sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sobre as Maçãs

Feriado santo! Mais um feriado na boa terra brasilis, onde é sol o ano inteiro e tudo tem cores mais vivas! Feriados me deixam animados, me deixam descansados, me deixam despreocupados, me deixam mais felizes. Eventualmente, entetanto, feriados acabam, e tudo fica sem-graça outra vez. Mas oh, well, foi bom enquanto durou, certo?
E pra você? Foi bom pra você? :B

De volta à ativa, é hora de upar algo de interessante aqui. Ou tomara que seja. Se não for interessante, então vocês se deram mal. Assim sendo, cruzem seus dedos e torçam pelo melhor. Normalmente, pra mim, funciona - ontem eu torci pelo melhor, e meu time conseguiu uma importante vitória na Libertadores. Então, às vezes, vale a pena torcer.
Claro, se você for corinthiano, do not bother trying. Ou, sei lá, tente. Desencargo de consciência. :P

Sobre as Maçãs

Um pequeno apanhado de ideias

Você, meu colega de blog, que ora lê este texto. Este trecho, em especial. Imagine um elefante. Um daqueles africanos, com enormes orelhas de abano, pequenos rabicozinhos com final espanadorzado, trombas proeminentes, dentes de marfim e toneladas de peso. Imaginou-o? Imagine-o, agora, em uma típica vida familiar, com esposa, filhinhos e quem mais o convier, em uma piscina de lama, se divertindo nas tardes ociosas em um pequeno hábitat dentro da vasta savana africana.
Imaginou? Então esqueça tudo. Não é sobre elefantes que pretendo falar. :B

Voltemos ao título. Formule uma imagem mental de uma maçã. Uma maçã qualquer, a variedade que mais lhe apetecer. E pergunte-se: o que há neste fruto vermelho e do tamanho de um punho que atiça tanto a imaginação da boa raça humana? Por que a raça humana, em seu esplendor evolutivo (All heil mankind!) dedica tanto tempo de sua existência a venerar um fruto pomáceo tão simples como esse? Tipo, é completamente compreensível venerarmos o dinheiro, ou os cachorros, ou os Simpsons. Mas ahn... a maçã?
Não sabe do que estou falando? Experimente parar por alguns segundos e se perguntar quantas referências existem à imagem da maçã. E existem algumas referências. Algumas bastante conhecidas, devo dizer. Vocês também a conhecem, querem ver? Falemos do Éden.

Recordemos de Adão e Eva, os pirilampos humanos originais. Em algum tempo do passado remoto (mas não tão remoto quanto o tempo de Star Wars, que foi há muito, muito tempo), Deus inventou Adão. E depois, com as peças que restaram (hehe), inventou Eva. Viu Deus que era bom, blah blah blah. Bom, depois de deixar os nossos adoráveis ancestrais perambular pelo jardim do Éden felizes da vida, meio que baixou Hugo Chávez no nosso adorável ente Todo-Poderoso, e ele proibiu a Adão e Eva de comerem um magnífico pomar cheio de maçãs. O pomar ficava em uma área muito bonita (com acesso à Marginal Pinheiros, perto do shopping e com segurança 24 horas por dia), e as maçãs eram vermelhas e bonitas. Realmente vermelhas e bonitas. Daquelas que você acabou de colocar o olho, e já se imagina dando uma dentada nervosa na casca da maçã. Daquelas tão indecentes que parecem pay-per-view do Big Brother. Um negócio indecoroso.
Bom, Eva, nossa menina loirosa e feliz, foi eventualmente tapeada por uma serpente sapeca (que, em minha visão, falava com sotaque carioca) a comer a maçã vermelha e bonita. Deu uma dentada, gostou, apanhou umas maçãs, levou a seu partner, Adão, e foram os dois, desobedientes que eram, a comer maçãs. Eis que aparece Deus, que tinha ido dar uma voltinha rápida, e ele vê essa cena de desobediência direta às suas ordens. Oh, fuck.
Bom, rola um estresse básico, Deus se emputece colericamente, grita como um gorila revoltado, e expulsa nossos tetratetratetratetravós do Éden. Por causa de uma maçã. E por causa de toda a discórdia que acompanhou a maçã. Porque, com ela, os seres humanos deixaram de ser perfeitos. Aprenderam sobre o certo e o errado, e viraram pobres mortais. Em suma, eles tomaram a pílula vermelha do Matrix (que, se vocês pensarem, era vermelha em alusão à maçã).

A partir dessa história popular, meus queridos, a maçã passou a ser o símbolo do pecado da desobediência com Deus, o Mano que Manda. A simpática frutinha virou o estandarte do errado perante o Catolicismo (a religião monoteísta com tendências dominadoras, por excelência), e durante muito tempo a pobre frutinha, tadinha, sofreu de preconceito. Marginalizada pelos católicos medievais (povos sobre os quais já fiz diversas referências nestas páginas), a pobre maçã virou, associativamente, o símbolo do lascivo, do errado, do impublicável. E, não só isso, mas também o símbolo da abertura da humanidade para a razão, a sabedoria universal, o discernimento do certo e do errado. Em suma, tudo o que não era celeste e divino poderia ser representado e canalizado na imagem da maçã. Pesado isto, né?
Mas, tipo, o que a fruta vermelha fez pra merecer isso? Quer dizer, ao ler a Bíblia (e alguém que a leu mais profundamente do que o autor que vos escreve, por favor, me corrija se eu escrevi merda), você, caro leitor, notará que não há qualquer referência à maçã. Não é dito, na história do Éden e da expulsão, que Eva e Adão se saciaram com maçãs. O termo usado é "fruto proibido". Mas pode muito bem ser uma banana, um pêssego, uma laranja, um rabanete. E esse último traria consequências ainda piores, porque um rabanete não é um fruto, logo, não pode ser um fruto proibido. Mas isso não vem ao caso. O que nos apetece é que não está escrito que é a maçã que é má. Alguém criou uma livre-associação entre a maçã e o pecado, out of fucking nowhere!
Sabe-se, com certeza, que as primeiras associações livres entre maçãs e frutos proibidos nasceram na Renascência (logo, não houve preconceito contra a maçã na Id. Média, viram?). Os pintores renascentistas descobriram que eram muito bons pintando coisas, porque inventaram a perspectiva e outras técnicas fodonas de pintura. E eles eram contratados pela Igreja, pra pintar histórias católicas para os católicos. E, naturalmente, rolava a história de Adão e Eva, os pirilampos humanos originais. E na hora de pintar, nossos pintores renascentistas, por falta de melhor opção, escolheram a maçã. Há quem ache que é por influência da história das maçãs douradas no Jardim das Hespérides, uma história da mitologia grega, em que Hércules teve de fazer seu décimo-primeiro trabalho. Segundo a história, Hércules teve de correr até lá, roubar umas maçãs douradas e levar pra Hera, sua madrasta má. Com isso, a maçã do Éden teria a conotação de fruto roubado, de coisa proibida.
Ademais, em latim, maçã é malus. E pecado, em latim, é malum. Se você pluralizar as palavras, ainda, elas ficam iguais (mala). Logo, rolou uma conexão quasi-instantânea entre a maçã e o errado. Mas, vejam vocês, sem embasamento empírico! Foi por puro preconceito!!

Bom, a renascença, eventualmente, passou. A maçã voltou a ser uma fruta inofensiva, todo mundo comia, era aquela promiscuidade típica. Aí, veio Isaque, aquele levado da breca. Lembram-se de Isaac Newton? O rapaz, entre outras coisas, era filósofo, físico, matemático e, no fim da sua vida, se meteu em economia (o motivo da Europa ter passado um século sob o padrão-ouro, inclusive, se deveu a Newton, que influenciou a Inglaterra a usar o ouro como metal principal nos seus cofres).
Conta a história que o inglês estava de boa na lagoa, em uma pequena cidade no condado de Lincoln, leste da Inglaterra, meditando sobre os planetas e essas coisas astronômicas do espaço sideral. Aí, abaixo de uma macieira, ele havia sentado para pensar sobre as coisas que ele estava pensando. Quando uma pequena maçã maturou, ela caiu da árvore, e acertou a cabeça de nosso amigo inglês inventivo. Este, ao levar a dose de maçã na cuca (e após ofender um bocado a árvore e a dor de cabeça) considerou que, afinal, ele havia descoberto a resposta para as dúvidas que ele estava procurando. E ele formou, pela primeira vez, a ideia da gravidade! E nasceu a Lei da Gravitação Universal. E daí pra frente, Newtinho meio que explicou toda a Física que aprendemos na escola. A Física Clássica de Newton. Por causa de uma maçã.
A Física de Newton era, agora, mais um capítulo na eterna luta ciência-igreja. Só que esse capítulo era tenso, crianças, porque era a primeira vez que a ciência tentava explicar as leis do Universo com tantas regras irrevogáveis e indubitáveis. Em termos miúdos, Newton tentou explicar a lei do Universo e, sabemos nós, a lei do Universo era, até aqui, propriedade de Deus, o Todo-Poderoso. Newton tentou dedar pra todo mundo como o Universo funcionava!! Graças à maçã, mais uma vez, os humanos adquiriram sabedoria e capacidade de duvidar do divino. Sem querer, mais uma vez, a maçã era símbolo do lógico e do pecado contra Deus. E tudo o que a pobre maçã queria era ser saborosa... =/

Graças a Isaque, a maçã se transformou no símbolo não-oficial da ciência. Em um dos anos recentes, o manual da FUVEST (aquele vestibular maligno que seleciona os adolescentes para a Universidade de São Paulo, conhecem?) foi publicado com uma maçã redondinha e vermelha na capa. O símbolo, por excelência, da Física Moderna, e do conhecimento nascido em todo o século XIX e XX. Sim, porque não há como negar que muito do que a ciência achou nos 200 recentes anos se deve ao Isaque, o preguiçoso fidalgo inglês, que dormia preguiçosamente em Lincolnshire. E, por livre-associação, se deve também à imagem da maçã. A vermelha e redondinha fruta pomácea. Que livrou a humanidade das trevas e do não-conhecimento. Bonito, né?
Seja como for - mais do que uma fruta, a maçã tem uma imagem transcedente à ela. É como, por exemplo, o leão, cuja imagem é muito mais forte e marcante do que o animal em si. Nunca houve leões na Inglaterra, mas o Reino da Inglaterra utilizava 3 leões estilizados em sua bandeira, pra simbolizar a alta hierarquia do leão na vida selvagem (o leão, after all, é rei das selvas). Não existem países cujas bandeiras fizessem referências à maçãs, mas a fruta vermelha e redonda tem uma imagem forte, marcante. Talvez por ser vermelha (uma cor marcante), por ser gostosa, por ser facilmente reconhecível, a maçã é uma fruta muito famosa. Mesmo quem não gosta de maçã lida sem problemas com a imagem dela, consegue fazer referências simples à fruta e ao seu legado histórico.

