menos 3 vezes mais do que eu. Quem sou eu para julgá-lo? É capaz de ele ter conhecido a minha avó no passado e eu nem saber. É capaz de ele ter salvo a vida do Presidente Kubitschek e eu nem saber. A gente só sabe das coisas quando as pessoas contam. Certo?

Ouvindo:
Outsiders
Franz Ferdinand
You Could Have it So Much Better (2005)

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Um Dia no Mercado

Ôe! Rafael de volta no Inominativo para mais uma vez falarmos sobre coisas interessantes e divertidas! Bom, talvez não pra vocês, seus chatões, mas eu me interesso e me divirto. E como este blog é meu... Har, har, har...
Bão, e hoje eu vou me divertir falando sobre aquele interessante dia em que a mamãe e o papai decidem que é hora de repôr as reservas domésticas da casa. Mercado! \o/

Contos do Cotidiano
III - Um Dia no Mercado

Ir ao mercado é, sem dúvida, um evento para toda a família. Os filhinhos colocando roupa decente - também, a mãe não iria deixar os filhos irem pra lugar nenhum com aquela roupa suja e velha -, colocando o tênis... Todo mundo no carro, bora pro mercado! Não importa onde você vá, se é o Supermercado Chinchila (o melhor do bairro) ou o HiperMercado Carrefour (ênfase no Hiper), a idéia é a mesma. Você chega lá, e tem aquela divertida cancela eletrônica, e uma simpática voz eletrônica, ordenando você a apertar o botão vermelho e pegar o tíquete eletrônico. O procedimento varia, mas a idéia é sair com o cartãozinho. Daí tem aquele filho que adora apertar botões, e pede "purrr favorrrrr paiêêêê" pra deixar pegar o cartão. Daí vai o pai, amável e paciente, e deixa o filho pisotear todo mundo no carro pra pegar a merda do tíquete.
Okay, o carro estaciona. Na sessão E4. E não é pra esquecer que o pai estacionou aqui!, diz o chefão para os soldados-filhos. Daí os dois irmãos, a menina e o menino, se degladiam pelo carrinho de compras. "Eu empurro! Eu levo!". Tudo bem, o pai deixa. Ele sabe que os meninos vão desistir quando o carrinho estiver cheio de coisas... E vai lá, a família feliz, para o mercado.
Bom, carrinho vai, carrinho vem, começam as diversões. Sempre tem aquelas promoções de chocolates, e os meninos ficam vidrados nessas coisas. "Mãe, compra? Manhê, compra pra mim? Manhê, eu quero!!". Olho gordo é uma merda, não? Bom, a mãe aproveita e lota o carrinho de guloseimas. Bolachas, salgadinhos... "Não vou trazer as crianças da próxima", pensa o pai, lembrando que ele não está com tanto dinheiro assim no banco...
Carrinho vai, carrinho vem, passamos agora por coisas importantes para a sobrevivência da casa. Sabe, arroz, feijão, macarrão, esses trecos. O pai quer convencer a mãe de que o pacote de arroz Érruim® está bem mais barato. Olha lá, só R$3,50, e ainda tem o leve 5 pague 3! Mas a mãe não, acha que o Érruim é ruim, e ela quer levar o mais caro, só porque ele é "gostoso"... "Não vou trazer minha esposa da próxima", resmunga o pai, pensando que ele vai ficar sem dinheiro nenhum. E ele queria tanto aquela gravata...
Como previsto, já no final da peregrinação as crianças cansaram de levar o carrinho. O papai forçudão agora tem que carregar o carrinho cheio de tralhas. E toda hora os dinossaurinhos querem que você leve algo a mais. "Mas, pai, é o Bob Esponja!!". Nessas horas, não é tão hediondo assim pensar em vender um filho, certo?
Finalmente, o fim da via crucis. Ou o início do fim, porque você chegou nos caixas, e têm aquelas filar grotescas, e tem que escolher algum caixa e torcer para os caras da frente irem rápido. E você sabe como é a Lei de Murphy, né? O seu caixa nunca é o rápido. E você fica lá, a vida passando, programas legais da tv passando, carros e ônibus passando e você fica lá. Saco.
Depois de tudo ensacado ("Não, filho, o detergente não vai junto do arroz!"), e colocado no carrinho de volta ("Paiê, deixa eu levar o carrinho? Por favor? Por favor?"), é hora de achar o carro. Cacilda, que sessão era? D5? D4? Não era perto daquela caminhonete? Ah, mas ela já foi embora, eu não estou vendo nenhuma. E aquele Fusca branco, não estava perto dela? Não, o outro era bege. Ah, é! Era E4! Ou E5? Aê! Tá lá o carro. Agora abrir o porta-malas, e colocar tudo dentro. "Não, filho, você não coloca o pão embaixo! O pão vai em cima de tudo! Cuidado com os ovos!!". E, enfim, mais um dia de evento em família chega ao fim. Ah, mas não antes de duas coisas. Primeiro - o filhão quer pisotear todo mundo para devolver o cartão no guichê. E depois, a pior e mais medonha parte - guardar todas as comprar em casa. Brrr... Que terrível...