A partir daí, o século XX viu a maçã ganhar ainda mais conotações. Por exemplo, a maçã do Sílvio Santos, do programa Tentação (não sei se vou ou se fico...). Ou a Apple Inc., cujo nome adveio da maçã que caiu na cabeça de Newtinho. Ou as maçãs do amor, que simbolizariam o amor, e que nada mais é do que uma tentativa de purificar o pecado da safadeza (hohohoho...).
As maçãs não são mais frutas inocentes. Não são mais pequenos pseudofrutos avermelhados provenientes de árvores da família rosaceae. Nope. São frutas transcedentais. Simbolizam o errado, o pecado, o maligno, a discórdia. E simbolizam a sabedoria livre da religião, o pensamento crítico, o científico. Estranho, né, como uma frutinha de 8cm de diâmetro conseguiu tanta associação à sua imagem...
O que me faz pensar: seria isso um golpe publicitário? Será que houve uma firma que vendia maçãs, e que patrocinou os estudos de Newtinho, desde que ele dissesse que foi tudo culpa de uma maldita maçã? Assim, as pessoas comeriam mais maçãs, a imagem da maçã ficaria pra sempre grudada na civilização? Sim, porque as pessoas adoram discórdias. E uma discórdia que nasceu graças a uma frutinha pequenininha e tão bonitinha e suculenta, então... Fica bem mais fácil vender maçã quando todo mundo sabe que, graças a ela, temos iPods. Que é da Apple, também. Yes, as maçãs vermelhas e docinhas parecem inofensivas, mas dominam boa parte do mundo ocidental. Você convive com maçãs mais tempo do que percebe, sabia disso?
Pense nisso quando comer uma maçã. E aproveite, e vá comer uma agora. Além de tudo, elas são muito saudáveis. E gostosas, também. =D

Ouvindo:
The Shock of the Lightning
Oasis
Dig Out Your Soul (2008)

domingo, 5 de abril de 2009

Zero a Zero


RENASÇA, INOMINATIVO!! :D


Boas noites boas noites para os senhores! É hora de eu tirar a poeira desta minha gaveta de textos despretensiosos, e retornar à fina arte da escrita! Sim, escrever é uma arte fina e requintada, não acham os senhores?

Mas eu não sou requintado. E aí dá nisso, esse monte de bobagens. Can't help it :P

A primeira da nova leva de postagens inominatívicas (e isso existe?) está saindo. Vejamos se sai tão ruim quanto os outros, ou se eu pioro. Huah!

Contos do Cotidiano
XI - Zero a Zero

Para Alex, sexta-feira à noite prometia. Tanto que ele acordou cedo, naquele dia, por causa da ansiedade, mas descobriu que não adianta nada acordar mais cedo; o relógio continua andando na mesma. Às vezes, um pouco mais devagar, até, só pra fazer sofrer. Hehe.
Havia duas semanas, nosso amigo havia ido na balada da faculdade de um amigo dele. Balada vai, balada vem, conheceu a amiga de uma amiga de um amigo do amigo dele. Os dois se conversaram, descobriram que gostavam de filmes hollywoodianos e de música brasileira (e, embora Alex nunca fosse admitir em público, ele descobriu que gostava de Britney tanto quanto a moça). "Ah, pegaê meu MSN" (guardanapo sendo rabiscado). "Ah, eu te adiciono depois no meu orkut". É, rolou uma química. Rolou uns chutes a gol. Mas o placar foi zero a zero praquela noite. Não faz mal, o campeonato ainda não terminou. Ainda rolariam outras chances.
Nas duas semanas seguintes à baladinha, eles descobriram mais algumas afinidades. Gostavam também de Outback e de filmes do Will Smith. "Ah, tem um filme do Will que eu ainda não vi, e que está em cartaz. Quer ir? Podíamos jantar no Outback depois, né?". "Ah, boa ideia, vamos sim". Nada mal pra um primeiro encontro, hein? Conseguiu um cinema e um jantar. Ah, aquela noite, certeza, seria goleada...

Não é de se espantar que nosso menino Alex estivesse animado. Depois de ouvir uns CDs e estudar umas matérias da sua faculdade, resolveu dar uma volta. Viu uns amigos, fez a cruzadinha do Estado de S. Paulo que vivia abandonada no saguão do seu edifício. Lá pela uma da tarde, deu-lhe fome. Como seus pais trabalhavam, ele almoçava sozinho. Ele subiu pro seu apartamento, deu uma re-esquentada na janta de ontem (o popular soborô), almoçou male-male e ligou a TV pra ver se tinha algo que o distraísse até o filme. Pra variar, umas zapeadas, mas nada rolou. Ele resolveu ligar o seu vídeo-game, e colocou um Winning Eleven. Depois de 3 derrotas (incluindo uma espetacular goleada com direito a gol contra), ele achou melhor desligar o jogo, porque aquilo prenunciava má-sorte. Não que ele acreditasse. Mas nunca se sabe. É melhor não dar sorte pro azar, certo? Nunca se sabe.
Deu uma navegada na internet. Encontrou a sua companhia, Gabriela, online em um programa qualquer de conversação instantânea. Checaram o horário, recombinaram o ponto de encontro, conversaram aleatoreidades. É, nada parecia dar errado.

Lá pelas seis, de banho devidamente tomado e devidamente perfumado, achou melhor embarcar rumo à diversão. Entrou na estação de metrô que servia o bairro em que morava (o sortudo Alex calhou de morar em um bairro com linha de metrô), tomou um trem lotado e foi sentido cidade. Acontecem, aí, aquelas intempéries que sempre ocorrem em viagens. Coisas como estações apinhadas, folgados enormes que não saem da frente das portas, escadas rolantes quebradas... Só que, tudo de uma vez. Desgraça pouca é bobagem, hehe. Nosso amigo Alex chegou, naturalmente, atrasado. Mas não faz mal, ele havia combinado de se encontrarem cedo no shopping pra evitar que pequenos atrasos os impedissem de ver o filme. E, ademais, bem ele sabia que Gabriela iria atrasar. Mulheres sempre atrasam. É meio que um charme delas. E assim, ele chegou no shopping, foi ao ponto de encontro, não viu ninguém, e se ocupou em ver vitrines de livrarias e de lojas de jogos.
Seu telefone chacoalhou, então, por causa de uma mensagem. Sua companhia, Gabriela, o esperava no ponto de encontro. Lá ele foi, e lá ele a viu. Ele notou que ela estava bastante bonita. Ele se congratulou, eles se cumprimentaram, e foram à bilheteria comprar os tíquetes para o filme. Ah, aparentemente, nada daria errado. Alex sabia que era errado comemorar vitória antes dos noventa minutos, mas ele, ao chegar no guichê e encomendar os dois ingressos (como bom cavalheiro, ele pagou a entrada de sua companhia), pensou que não podia dar nada mais de errado. Tudo terminaria bem, agora.

Ou quase.

"ALEXANDRE, SEU BOIOLA!". Alex estacou ao ouvir seu nome, e virou pra seguir a origem do berro escandaloso e da ofensa gratuita. Ele terminou de virar o pescoço, e um abraço desajeitado turva sua visão. Dois murros nas costas, e um amigável "E aí, seu bosta!" fazem o Alex reconhecer o perpretador das frases. Um amigo seu, Ricardo, que o encontrou (contra todas as probabilidades, como Murphy gosta) na fila do guichê, e que tinha gritado o nome dele várias vezes. Mas Alex estava tão animado com a companhia que nem ouviu o que vinha de fora. "Só virou pra ver depois que eu chamei você de boiola, né? Seu são-paulino bambi de merda. Tinha que ser um queima-rosca, mesmo! Huahuahuahua!". De trás de Ricardo, mais três amigos aparecem, cumprimentando nosso amigo, dando tapas nas costas, abraços desajeitados. Alex, nosso amigo, estava estupefato, é claro. Tudo o que ele menos queria agora era que empatassem o jogo dele. É, essa história de comemorar vitória antes dos noventa minutos...
Encabulado, apresentou Gabriela aos amigos. A educada menina lhes disse oi, eles responderam. Ricardinho, o nosso amigo sem-noção, não perdoou: "Namorando, então, Alex? Caramba, que sorte, a mina é bonita mesmo, hein?". Sem jeito, Alex mal conseguiu balbuciar uma resposta. Restringiu-se a rir amistosamente, enquanto digitava a senha do seu cartão na maquininha da menina do caixa do cinema.
"Ah, então vocês vão ao cinema!", constatou Ricardinho, mestre em notar o óbvio. "E que filme é?". A menina respondeu, dado o grau elevado de vergonha que Alex estava. "Vamos ver o filme do Will Smith, sabe?". E aqui, a noite, que já estava perdida, acabou de ficar tenebrosa. "Pô, Carlos, bem que a gente podia ir ver esse filme com o Alex, né? Eu não tenho nada pra fazer hoje à noite, mesmo...". Os amigos concordaram. Entraram na fila pra comprar seus ingressos. E Alex estava considerando, seriamente, se utilizar de magia negra avançada para desaparecer. Ah, se ele tivesse ido pra Hogwarts...

Vencido, lá foi ele pro cinema. Sentou-se, claro, ao lado da Gabriela, mas seus amigos sentaram do outro lado. Ricardinho, óbvio, preferiu se sentar do outro lado do Alex.
Eu posso estar enganado a respeito de vocês, meus amigos homens, mas acredito que a última coisa que vocês desejam, ao estarem em estágio de flerte aberto com uma moça, é que seus amigos escrotos façam a menina perceber o quão escroto você é. E comecem a contar, por exemplo, da vez em que você passou mal na balada e vomitou no cara que fazia coquetéis. Ou da vez em que caiu na piscina com o celular dentro do bolso, porque estava muito bêbado. Ou da sua fama na escola de vagabundo e matador de aula. Ah, sim, Alex estava sumindo em sua poltrona. Até que o filme começou. E Alex deu graças a Deus porque a sessão se iniciava. Pelo menos, ele não passaria mais vergonha. Mas que tudo tendia pra um zero a zero... Ele se vira pra engatar conversa com a Gabriela, que estava dando risadas das histórias do Ricardo desde que entraram na sala do filme. Mas ela devolveu um "shhhhh". Ai, meu coração...
Além dos amigos que gostam de empatar, tem os amigos que você não pode convidar pra ir ao cinema contigo, porque eles preferem incomodar você com piadinhas ridículas ao ver o infeliz do filme. E o Ricardinho, esse guri levado, era uma soma dessas duas classes. De modo que ele não deu paz a Alex, nem no meio do filme. Coisas como terminar as falas de um personagem com piadinhas sem graça, se lembrar de uma piada com um papagaio e um argentino, começar a jogar pipoca nos casais que estavam nos finalmentes, rir alegremente de piadinhas do filme... Alex, que se sentia mais em uma tortura do que em uma sala de cinema, se perguntava o que ele fez de errado para os Céus. Gabriela, a traidora, ria gostosamente das travessuras do Ricardinho. Alex estava sozinho. Poverello, poverello...

Zero a zero. A frase ecoava na cabeça de Alex, enquanto eles saíam da sala de cinema. Dos seis que tinham entrado na sessão, cinco adoraram o filme, e faziam piadas infelizes e riam mais ainda. Alex, educado, tensionava um sorriso, mas estava desgostoso. Quase como tomar leite azedo, sabe? Como colocar pimenta no pastel quando você jurou que aquele tubo vermelho era catchup.
Ao voltarem ao shopping, eles se encontraram na praça de alimentação. Um dos meninos emendou "E aí, alguém come?". Alex notou uma última chance. "Ah, não, cara, vou jantar fora com a Gabriela, thanks". "Opa!", disse Ricardinho. "Onde?". "Ah, vamos ao Outback". "Posso ir também, gente? Estou com fome, e faz tempo que não vou lá. Vamos, macacada?" PQP, que cara mais inconveniente. Parece chiclete que grudou no cabelo. Saco.
Chegaram no Outback. Pra Alex, a janta, que poderia ser a redenção, só foi mais do mesmo. É como descobrir que o para-quedas reserva também falhou. E lá vem o chão, se aproximando da nossa cara.
Decidido a perder o jogo com nobreza, ele engoliu a infelicidade, e resolveu aproveitar. Jantaram juntos uma carne de porco apimentada (que custou ao Alex quase um litro de Coca-Cola, porque ele tinha baixa tolerância à pimenta), falaram mais algumas ogrices da vida pregressa de Alex, contaram da baranga que ele pegou no segundo ano só pra não zerar em uma festa...

Zero a zero, pensava Alex, quando deu tchau pros seus "amigos", sob o pretexto de deixar Gabriela no ponto de ônibus, e aguardar o comboio com ela. Ensaiou um último ataque. Um gol aos 49', pra somar os 3 pontos. Mas veio o golpe da redenção. "Aquele seu amigo, o Ricardo... Ele é bem engraçado, né? Escuta, vai rolar uma festa lá na minha faculadade sexta que vem. Convida ele com você, se você for, pode ser?". E ela embarcou no ônibus. Era o apito final.
Afinal de contas, saiu um gol na prorrogação. Um a zero. Mas pro time errado. Foi, aliás, o mesmo placar de uma das partidas que ele havia perdido no vídeo-game, mais cedo. Se foi coincidência, nunca se sabe. Mas era melhor ter ficado no zero a zero, mesmo.
E Alex voltou pra casa mais cedo aquele dia. Havia sido eliminado. :P

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E com isso, retorna o Inominativo! Seja bem-vindo de volta, meu querido blog. Senti sua falta. :D
Algumas considerações acerca desse retorno, entretanto:
* Como eu não tenho mais tempo livre entre as semanas, é muito provável que eu só consiga escrever algo aqui aos sábados e domingos. Mas eu farei o máximo para que eu poste pelo menos uma vez por semana. Se eu não puder, por favor, me perdoem.
* Se não for pedir demais, comentem sobre o que acharam! Eu quero mesmo mesmo saber o que vocês acham sobre meus novos textos. Sabe, boa parte do meu interstício foi porque eu sempre tive receio de sair algo ruim, que não mantivesse o nível anterior. E preciso saber da opinião de vocês, né? Agradeceria se o fizessem. =)
* Descobri, ainda recentemente, que meu antigo blog, O Mal do Século, não existe mais no servidor do Blogger.com.br. Apesar de fazer mais de 2 anos desde que ele deixou de existir, fiquei bastante chateado em saber disso. Eu gostava bastante de lá. Mas não faz mal, o Inominativo é mais legal, certo? :P
* Tomara que eu não torne a desistir do meu blog. Ainda nutro desejos secretos de escrever um livro, vendê-lo como água, ficar muito rico e passar o resto da vida preguiçoso e feliz. Hehe.

Bem-vindos de volta, leitores. Senti a falta de vocês.

We Started Nothing
The Ting Tings
We Started Nothing (2008)

sábado, 28 de junho de 2008

O Homossexualismo a Longo Prazo

Braaaaaains...

O Inominativo volta do mundo dos mortos, caros leitores! Dois meses de uma vida beirando a imprestável, o autor que vos escreve decide que é hora de retornar à ativa de vez, retirando o blog do caixão em que ele estava enterrado, e dando uma vida nova pra ele. Agora, com meu blog-zumbi, atacamos o mundo dos vivos! Peguem as espingardas! Salve-se quem puder!

Oh, bem, antes de chegarmos ao prato principal, vamos à algumas considerações. Leiam esse trecho como "Desculpas que o Rafael dará por ter abandonado o blog por tanto tempo". Eu devo algumas aos senhores. Pois bem.
Nos meses que intercalaram o post passado e este que vocês agora lêem, muitas coisas diversas ocuparam a minha cabeça e, sinto lhes informar, nenhuma delas era piegas o suficiente para preencher nem meio parágrafo de um post daqui. Nesses dois meses, o Rafael que vos fala esteve ocupado tentando repensar a sua vida e suas prioridades, repensar o Universo, a Coca-Cola, o cotovelo e o cotonete. Vejam vocês, o medíocre desempenho estudantil que venho adquirindo na minha sempre-amada FEA-USP (aos que não sabem, Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo) me fez pensar que, talvez, fosse hora de eu rever minha vida. Resultado: não deu nada de diferente. Eu sou muito resistente quando o assunto é algo relacionado a mim mesmo. Eu não vou mudar nem que eu queira, então pra que tentar? Só precisava tentar entender um pouco mais as matérias. Farei o possível semestre que vem. Quem sabe?
Neste ínterim, muitos seres humanos me cobraram a sobrevida deste blog. Aos que nunca desistiram daqui, sintam-se vitoriosos! O Inominativo voltou! Será que pra ficar? Pago pra ver. :)

O HOMOSSEXUALISMO A LONGO PRAZO
Por Que Isso Me Beneficia?

Havia essa boa época do passado, em que os homens eram viris, fortes, suados e peludos, e as mulheres eram carinhosas, amáveis, jovens e sadias. Não, não estou falando de uma propaganda de academia, tampouco de um jogador de futebol e sua namorada top-model. Falo, sim, dos idos pré-históricos, em que só sobrevivia quem corria bagarai, meu rapaz. Os homens precisavam dos seus físicos em dia, para buscar refeição e defender sua prole de inimigos externos. As mulheres, sempre bonitas e sadias, tinham que gerir o domus, além de aumentar a família através da gravidez, do parto, da amamentação e do ensino básico para os novos humanos. Sim, tempos difíceis, aqueles. Mas eram bem mais legais, lembram-se?
Como eu já cansei de frisar aqui, entretanto, a Revolução Industrial fez do mundo um lugar mais veadonho. Os homens, antigamente sarados e parrudos, agora ganhavam pancinhas de chopp e usavam óculos fundo-de-garrafa, e suas esposas passaram a trabalhar também, virando, muitas vezes, mais masculinas que muitos homens. O glamour de outrora se foi.

Aí, no glorioso Século XX, época de guerras e revoluções tecnológicas embasbacantes, também aprendemos a conviver e aceitar pacificamente as mudanças que iam e vinham. E com os homens enveadando cada vez mais, e as mulheres sapatando cada vez mais igualmente, a comunidade de "intermediários" na longa guerra dos sexos passou a crescer, quiçá exponencialmente. Em algumas décadas, os gays e lésbicas ganharam espaço na mídia e na política, fundaram um movimento global, adotaram uma bandeira e se convivem num ambiente que beira o anarcossindicalismo socialista-marxista do século XIX. Não era bem a idéia de Marx mas, hey, ele deve estar satisfeito, em algum lugar do pós-vida (no Inferno, eu espero ¬¬).
À medida que os "intermediários" crescem e somam grandes quantias numéricas, e ganham rótulos e distinções, formando verdadeiras nações pelo mundo afora (algo parecido com o Judaísmo, mas sem a barbichinha simpática), eles se tornam figuras importantes no jogo político contemporâneo. A tendência é eles se tornarem uma soma suficiente para aparecer em virtualmente todos os campos da sociedade moderna, até que seja extremamente natural um estabelecimento comercial com três ou quatro banheiros; além dos tradicionais "homens" e "mulheres" - que serão bem menos usados - teremos os "intermediários", ou teremos "gays" e "lésbicas". Ou teremos um único e simples "banheiro da putaria". Uêba! \o/

Uepa, peralá, dir-me-á um de vocês, ávidos leitores, ao notar que eu estou mostrando um sombrio cenário de gays e lésbicas dominando a humanidade pela superioridade numérica, enquanto os puros de coração sobram excluídos. Onde está o otimismo do subtítulo do seu post?, perguntar-me-ão.
O caso, senhores, é que eu gosto muito dos gays, mesmo mesmo. E não é porque eu sou são-paulino. É porque quando se convive com gays, eles têm uma característica muito interessante para quem é homem como, digamos, eu: um gay nunca dará em cima de uma mulher (teoricamente falando, pelo menos). Ele dará em cima de outro homem que, se for fraco, descobrirá seu lado homossexual também. Isto é: gays se eliminam aos pares, e levam com eles a concorrência que eles poderiam oferecer para um heterossexual. Então, ao ser um dos poucos heterossexuais remanescentes em uma sociedade com alto índice de homos, eu serei tratado a peso de ouro! É uma questão econômica simples: se um produto é raro, ele custa mais!