Dica da vez:
Dois webcomics que chamaram bastante a minha atenção estão na parte de links, ao lado. Webcomic, em tempo, é um comic (gibi ou histórias em quadrinhos), só que na internet. O primeiro mostrado é o tosquíssimo Cyanide and Happiness, com várias piadas de humor negro e politicamente incorretas. Tem alguns que até eu acho dispensáveis, mas tem outros ótimos. Mas só vale ir ver se você não tem problemas com humor negro, okay? Agora, se você tem crises com humor mais pesado, tem o Squidi.net, o site do excelente Sean Howard, que faz algumas webcomics e publica na sua página, que também serve como blog e depósito de idéias dele. Eu realmente recomendo que vocês dêem uma olhada nele.
Naturalmente, os dois webcomics estão em Inglês. Se você não vê graças em piadas em Inglês, então, deixe pra lá. =/

Rafael diz adieu para vocês, pessoas! E até a próxima postagem!

Ouvindo:
Lyla
Oasis
Don't Believe the Truth (2005)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Abre Fácil

Boa tarde, macacada!
Há de haver, agora - e eu espero que tenha - aqueles que estranhem o fato de eu estar repostando aqui menos de uma semana depois do post anterior. Pois é, escrevi este texto no dia seguinte ao post passado, e o arquivei para postá-lo semana que vem. Mas pensei melhor - por que não colocá-lo logo para que todos vejam? Semana que vem eu me viro e penso em outra coisa. Deste modo eu me obrigo a ser mais criativo. Viu só como eu penso em vocês? ^^
Espero que vocês gostem. E se não gostarem, bem, rolem ladeira abaixo, e se machuquem muito.

Contos do Cotidiano
II - Abre Fácil

Eu sentei na cadeira. E olhei pra ele. Ele estava lá, em cima da mesa. Olhando pra mim. Me desafiando. "Tu queres, plebeu? Decifra-me, ou devoro-te!". Eu não poderia achar que era um blefe. Se eu não fizesse o jogo dele, eu não o venceria. Então era isso: fazer o jogo dele. Jogar o jogo dele. E vencer o jogo dele. Ou isso, ou a derrota, humano.
Eu não tinha muitas opções. Peguei o pacote de Bono nas minhas mãos, e olhei o colorido rótulo. Em um alegre destaque, estava o falso "Abre Fácil". Há, que jogada mais desprezível, pacote. A velha tática do "siga as indicações, humano boboca" não funciona comigo. Dei uma nova olhada no pacote e descobri, frustrado, que não havia saídas, novamente. Vai ter que ser o "Abre Fácil". Poxa.
Puxei no lugar indicado. E como eu esperava, não aconteceu nada. A merda do lacre ainda estava lacrado. Então eu usei de minha delicadeza para puxar a pontinha. Quando lembrei que não tenho delicadeza, que isso é coisa de frutinha. E frustrei-me. Mas não, não nasci para frustrar-me! Não desta vez! Tentei de novo. Nada. Outra vez. Começou a sair do lugar... mas era só o pacote me enganando. Porque depois voltou ao início. Indefectível, como antes. Mas eu NÃO VOU DESISTIR, ouviu bem, Bono?
Ele não deu a mínima. Acho que riu de mim. Então eu tentei ir por outros caminhos. Lembrei das eras antigas, quando os marqueteiros não tinham inventado o ludibriador "Abre Fácil", e a gente tinha que abrir o pacote com destreza. Por cima, onde a embalagem começa, saca? Mas eu descobri que as embalagens de hoje são melhor lacradas do que antes. É, não adianta, eu vou ter que voltar para o lacre sacana. Agora eu tenho certeza, o pacote está se divertindo.
Depois de mais de dez minutos tentando pela segunda vez vencer o "Abre Fácil", e de eu me lembrar de ofensas e xingamentos que havia tempos que eu não proferia, eu me lembrei do ensinamento da minha sábia mãe: "não adianta usar a força, filho, tem que ter jeito". Então eu relaxei, pedi desculpas ao pacote, fui me distrair com meu pequeno canino. Voltei à embalagem.
Nada.