As mulheres que freqüentam esse blog acharão uma falha em meu raciocínio (mulheres nunca se cansam em tentar hostilizar os homens; vai ver que é por isso que nunca tomam a liderança da sociedade :D). Dirá uma feminista assídua - e eu sei que há muitas - que se é verdade que os homossexuais diminuem a concorrência entre os homens, as homossexuais diminuem o número de mulheres disponíveis! Se a gente assumir que homossexuais crescem igualmente para os dois sexos, a longo prazo os gays e lésbicas terão mais ou menos o mesmo número de integrantes e, por regra de três simples, concluímos que o número de homens e mulheres continuará relativamente igual (ou seja, o chatíssimo 1:1).
Ao que lhes replico: quem disse que o crescente número de lésbicas me incomoda? Au contraire, minhas excelsas e mui garbosas amigas. O Rafael que vos escreve não se incomoda em participar de atos explícitos como um simples voyeur, assistindo tudo de camarote, enquanto duas mulheres se "atacam". Hohoho, não mesmo :B

Recapitulando - no longo prazo, teremos um excesso de "intermediários", seres humanos que não se encaixam nem no "masculino" nem no "feminino". Os homens gays passarão a se relacionar, diminuindo drasticamente a concorrência pelas mulheres solteiras disponíveis. Em um primeiro momento, os homens heterossexuais serão disputados a tapas, assim como as top models internacionais.
Em um segundo momento, entretanto, as mulheres também passarão a se relacionar entre si, fazendo do planeta Terra um grande espetáculo sodomita, ao ar livre, de graça. Oras, diabos, um mundo pecaminoso e gratuito! O que mais eu quero da vida? Fora um suprimento ilimitado de batatas-fritas e Coca-Cola, minha vida estaria perfeita! Morrerei com complicações cardíacas aos 35 anos (precisa ter um coração forte pra agüentar essa vida de promiscuidade toda, e coração forte não é uma característica muito forte em mim ^^), mas eu morrerei extremamente feliz. E, se tudo der certo, irei pro Inferno legal, onde passarei a Eternidade vivendo a vida boa.
Me faz pensar: se existe um Deus, esse cara gosta de mim bagarai, rapaz. Olha só o futuro promissor que me aguarda...

Quanto a vocês, mulheres? Não sei. Mas se vocês precisarem de um heterossexual gente fina nos próximos anos, sabem onde encontrar um. :D

****

Oh, bem! Ao reler este post, percebi que enchi ele de termos econômicos, e usei um tipo de raciocínio típico de pensadores economistas. Queiram me perdoar, não foi intencional. Isso significa, entretanto, que a faculdade tem surtido algum efeito, né?
Com isso, eu tenho mais um post do Inominativo para animar os senhores! Yeah yeah! Muito provavelmente, será o único post de Junho, porque é muito provável que, agora em diante, eu só poste nos fins de semana. Então, até o próximo post do Inominativo, cambada. Salut!

Ouvindo:
Darts of Pleasure
Franz Ferdinand
Franz Ferdinand (2004)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Óculos

Olá olá, senhores seres humanos! O Inominativo retorna ao ofício de sempre. Desta vez, de cara nova e cheio de amor pra dar. Que acharam do novo layout? Meio brega, eu sei, mas já já vocês se acostumam. Oras, se vocês se acostumam com um barbudo iletrado e prepotente como Presidente do Brasil, o meu blog sairá de letra!

A fim de não me demorar muito ao escrever a introdução, não colocarei nenhuma introdução simpática. Vocês que imaginem que eu coloquei aqui algo de realmente enaltecedor e enriquecedor. Algo que vocês não poderiam viver sem. E vamos em frente, que atrás vem gente. Ui. :B

Óculos

Eu lembro de quando eu era mais jovem. Quando eu não tinha nem dez anos de vida, e tinha dores de cabeças gratuitas nas aulas e em frente o computador. Já estava até habituado a elas (sempre suspeitei que cabeça oca deve sentir muita dor quando se pensa por um momento :P), mas mamãe achou tudo muito esquisito. E depois de notar alguma dificuldade minha em enxergar à distância, levou o autor que lhes escreve ao oculista. Não lembro detalhadamente do oculista - tampouco se era homem ou mulher, jovem ou idoso... - mas lembro das dificuldades que tinha em ler aquelas litrinhas miudinhas, láááá ao longe... "E agora? Melhorou ou piorou?" "Erm... acho que piorou.". "E agora? Melhorou ou piorou?". Coisa mais chata, aquilo.
Depois, lembro que o dotô falou que eu tinha vista cansada. Não lembro exatamente o que era, mas eu tinha de usar óculos pra fazer as coisas mais legais, como ver tv e usar computador. Coisas não tão legais, como assistir aula e ler livros, também eram para ser feitas com um óculos. Isso significava, na prática, que eu teria de pagar o mico de usar óculos na sala de aula, na frente de todos os meus amigos, por muito tempo. Ah, o quanto de gozação eu não aturei... Quatro-olhos era o mais comum, e o mais simpático. Lembro-me que eu perdia meus óculos várias vezes, e teve a vez que ele quebrou em uma aula de Ed. Física. Ah, a minha infância...
Depois, minha situação piorou, e agora eu sou míope, mesmo. A tendência é cegar-me e cegar-me ad infinitum, até que eu não saiba reconhecer mais o nariz entre meus dois olhos. Credo, que exagero. :P

Óculos são, na minha opinião, mais uma das geniais idéias ardilosas montadas pela sempre presunçosa raça humana, pra mostrar pra Deus, o Mano que Manda, que quem cuida da nossa vida (e de nossos desastres genéticos, como a miopia, o canhotismo e outros) somos nós mesmos, e nós somos completamente aptos a resolvê-los! Um par de lentes grossas de vidro - ou de outro plástico mais resistente e tecnológico, como o acrílico - cuidadosamente fabricado, e colocado em uma (muitas vezes cafona) armação de ferro ou plástico ou whatever foi inventado para sacanear a falha da natureza, e devolver a você o dom de enxergar! Hooray! E aí, cabe a você colocar seus óculos na frente dos seus apáticos olhos, tão preguiçosos que não fazem direito nem a única função que lhes foram dados: enxergar. Só que, todos sabemos, a vida de um dependente ocular é muito mais complexa do que viver com os óculos sobre o nariz, até que a morte os separe. Nah, tem bem mais coisas.
Quando o cara passa a usar óculos, ele deixa de ser um cara comum. Agora, tudo o que ele vai fazer precisa ser intermediado por aquele negocinho, pra que ele veja com precisão suas ações. É meio que nem o guri que vive andando com sua bombinha de asma, ouo vovô que sempre anda com um comprimido de Viagra (nos dois casos, você nunca sabe quando vai precisar usar, certo?). Mas é diferente, porque o óculos está lá, na sua cara - literalmente - denunciando que você é uma aberração, um ato falho da Natureza. Freak. E todos saberão que você está atrapalhando a caminhada da Humanidade pela vida eterna! Queeeimem-o!

E o pior nem é ser uma aberração. O chato de usar óculos, mesmo, é que você tem que ter um zelo dos infernos por ele. Um óculos, infelizmente, não é qualquer objeto. Você não pode tratá-los como seu telefóne móvel, que você enfia em qualquer bolso, esquece jogado na mesa da sua empresa (ou na carteira da sua escola, sei lá), deixa cair de vez em quando e, se estiver de saco cheio, pode esquecer na sua casa que sua vida será, virtualmente, a mesma. Não, caro. Você pagará caro por não ter olhos perfeitos e magnânimos, que enxergam à longa distância, e viverá com seus olhos postiços todos os dias. É quase como um contrato de venda de alma ao Demo. E se você se esquecer do contrato por um só dia, seus olhos o lembrarão de quão ruim é ser um deficiente visual. Seu cego dos infernos.
E não é só isso: óculos costumam ser, ainda, frágeis. Afinal, estamos falando de lentes de vidro - ou qualquer outro plástico transparente - onde qualquer acidente físico pode estragar seu uso principal. Em miúdos: se você for pateta o suficiente pra riscar seus óculos, corre o perido de eles ficarem imprestáveis, e você ter de arcar com outro. Viu como é uma infelicidade?

Ah, claro, os chatos de plantão haverão de lembrar: não há qualquer infelicidade em usar óculos, seu ingrato! Você enxerga quase perfeitamente graças ao seu par de óculos! Sem ele, como haveria de pegar os ônibus corretos? Como haveria de ler as lousas, sentando ao fundo da sala? Como haveria de reconhecer seu amigo ou namorada(o) de longe, e não se passar por metido? Sem os óculos, eu estaria muito próximo de ser um pária social, verdade, vivendo na marginalidade e sendo excrecado por esse mundo perfeccionista (credo, que drama). Mas, hey, vamos combinar, seria muito mais fácil se eu tivesse, simplesmente, bons olhos.
Bom, pra evitar a reclamação destes ingratos que, como eu, não viveriam sem óculos mas odeiam usá-los, inventaram uma auspiciosa maravilha tecnológica. Uma fina película (atualmente, creio que é feita de silicone) que se coloca sobre o olho e se enxerga tão bem quanto um óculos. Com a vantagem de não precisar usar aquela aberração sobre seu rosto a toda hora! Yay! A lente de contato nasceu pra fazer sucesso.
Mas não pra mim (hehe). É, verdade, o tamanho da lente de contato e sua elegância (usar óculos, hoje em dia, não é mais tão elegante e belo como em outras gerações saudosas) fez com que fosse a preferência de alguns míopes e hipermétropes, cansados dos óculos. Mas eu não vejo graça alguma em ter que ficar cutucando o olho toda manhã, todo torto, pra fazer a lente ficar no lugar certinho. E ainda tem que deixar a lente lubrificada quando não está usando, e não pode dormir com ela senão ela escorrega pra dentro do globo ocular... Pô, meu, puta frescura. Esse mundo anda enveadando descaradamente desde a Revolução Industrial, meus caros. Eu sou das antigas, prefiro o bom e velho e óculos. Super-prático! Pegou, usou! Lavou, tá novo!

Quer dizer, bom, mas nem tanto. O chato do óculos (e da lente também) é que a sua miopia - ou hipermetropia, ou astigmatismo, ou qualquer outra doença que você tenha no seu olho esquisito - não pára de piorar com o tempo, ficando cada vez mais acentuada, mês a mês; mas seu óculos já está feito, montado, e será sempre a mesma coisa. Isso obriga você (ou seu pai, dependendo do seu grau de inutilidade social) a comprar um par de óculos novos sempre que o oculista achar que é hora das óticas venderem mais lentes e óculos novos. O que faz a gente desconfiar que os oftalmologistas e os donos de óticas são aliados, e se unem para tomar o nosso dinheiro (duas vezes, aliás). É como os dentistas e os vendedores de chicletes, manja? O mundo é impuro mesmo, meu jovem padawan.

Ah, sim. Usar óculos é uma tarefa ingrata, injusta e infeliz. Tanta gente com vista perfeita e olhos lindos e claros, e você com seus olhos imperfeitos e imprestáveis, tendo que usar estes trecos que distorcem o seu belo e angelical rosto (pff, faz-me rir) para que você possa viver normalmente por aí. mas é um mal necessário. Que nem os políticos, que nem a chuva no fim de semana, que nem a conta pra pagar. O melhor a se fazer é aceitar o fato de que a vida (esta vadia safada) gosta de te sacanear e que o melhor que você tem a fazer é aceitar passivamente. Oras, eventualmente, será tão comum consertar a visão com uma cirurgia rápida, barata e indolor, que os óculos serão peças de museu. Até lá, companheiro quatro-olhos, não esqueça seus óculos em casa. O dia fica bem mais difícil, você sabe. ^^

Vejo vocês outro dia, senhores!

Ouvindo:
How to Explain
The Cat Empire
The Cat Empire (2003)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Saudades do Útero

Heureca! Finalmente achei o que escrever no meu blog! Aê! Depois de um mês de abstinência, o Inominativo está de volta! Quem sabe, desta vez, para ficar? Quem sabe?

Muito ocorreu neste mês de interlúdio. O mundo finalmente pesou nas minhas costas, e eu me flagrei sem tempo para nada. Sem tempo para dormir, sem tempo para comer, sem tempo para internet. Algumas duas horas em casa eram tudo o que eu tinha por dia pra fazer tudo o que eu não podia fazer com a internet da empresa (que serve exclusivamente para que eu acompanhe a movimentação do câmbio do Dólar Americano). Nesse ínterim, tentei me dedicar mais à minha faculdade (e, que fique registrado, de nada adiantou) e ser um garoto mais responsável. O que aconteceu foi que eu abandonei minhas responsabilidades primordiais - entre eles, o Inominativo. E ele quase morreu. =/
Mas eu não deixei que ele morresse! Eu sou brasileiro, não desisto nunca!

Bem vocês sabem, freqüentadores de antigas datas deste blog, que eu costumo usar os meus posts como mensagens de parabéns aos mais próximos. É como o cara que paga um carro de som pra mandar dar parabéns pra mulher, cujo aniversário foi ontem e ele esqueceu completamente. Mas eu não faço barulho, não sou casado e não esqueci o aniversário de ninguém. =D
Seja como for, dia Dezesseis de Abril foi aniversário da minha prima e grande amiga, a Cibele. Tentei, então, re-inaugurar este cafofo com um post a ser publicado justamente no dia 16. Por motivos que não convêm, o post não veio. Tentei, então, o dia seguinte. E não pude postar nada - uma história longa e desengraçada ocorreu-me. Como eu finalmente consegui postar algo aqui, usarei esta publicação postada para dizer a minha prima e amiga que desejo tudo de mais legal e divertido do mundo. Feliz Vinte Anos, Cibele!! Espero que você seja ainda mais feliz e simpática e radiante e animada e adorável do que você já é! E que você ganhe na Mega Sena e passe o resto da sua vida acordando onze horas da manhã e fazendo nada de útil! Yay!
Amo você, Ciby! \o/

Business time.
O post de hoje nasceu em uma conversação, envolvendo o autor que lhes escreve, uma amiga do autor, uma amiga desta amiga e que lhe foi apresentado neste dia, e duas amigas desta nova amiga do autor (acho que compliquei demais: eu e mais quatro adoráveis damas). Conversa sendo gasta aleatoriamente, chegamos ao assunto maravilhoso do parto de um novo ser. Como é lindo ver uma criança nascendo, não? Claro que é. Quer dizer, é lindo se você não for a própria nascida.

Saudades do Útero
Nostalgias de um tempo que certamente não voltará

Tudo quieto e calmo no útero de sua mamãe. Sem preocupações lá dentro. Não há guerras, não há calor nem frio, não há contas para pagar, ninguém te incomoda. Bom, eventualmente, alguém cutuca a barriga da sua mãe "Ôôôe, nenê! Tudo bem, nenê? É o papai aqui! Diz oi pro papai, diz?" e te tira do sossego, mas isso é até tolerável. É bom se sentir querido.
Viver em um útero, aliás, é uma tremenda bonança, puta vidão bom. Deitadão, lá, em berço esplêndido, coçando o saco (tecnicamente, você tem 50% de chance de não ter um saco e, ainda que o tenha, ele não está completamente desenvolvido). Você simplesmente não precisa viver! Fica lá, boiando na barriga da sua mãe, chutando alguma coisa e chamando a atenção quando está com tédio. E é só. Você come sem precisar mastigar. Elimina suas impurezas (isto é, defeca) sem precisar fazer força. E vive às custas da sua mãe! As coisas ficam vindo pelo cabo que liga você à mamãe, o tal do cordão umbigal. Comida, nutrientes, vitaminas, anticorpos, sangue oxigenado e tudo isso que você precisa, hoje, para sobreviver. E você recebia sem fazer o menor esforço! Uma vida de marajá. E você nem se dava conta...

Eventualmente, começa a ficar apertado. A barriga da mamãe está ficando menor, tá cada vez mais difícil caber nela. Tudo tá apertado. Incômodo, asfixiante. De repente, você está escorregando! Weee! Mas não, um momento! Você está escorregando pra fora da barriga! Nããão!

Uma luz branca e forte. Tudo é frio, muito frio. Tem um cara com uma máscara verde olhando pra você, a testa toda suada do trabalho de parto. Mas, é claro, você nunca viu o rosto de um ser humano antes, então não tem a menor idéia do que está acontecendo. Uma toalhinha te seca rapidamente, e você sente um tapão enorme na bunda. E você chora.
O médico obstreta (ou as enfermeiras trabalhando ao lado deste) tapeia suas pequenas e recém-nascidas nádegas para incitá-lo a chorar. O choro abre os brônquios dos pulmões - até agora, você não respirava, lembra? - e, mais importante, prova a todo mundo que você nasceu saudável. Na minha opinião, entretanto, o choro é uma forma clara do recém-nascido dizer que está muito insatisfeito com aquela situação toda, e que deseja, desesperadamente, retornar para o conforto do seu lar. Em palavras mais impactantes: "Seus filhos de uma p***! Me devolvam para a barriga da minha mãe, ou eu vou acabar com a vida de todos vocês!". Como eles, geralmente, não te devolvem para a barriga da sua genitora, você decide acabar com a vida deles pelos próximos, ahn... bom, até a vida deles acabar de vez. =D
Isso não vem ao caso, though. Removido de seu útero, o qual você se acostumou a chamar de "lar", você está em um lugar estranho, fedido, feio e cheio de gente bizarra, que você deseja nunca mais vê-los novamente (claro, você não sabe que as pessoas que falavam com você na barriga são aquelas coisas estranhas que você vê, então você simplesmente deve odiá-los do fundo do seu pequeno coraçãozinho; que fofo).

Claro, alguns me lembrarão, sabiamente, que mesmo neste estado de choque, a vida de um recém-nascido ainda é infinitamente melhor do que a que você leva hoje. A criança é carregada para todo lugar, come de graça, todo mundo paparica, tem que estar sempre limpinho e alimentado e distraído, senão você chora e eles se irritam.
Este último parágrafo, aliás, leva-nos a uma terrível conclusão a respeito da vida humana: quanto mais tempo você vive, pior sua situação de ser humano fica. Depois do nascimento traumatizado, você perde, uma a uma, todas as mordomias que você já teve! Ser carregado no colo, ser alimentado pela mamãe, tomar banho de banheirinha, ter seu cadarço amarrado por outra pessoa, ser levado à porta da escola, ser ajudado pela mãe para se trocar, passar o dia inteiro em casa, viver junto dos seus pais, ter uma boa noite de sono por não ter filhos, não precisar dividir seu salário com mulheres e filhos, ter o cabelo com cor natural em vez do cabelo branco... Até que você morre. Yay.