Quer saber? fui à cozinha, peguei uma faca, e arrebentei o pacote em dois. Certeiro, no meio. 7 bolachas para cada lado. Pois é, mamãe, desta vez, não foi o jeito. Foi a força bruta, mesmo. Mais uma vez, vitória da humanidade \o/

Ouvindo:
Hot Tequila Brown
Jamiroquai
Dynamite (2005)

domingo, 24 de dezembro de 2006

Socialismo Capitalista

No nosso post pré-Natal deste ano - o primeiro post pré-Natal do Inominativo - não vou falar sobre coisas bonitas e que dão esperanças. Não, porque faz muito tempo que o Natal deixou de ser uma festa para comemorar o Cristianismo. Hoje, crianças, o Natal nu e cru. Feliz Celebração do Capitalismo Consumista pra vocês, pessoas!

Contos do Cotidiano
I - Socialismo Capitalista

Outra vez eu tinha lido, não consigo me lembrar onde, sobre a mais nova vitória do Capitalismo sobre o Socialismo na Guerra Fria. Os amantes do dinheiro, espertos que só eles, notaram que a foice e o martelo é uma marca boa. "Vende bem", na linguagem deles. Então, já que não existe mais aquela franca guerra declarada entre os ocidentais e os orientais, os vencedores pensaram: "Por que não fazer dinheiro com os pobres perdedores?". E então, várias fábricas de camiseta começaram a vender carinhas de Che estampadas em camisetas. Símbolo de expressão esquerdista entre os jovens, as camisetas geram lucros para os empresários. O que é isso? Um paradoxo? Calma, vai piorar.
Ruim seria se fossem apenas os malévolos capitalistas que se aproveitassem dos pobres socialistas. Pior ainda se há a reciprocidade, certo? O que dizer do Presidente da Câmara dos Deputados, o excelentíssimo comunista Aldo Rebelo, que tentou aumentar o próprio salário para R$24.500,00? Um comunista que tem muita ambição? Justiça social com um homem que trabalhou muito e merece a compensação? Ou é canalhice, mesmo?
Seja lá como for, interessante notar que esse negócio de guerra entre capitalistas e comunistas foi só uma invenção dos produtores de armas dos dois lados, que queriam (adivinhem?) lucrar com vendas. Pois é, gente, vamos encarar a verdade: todo mundo nesse mundo quer mesmo é ficar rico. A diferença entre as duas ideologias da Guerra Fria era que uma delas era honesta :P
Onde eu quero chegar com esse discurso ideológico? Bom, eu tinha falado deste texto que vi, onde o autor dizia que ele viu que os capitalistas acharam mais um nicho lucrativo: Vender camisetas e blusões e camisas com a bandeira da União Soviética e enormes "CCCP" estampados no peito. A título de explicação, "CCCP" é como os russos escrevem "URSS". Pois é, ainda ontem eu passei em uma loja de artigos esportivos e vi uma camisa vermelha, toda bonitona, com a bandeira da União Soviética e o CCCP em amarelo-mostarda no peito. Um luxo. Eu confesso que sou um defensor do capitalismo, mas, ah, se eu tivesse R$80,00...
Enfim, preciso rever meus conceitos sobre ideologia. Tá certo que todo mundo quer ganhar dinheiro, mas vender o socialismo para lucrar com o capitalismo...? A Humanidade continua me surpreendendo. ^^

Para fechar por hoje, gente, Feliz Natal! Que ganhem bons presentes, macacada! Viva o Capitalismo!