Não é de se espantar que as pessoas tendam a ter esperanças ruins para o futuro. Claro, com a chegada do capitalismo e a promessa de que você pode enriquecer se trabalhar (pfff, conversa furada), as pessoas passaram a acreditar que o futuro pode ser melhor do que o passado. Mas, ah, vamos, , quem realmente acredita que o futuro vai ser mais legal? Você foi tapeado pelo capitalismo, continuará sendo pobre e, pior, sem as mordomias de outrora. Você foi tapeado, caríssimo leitor. Passado para trás, como um cara que compra iPobre em camelô.
O que nos leva a refletir: quão legal não seria passar mais uns nove meses no útero de sua mamãe? Dormindo quando bem quisesse, sem se esforçar pra comer, pra defecar, pra se defender de doenças, sem precisar andar nem sentar nem sair do lugar nem nada... Só ficar lá, bonachão, como um ricaço que inventou uma idéia mirabolante e que está ganhando rios de dinheiro com isso. Fazendo nada... O calmo e completo silêncio, onde se pode contemplar a vastidão do universo infinito, as respostas para as perguntas insolucionáveis da Física (Afinal, arrumar a cama é realmente necessário? Por que os moradores da casa do Tom e Jerry nunca contrataram um dedetizador, afinal?).
Não é de se espantar que, quando você pensa no que faria se ganhasse, subitamente, uma grande soma financeira, você se imagine passando seus dias em um lugar quente e agradável, não fazendo nada e tendo nada para fazer. Isso é somente saudades súbitas e subconsientes do útero materno, meu amigo. Aliás, demorou, já, pra algum cientista americano anunciar que inventou uma cápsula que simula o seu conforto na barrida de mamãe. Só assim pra você retornar ao cenário mais gostoso que você pode se lembrar, porque ainda que sua mãe esteja viva, ela definitivamente não aceitará que você retorne para uma pequena temporada lá. Seria legal pra você, não? Mas pra sua mãe, hehe, não tem conversa. Já saiu, rapaz, não tem retorno não. Tá pensando o quê, que é a casa da Mãe Joana?

Assim, acho que concluo a postagem de hoje. Animação! O Inominativo retorna do cemitério!
Obrigado aos que esperaram pacientemente por este momento de redenção. Mais do mesmo, no próximo episódio. =D

Ouvindo:
The Hardest Button to Button
The White Stripes
Elephant (2003)

segunda-feira, 10 de março de 2008

O Inferno que Ninguém Conhece

Olá, olá, bom dia e boa tarde e boa noite! O Inominativo retorna, numa desesperada tentativa, quiçá vã, de voltar à ativa! Yaaay!

Menos de uma semana depois do post anterior (você não contava com isso, fale a verdade), tentaremos emplacar outro texto aqui. Antes, entretanto, duas ressalvas devem ser feitas.
A primeira delas é que eu não havia notado que cometi uma leve gafe: inventei de postar um texto esculachando uma das mais notáveis características do universo feminino quando era a véspera do tão comemorado Dia das Mulheres. Poxa, as moças comemorando o dia que reservamos para elas, e elas são obrigadas a ouvir ofensas qualificadas de um cara que se acha sabedor das coisas! Uma patifaria vil e insensata, eu diria! Mas eu também diria, em minha defesa, que eu não dou a mínima pro Dia das Mulheres (ter um dia das mulheres meio que implica que mulheres são minoria, como o Dia do Índio e o dia do Professor, sei lá; e também implica que os outros 364 dias são dos homens, e eu acho que as mulheres tendem a evitar esse raciocínio). Além do mais, era o único texto que eu tinha na cabeça pra escrever, e acho que as mulheres que conheço preferem ler um texto no Inominativo do que comemorar o dia delas (quem me dera :B). Finalmente, eu disse no post passado: ele está acima de quaisquer críticas. Portanto, pode criticar, eu não dou a mínima. ^^
Segundo: a Fu teria me recomendado que eu respondesse uma grosseria à altura. Direi à Larissa que mais amo - e olha que conheci dezenas de Larissas - que eu não costumo deixar ofensas passar de graça. Eu sou linguarudo, e quando sofri com uma moça que teve ataque de TPM, eu respondi no tempo devido. Herdei minha língua afiada de mamãe :D

Colocados os pingos nos i's, vamos ao que nos interessa. To business!!

O Inferno que Ninguém Conhece

Eu já cometi uma série de pecados na vida, e isso eu sou sensato o suficiente pra reconhecer. Quer dizer, partindo da hipótese que o Cristianismo (ou qualquer outra religião monoteísta com tendências dominadoras) está correto, a idéia é que você seja ponderado, comedido, amigo das crianças e animais, entre outras firulices correspondentes com uma vida justa para com os outros, com você mesmo e com o Criador, que está em algum lugar observando o Big Brother que ele criou. Mas eu nunca fui bom em seguir as leis dessas religiões: oras, quem me conhece sabe que eu sou cínico, debochado, despreocupado com o problema alheio, avesso a ajudar os outros e preguiçoso em geral. Além do mais, vivo uma vida de pequenos e médios pecados - como roubar no truco, mentir pras pessoas (principalmente pros meus professores, quando eles perguntam se eu entendi a matéria) e rir da desgraça alheia. Rir da desgraça alheia, muitos se lembraram, é uma das coisas que tenho particular satisfação. Hehe.
Portanto, é de se concluir, ainda respeitando a hipótese de que o Cristianismo acertou, que quando eu virar adubo pra plantinhas no cemitério, eu deva ir pra algum lugar parecido com o que, hoje em dia, chamamos de Inferno. Afinal, existe um lugar reservado pra quem não respeitou sabidamente os conselhos de Deus, o Todo-Poderoso, o Mano que Manda. Todas as almas desobedientes ficarão lá, a cargo do Satanás, o Anjo Desobediente, que cuidará de torturá-las ad eternum. Até que o tempo não seja mais tempo, ou até que Chuck Norris chore. Será trágico.

Tendo a vida de prazeres desmedidos que sempre tive, passei a considerar seriamente a hipótese de que é essa a vida dura que me espera, quando eu for ceifado desta vida. À medida que cometia pecados atrás de pecados, sem qualquer pudor e consideração - e, pior ainda, sem me arrepender deles, porque eu adoro o malfeito - lembrava-me do trágico destino que espreitava a minha partida para o Mundo Inferior. Por alguns dias, talvez semanas, fiquei receoso da minha vida contente. Eu quase me arrependi! Quase que eu fiz como os humanos que viviam nos lúgubres tempos medievais, que tanto critico. Foi um tempo de provações.
Acontece que um dia eu parei pra pensar. E eu pensei, de fato. E me veio a luz: às vezes, ir pro Inferno não é tão ruim! Oras, vai ver, or pro Inferno possa ser, até, uma grande idéia! E eu tenho uma linha de raciocínio muito esclarecida que ajudará a mostrar meu ponto de vista. E depois que eu passei a ver o mundo por esse prisma, nunca mais receei a vida post-mortem. Eu posso ser o mesmo cínico de sempre. Ah, um alívio para a minha existência...

Bom, suponha que, de fato, eu seja punido por minha vida de felicidades e prazeres que tive na Terra. Um grande Juiz me condene a passar o resto da Eternidade nos calabouços masmorrentos do Inferno, sob a tutela de Satanás, o Mau. Isso implica em um acerto da Igreja Católica (e de outras religiões monoteístas com tendências dominadoras). Se eles acertaram em um ponto, é muito provável que tenham acertado em diversos pontos. E é muito provável que tenham acertado, por exemplo, no estilo de vida que seja considerado o correto pra se viver na Terra. Quer dizer, o certo é ser bonzinho, é evitar o pecado, viver das coisas boas, amar ao próximo, respeitar os outros, essa ladainha toda. Analogamente, o errado seria a gula, a preguiça, o orgulho e esses outros pecados que volta e meia cometemos.
Também significa que coisas como a Coca-Cola (ou a cerveja, pra um consumidor de bens alcólicos), a televisão, o vídeo-game, o truco, a mini-saia, o futebol e outras dessas coisas que potencializam e catalisam o pecado são coisas erradas. Clamam, alguns dos católicos (e seguidores de outras igrejas monoteístas com tendências dominadoras) que essas coisas vis sejam nada mais do que invenções do Satanás, himself, pra tentar a raça humana a cometer os pecados. Isso implica que se, de fato, morrer e for pro Inferno, encontrarei ninguém menos do que o inventor de todas essas coisas!! O cara que passou a Eternidade (ou um breve momento dela) usando sua cachola pra ajudar a nossa pobre raça humana a viver mais feliz, enquanto éramos provados por uma vida difícil. E, então, viverei a eternidade junto desse cara, que tanto fez pela pobre e perdida raça humana.
Podemos, até, imaginar que se o Sulfuroso inventa todas essas coisas, é porque ele gosta disso. E se ele gosta disso, é de se imaginar que o reino dele seja repleto dessas coisas que potencializam e catalisam os pecados. Assim, concluímos que Satanás pretenderá que continuemos cometendo pecados no Inferno - afinal, é disso que ele vive - e que, conseqüentemente, ele continuará provendo estes bens que ele tão sabiamente criou.

Enfim, o ponto em que desejo chegar é: quando morrer, eu vou me encontrar com o criador do PlayStation, e passarei a eternidade jogando Play2! Ou Play3, ou Play4, ou sabe-se lá qual PlayStation teremos quando eu resolver abotoar o paletó de madeira. Mas teremos Play2!
O raciocínio acima pode ser aplicado para a completa variedade de artefatos e costumes criados para tentar a humanidade a produzir o pecado. Se assim pensarmos, passamos a ver a morada última dos pecadores como um lugar não tão ruim assim. Quer dizer, teremos lá refrigerante e bebidas alcólicas e música alta e internet e mulheres (ou homens, dependendo da sua opção sexual; Satanás é democrático) e dinheiro (afinal, Capitalismo também é coisa do Capeta) e essas coisas todas!
Agora pense comigo, amigo leitor, amiga leitora: qual é o lugar do mundo conhecido que temos luzes, bebidas, dinheiro, promiscuidade... e ninguém se preocupa o mínimo com isso? Las Vegas! Se somarmos um mais um, temos que: quando morrermos, iremos para Las Vegas! Viveremos em um grande e confortável hotel, acima de um enorme cassino, onde a promiscuidade (em todos os sentidos) será desmedida, e encorajada. E, o melhor de tudo, ninguém precisaria se preocupar com a situação financeira ou biológica (i.é., fígado e rins) quando terminássemos um dia de devassidão em Las Vegas Infernais. Já teríamos morrido!!

Concluímos, então, que iremos pra um lugar onde o pecado corre solto, onde poderemos ser tão felizes quanto jamais fomos em toda a nossa vida (ainda que consideremos o fato da levarmos uma vida feliz, por ora, porque somos bon-vivants), e nunca teremos que nos preocupar com o dia seguinte. Se você pensar bem, parece uma ótima maneira de se encarar a pós-vida, além de ser uma ótima desculpa pra continuar cometendo estes pecados de sempre na boa e velha Terra.
Agora que eu lhe trouxe a luz, rapazes e moças, lembrem-se de não sair espalhando por aí. Quer dizer, meu blog é peixe pequeno, então eu não vejo problema em postar isso aqui. Mas se vocês saírem convencendo todo mundo disso, todo o mundo acabará indo pro Inferno, no futuro. Las Vegas nenhuma será suficiente pra tanta gente assim. E imagine o trânsito que ficaria lá, então? Seria um Inferno.

Ouvindo:
Morning Glory
Oasis
(What's the Story) Morning Glory? (1996)

sexta-feira, 7 de março de 2008

A TPM Sob o Olhar Masculino

O Inominativo não morreu, gente!!

Ele entrou em um coma sério depois de ser obrigado a ouvir o cd novo do NXZero, na íntegra, graças a uma festinha que estava rolando em um dos apartamentos vizinhos. Passou alguns dias desacordado, mas está de volta! Felicidade! Animação! Hooray!
Vejam vocês como esse mundo é injusto para conosco: eu estava de férias, e não tinha nenhuma idéia pra postar no blog (o que fez do mês de Fevereiro o mais pobre em postagens, com só uma entrada). Aí eu voltei das férias, então meu tempo de internet diminuiu. E quando eu finalmente tive um tempinho pra sentar em casa, relaxar e tentar escrever algo, mamãe resolve reformar a casa! Yaay! Agora meu computador está escondido no meu quarto, sem conexão à internet, sem vida útil. Poverello.

Reformar casas, aliás, é uma tremenda encheção de saco. Existe um comportamento muito interessante entre os humanos, e que eu notei pela segunda vez, na minha própria casa: se você planeja uma reformazinha em um cantinho da casa, algo que seja rápido e indolor, você está totalmente enganado. As chances de você aproveitar o embalo e reformar a casa toda é enorme. Veja, por exemplo, meu domicílio. A intenção era trocar os azulejos da cozinha. Depois de tudo quebrado, minha mãe decidiu que ia trocar a pia da cozinha e, mais, iria trocar o lugar dos eletrodomésticos. Então, trocaram as tomadas de lugar e tiveram que aumentar a saída do caninho de gás, pro fogão que ia ficar no outro lado da cozinha. Aí, aproveitaram a sujeira e mandaram trocar o piso da sala, que estava todo destruído. Aí arrancaram o piso. Aí, aproveitaram pra passar uma nova demão de tinta nas paredes da casa (toda a casa). Aí, já que está tudo sujo mesmo, compraram uma porta nova pro banheiro, porque a antiga estava estragada pela umidez. E compraram uma pro meu quarto, já que ela estava quebrada (lembram do dia de cão que eu tive outro dia?). E tudo porque minha mãe cismou com a parede da cozinha. Reforma é um perigo, cara.

Bom, chega de pataquadas. Vamos ao recheio do sanduíche, peepz.
Falava eu, ainda ontem, com a Talita, amiga minha de longa data, gente boa e, na maior parte das vezes, uma maluca inofensiva. Discutíamos acerca da TPM, a tensão pré-menstrual que as mulheres em época de menstruação (duh) sofrem, aproximadamente todo mês. Perguntou-me a Talita qual era a franca opinião masculina sobre a TPM. Quer dizer, fora as piadinhas que os homens fazem sobre a TPM, o que um homem acha sobre a TPM? Os homens sabem que a TPM não é só uma frescura mensal?
Como isso parece pertinente à vasta gama de mulheres que acessam freqüentemente este buraco (quando ele está devidamente atualizado, óbvio), dividirei com vocês a minha abalizada opinião sobre o assunto. Uma opinião séria, imparcial e acima de quaisquer críticas. Ouviram? Acima de quaisquer críticas! Então não me critiquem, eu não vou dar a mínima. Como sempre.

A TPM SOB O OLHAR MASCULINO
Verdade? Ou Desafio?

Acho que todo mundo que lê este texto entende um mínimo de Biologia pra saber sobre a TPM. É um fenômeno hormonal que ocorre com as mulheres quando elas estão nas vésperas do sangramento mensal - as mulheres meio que sangram todo mês, caso você não tenha sido avisado. Esse fenômeno altera drasticamente o funcionamento feminino, deixando a personalidade delas temporariamente desregulada. Parece terrível, né? Pois é, é sim.
O tchãns sobre a TPM é que é uma disfunção que altera a personalidade da pessoa não só pra ela. Mas pra todo mundo. É mais do que natural você ver uma mulher subitamente irritadiça e revoltada, quando até ontem ela parecia saudável e disposta a ser simpática. Não, ela não foi abduzida e trocada por um clone alienígena. Mas, convenhamos, os homens às vezes até preferem o clone.

A TPM pode ser considerada, para fins de discussão, um agravante poderoso na relação já difícil entre seres humanos e, em especial, homens e mulheres. Quando uma mulher resolve ficar de TPM (como se ela tivesse opção), as relações sociais com ela, pelos próximos dias, ficará seriamente debilitada, porque ela ficará realmente emotiva (e nunca é uma emoção boa, como compaixão e alegria), e qualquer aproximação lógica é nula. Um triste empecilho para a Paz Mundial, essa é a função da TPM.
Se a TPM já é ruim pra sociedade, quiçá pra mulher que a sofre! Dentro de um turbilhão de emoções que ela mal pode compreender (e depois de alguns anos sofrendo com ela, nem tenta fazê-lo), e debilitada de funções racionais mais analíticas (justiça e coerência, por exemplo), ela fica realmente abalada por dentro. Ela sofre terrivelmente em sua psique. Isso quando não rolam umas cólicas, dores de cabeça e outros problemas típicos. Ser mulher é um negócio injusto, cabra.

Mas você quer injustiça mesmo, caro leitor? Decida ver como é a explosão de uma tensão pré-menstrual estando do lado masculino. Eu realmente não recomendo. :B
Imagine que você é um rapaz, e tem amigas moças mulheres do sexo feminino (redundância who?). Na maior parte dos dias, você mantém uma relação estável de amizade com elas, jogando Twister todo sábado e indo, esporadicamente, a uma ou outra baladinha pra se divertirem em comunhão. Viva a sociedade alternativa.
Quando estamos chegando no fim do período menstrual de qualquer uma das mulheres (e veja bem, somente uma delas), os hormônios agem implacavelmente, transformando a outrora meiga e adorável amiga sua em uma implacável máquina de respostas secas e grosseiras, com freqüência de tiros superior a uma sub-metralhadora israelense. Você, homem, não tem a menor idéia do que é sofrer a TPM - todos os homens são psicologicamente constantes, nos trinta dias do mês - e ignora o fato de ela estar em ponto de ebulição. Ah, meu rapaz, agora é a hora da coça: qualquer piadinha inofensiva se torna em estopim para a declaração de uma violenta guerra entre você, pobre vítima, e a mulher. Naturalmente, as outras mulheres (e os mulherengos de plantão) defenderão a pobre moça, que está visivelmente prejudicada pela sua presença grotesca e virulenta. E você, preibói, perdeu. E isso não é o pior - semana que vem, a TPM da vez é a da sua mãe :D

É, rapazes, a TPM é um problema. Você foi ownado, injustamente, porque naquele dia sua amiga decidiu se revoltar, e não avisou você sobre isso. E é aqui que começo minha crítica à TPM (claro, sou homem, não posso defendê-la; é uma questão de princípios): por que, diabos, o homem tem que sofrer com as complicações hormonais da mulher? A gente entende e compreende o fato de homens e mulheres serem diferentes, e é por isso que mulheres têm TPM e os homens não (aliás, é justamente nessa diferença homens/mulheres que reside toda a graça da vida, se você me entende). Mas a gente não entende o porquê deste erro genético feminino ser descontado em nós, pobres vítimas! Quer dizer, homens têm uma disfunção hormonal que pode causar câncer de próstata, futuramente. Mas esse é um problema exclusivo do homem (e do médico que vai cutucar o homem :B), a gente não tortura a mulher. Disfunções hormonais fazem o homem amar o futebol, mas a gente não enche o saco da mulher por causa disso. Ou melhor, enchemos, mas ela devolve com programas femininos e outros trecos análogos. Mas qual é o motivo que faz a mulher descontar a TPM em um homem?

Por causa da disfunção hormonal, a mulher fica visivelmente alterada. Muitas ficam chorosas e muito muito sensíveis, mas a maior parte decide odiar violentamente a massa masculina nesse mundo, porque eles simplesmente não entendem o que está acontecendo. E lá vão os filhos, maridos, amigos, colegas de trabalho e quaisquer outras classes de homens sofrer com a fúria cega TPMista. Existem, inclusive, aquelas que recebem um impressionante senso de vingança, e descontam sobre o homem todo o ódio e desprezo que ela conseguiu acumular nos últimos vinte e cinco dias, e usa tudo isso pra ofendê-lo moralmente tão pesadamente que é capaz dele ir pra casa e chorar como uma mocinha. Uma que não tem TPM, claro, mas ainda assim.
Como a única faceta que o homem vê da TPM é a mulher irritada e descontando sua fúria nos outros, e já que as mulheres vivem descontando fúrias nos outros, quando necessário, o homem tende a acreditar que a TPM é, na verdade, uma grande e difundida desculpa pra mulher ser grosseira sem motivo aparente. Sim, claro, porque muitas vezes você simplesmente quer ser grosseiro, mas não se pode ser grosseiro sem um motivo. Inventaram a TPM pra que as mulheres pudessem ser, então, sem prestar satisfações. Basta ficarem chorosas e se ofender com a primeira coisa que o homem fala ("Você falou que essa saia está feia em mim? Você me chamou de GORDA???").
Ainda que um homem compreenda que a TPM tem embasamento biológico e estatístico estudado há gerações pelos mais confiáveis cientistas e teóricos, não dá pra não desconfiar que as mulheres usem, sabiamente, esta crise hormonal para descontar, de fato, as angústias internas (sejam elas quais forem) de graça no mais próximo. E o melhor (pra mulher, óbvio): daqui a três dias, quando a TPM passar e a mulher voltar ao normal, ela vai se arrepender das cagadas que cometeu, e vai pedir desculpa, que não era a intenção. Logo, a TPM é um passe livre pra que você possa ser revoltada à vontade, com direito a perdão judicial! Conveniente?

Aqui mora a minha opinião: a TPM é, sim, uma disfunção hormonal, ela não é uma frescura, verdade, eu sei, e todo mundo sabe. Mas, na minha opinião, as mulheres usam a TPM como desculpa pra serem irritadas e desagradáveis. Daqui a três dias, elas pedem desculpa, e está tudo certo!
Mas por que a mulher tem que descontar sua fúria nos outros? É o que não entendo! Eu sempre achei errado a história do cara que tem uma vida difícil no trabalho, bebe todas e, quando chega em casa, desconta tudo na esposa e filhos. Esse cara, aliás, quando for pego será punido pelos seus crimes, independente da vida difícil que tinha. Então eu também sou contra a moça que fica infeliz em um dia, e resolve descontar tudo no marido e filhos. Ah, sim, claro, é horrível, é uma merda, é impossível controlar a TPM. Mas, ah meu, avisa pros outros que você está de TPM e não está a fim de gracinha. Que você está nervosa e perigosa. Ou, sei lá, tente compreender que quando você tem uma TPM, a culpa não é de ninguém (especialmente do homem que você estará esculachando), e portanto ninguém deve sofrer com isso. É porque eu já sofri com a TPM alheia, e sei o que falo: tenham piedade dos homens. Ou senão parem de pedir direitos iguais entre homens e mulheres. É muito injusto dar direitos iguais pras mulheres e elas ainda terem a oportunidade de se irritarem de graça.
Puta mundo injusto, meu.

Ouvindo:
Move Your Feet
Junior Senior
D-D-Don't Don't Stop the Beat (2003)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Guilda dos Camelôs das Américas

Aloha, cidadãos! Depois de um tempo de pequenas férias, o Inominativo está pronto pra ferver! É hora de recolocar o disco na vitrola, de repor os doces na bomboniére, de reerguer o castelo de cartas, de... Ah, vocês entenderam. =D

Sabe, eu tenho tido problemas pra atualizar meu blog recentemente, porque eu nunca sei o que eu posso escrever. Eu tenho alguma idéia, daí eu chego no meio do post e descubro que não estou indo bem. O post não está dando liga, não vai ficar tão legal quanto eu imaginava, sei lá. E eu acho que pra um texto ficar bom, é importante que o autor do texto goste. Senão não dá, né? Então eu fico nessa crise, essa putice aê, e o blog fica às portas da falência. Isso é triste, né? Pois é. Então.

Esforçar-me-ei, entretanto, pra ver o que consigo fazer pra postar aqui pelo menos uma vez por semana, como antes fazia. Tudo isso é porque eu gosto de vocês. Mesmo mesmo. ^^

GUILDA DOS CAMELÔS DAS AMÉRICAS
Satisfação Garantida! Ou seu dinheiro jogado fora!

Ah, a globalização. Nada como viver em Luanda, a capital de Angola, e entrar na internet e mandar comprar um iPod original direto dos Estados Unidos, cuja fabricação foi taiwanesa e que entrou em Los Angeles por um cargueiro japonês depois de comprá-lo em Manila, nas Filipinas! Você pode comprar o que quiser, de onde quiser, quando quiser e como quiser! Não é fantástico? Não parece a solução pra fome e outras mazelas que há milênios afligem e corroem a civilização? Mas parece que o sonho de Adam Smith e outros liberais encontrou alguns obstáculos. Infelizmente, os governos malditos e vis decidem taxar, retaxar e recontrataxar todos os produtos que andam sobre seus solos e embarcam em seus portos e desembarcam em seus portos, e taxam e retaxam e recontrataxam. E as empresas, outras instituições perniciosas e carnívoras, decidem colocar seus logos sobre produtos malfeitos e cobram quase cinco vezes mais caros. Deturpadores do livre capitalismo! Bárbaros mongóis destruidores!
Felizmente, a sociedade em geral não dá a mínima pra teorias econômicas estapafúrdias e absurdas - e, tenho que registrar, isso me preocupa porque eu sou um economista - e as pessoas conseguem se ajustar decentemente seja qual for a crise. Se existe a taxação de imposto, nasce a sonegação! Se impedem o livre movimento de bens, nasce o contrabando! É o anti-capitalismo a favor do capitalismo! Ainda escreverei uma tese sobre isso.

Pense, agora, com os seus respectivos botões, camarada: se as empresas fabricam produtos mequetrefes e cobram caro só porque eles colocaram o nome da empresa no produto, porque não comprar um produto semelhante, só que sem o nome da empresa? Muitas pessoas tiveram essa impressionante idéia. Juntaram-se em comunhão, e fundaram fábricas. Fabricaram, então, bolsas que era muito parecido com uma Gucci legítima. Ou uma camisa que é igualzinha a do Santos, ou um tênis que você jura que já viu uma Nike daquele mesmo modelo... Mas o preço é estupidamente menor! Tudo isso porque a idônea companhia que fez a bolsa decidiu não colocar um nome famoso no produto. E você pode pagar menos!
E então, você vai até a barraca de protudos não-licenciados mais próxima (não-licenciado significa "não pagamos impostos" e, por isso, é ainda mais barato!) e pode comprar bens de consumo com o seu suado salário de escravo - ou sua mesada, depende do seu grau de inutilidade social - e usar seu produto! Melhor ainda, pode usar sem medo de ser roubado por causa da ganância dos outros em ter seus produtos tão queridos. O ladrão pode comprar um pra ele também...

Então, o contrabando de bens cresce. Fábricas clandestinas abrem a torto e a direito na China e em Taiwan, e desembarcam desesperadamente nos países menos abastados, como a nobre nação verde-amarela tupiniquim. E aqui, os produtos fazem imediato sucesso. Tanto que não tardou a nascer vários microempreendimentos em esquinas e em ruas autorizadas, de norte a sul. Barraquinhas que vendiam tudo o que seu dinheiro não compraria em shoppings e em lojas autorizadas. Só que tinha ainda mais coisas! Um mundo inteiro de curiosidades consumistas esperavam aqueles que eram bravos o bastante para desbravar a virgem mata do produto alternativo! Um viva aos bandeirantes da Vinte e Cinco de Março!

O clima de amizade e gastança desapareceu, entretanto, quase tão rápido quanto veio. A facilidade de se fazer dinheiro criou milhares de barracas, que competiam dia após dia alguns metros quadrados de calçada pra vender suas coisas. As pessoas se estapeavam, disputavam lugares, acordavam cada vez mais cedo pra guardar seu ponto de venda. Até que a situação ficou insuportável, e as brigas começaram a estourar pra valer. Socos, pedradas, tiroteiros para ver quem ia manter o maior número de clientes (que, a este momento, fugiam desesperados da confusão). Até que os camelôs decidiram, finalmente, se acordar, e criar maneiras (nada) legais para se organizarem e melhor atender o público brasileiro. Nasceu, assim, a Guilda Brasileira de Camelôs Licenciados!

Nascido em alguma metrópole brasileira no início da grandiosa década de 1990 (São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador disputam o cargo de cidade-mãe da Guilda), a associação de foras-da-lei logo ganhou projeção regional, englobando diversos negócios em diversas frentes em diversos preços, com diversos vendedores qualificados. Radinhos de pilha, camisetas, CDs e DVDs, jogos, bolsas, tocadores de MP3... Com uma ampla variedade, a Guilda se associava e garantia o lucro da classe comerciante mesmo quando uma das vertentes estava má em lucros. E cada vez mais cidades eram abraçadas pela GBC, e cada vez mais produtos eram vendidos: guarda-chuvas, esteira de praia, binóculos, óculos de sol etc. Era um verdadeiro sucesso.
Posteriormente, veio o reconhecimento internacional e o acordo com outros países. Primeiro veio as Guianas, que importavam bens da Guilda. Depois, a Colômbia e a Bolívia. E quando a Guilda Brasileira pareceu que não ia dar conta do tamanho crescimento, se aliou e se fundiu com a Unión Paraguaya de Productos Legítimos. Agora, sim, nascia a Guilda de Camelôs das Américas! Com sede mundial em Asunción, sede nacional em São Paulo e investimento chinês (um grande investidor chinês comprou, recentemente, mais de 35% das ações corporativas da Guilda, e doou o prédio pra sede brasileira da firma), a Guilda dos Camelôs das Américas teve seu acervo rejuvenescido - todos já notaram os iPobres que vendem por aí, originais made in Taiwan, que fazem quase a mesma coisa que o original estadunidense; só falta funcionar! - seus negócios otimizados e sua abrangência expandida. Agora, com ação em mais de dezesseis países na América do Sul e Central, e com negociações para agir no México, no sul dos Estados Unidos e com a primeira loja em Angola, a Guilda está se tornando um dos maiores empreendimentos comerciais do mundo! E a menos de dez reais!

Então, criança, lembre-se: antes de ir às lojas, pagar caro por algo que você sabe que não vai usar direito, que não vai durar, que é só caro e não tem nada de útil, então passe antes em uma loja licenciada da Guilda dos Camelôs das Américas. Converse com nossos agentes autorizados e conclua: mais vale pagar mais barato por algo ruim do que pagar mais caro por algo nem tão bom assim.

Guilda dos Camelôs das Américas: porque original é pra frutinhas.

Ouvindo:
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Art Brut
It's a Bit Complicated (2007)