domingo, 17 de junho de 2007

Abominável Gosto Musical Antigo

Mais uma ótima noite de domingo pra vocês, pessoas! Feliz semana para vocês! Maravilha estar de bom-humor ^^

Aproveitando o bom-humor e a vontade de nada fazer, volto ao trabalho, para colocar algo de interessante aqui no blog. No tópico de hoje, um tema que nasceu em uma conversa entre a minha pessoa e a pessoa de Ana Luiza, a Aninha. Além de amável, ela também é simpática, e tem essa tendência a falar bobagens online com pessoas, digamos, como eu. Daí que saem as histórias... :D

Meu Passado Me Condena
Abominável Gosto Musical Antigo

Eu deduzo que hoje os nobres senhores aqui visitantes tenham aquilo que definem "um bom gosto musical". É claro que gosto é que nem as nádegas: cada um tem o seu e ninguém mexe. Mas a gente tem um, digamos, gosto agregado, um consenso geral sobre o que a sociedade define ser "bom gosto" e "mau gosto". Definir o que é "bom gosto" é bastante difícil - depende do que você gosta de ouvir, se as pessoas que gostam de ouvir são compatíveis socialmente com você, se a ralé e a elite financeira ouvem também, se tem conteúdo cultural ou não, se tem fundo criativo e inteligente... ou se, simplesmente, todo mundo gosta. Eu poderia dizer que "Parabéns a Você" é uma música que é simples, não tem lá muita profundidade, um bom arranjo ou um bom cantor. Mas todo mundo gosta, certo? Mas, sei lá, você não diz que ouve Parabéns a Você, nem baixa para ouvir no seu computador. Então é possível que eu tenha pego um exemplo infeliz, de modo que vou desistir da idéia.
Agora, definir o "mau gosto" é razoavelmente mais fácil. É o ritmo musical que por mais que você goste, você sabe que tem tanta qualidade musical quanto um rádio-relógio paraguaio. Rádios-relógios paraguaios até funcionam, vejam bem, mas não tem como você dizer que ele é bom, né? Então. É a típica música ruim, que atrai alguns ouvintes mas, oh, well, boa parte de nós prefere simplesmente que Deus aja de algum lugar e faça alguma coisa.
Acontece, jovem padawan, que você não ouve as músicas que você ouve hoje desde que nasceu. Eu concordo que é possível que você ouça Beatles desde que você era um espivetado espermatozóide, mas essa possibilidade é um tanto remota, então eu vou considerar que houve um dia em que você foi apresentado ao rock. Como eu. Antes disso, entretanto, as trevas.

Muitos de vocês aqui nasceram aproximadamente ao fim da década de 1980, ou aos primeiros anos da década de 1990. Então, nos primeiros anos de suas simpáticas vidas vocês passaram por terríveis anos de provação. Como eu ignoro a infância de vocês com detalhes, eu vou basear meu conto na única infância que conheço com exaustão - a minha.
Quando eu era jovenzinho, e morava na perifa paulistana (ainda moro, aliás), tocavam muitas músicas nacionais nas principais rádios paulistanas. Muitos ouviam pagode, outros ouviam sertanejo, outros ouviam música brega. Nada de diferente do que é hoje, é claro, mas quando eu era criança, eu não tinha parâmetros do resto do mundo. Quero dizer, eu só ouvia as músicas que tocavam nas rádios que eu ouvia, então você meio que acha que é só aquilo que há para ouvir. E eu vivia assim, entre meus cinco e meus doze anos, ouvindo Zezé di Camargo e Luciano, Leonardo, Chitãozinho e Xororó, mas ouvindo também Karametade, Katinguelê, e me recuso a buscar outros nomes de bandas de pagode. Como falou-me uma amiga minha recentemente, era uma época em que tocava tanto pagode nas rádios que por mais que você espumasse ao ouvir, você sabia algumas letras. E como eu era criança e vulnerável, eu achava aquilo bom, e ouvia, sem dor no coração. Como crianças são ingênuas.
Eu acredito que seja, aliás, o problema que faz as crianças terem um gosto musical tão horrível nos nossos áureos dias de hoje. Essa turminha de estatura reduzida ouve RBD, e Kelly Key, e, I dunno, outras "bandas" e "músicas" do mesmo naipe, e elas cantam e dizem que gostam. Não têm parâmetros necessários para definir a boa música, então convivem com o que tem, certo? Coitadas.
De tempos em tempos, entretanto, o gosto musical dessa sociedade costuma alterar levemente, e as rádios tocam as músicas de acordo. Eu imagino que o que aconteça é que as novelas da Globo escolhem algumas músicas para colocar como trilha sonora de suas novelas, e as músicas acabam virando sucesso, seguidas depois de músicas parecidas. É, a Globo é o senhor feudal mais poderoso do país, é no mínimo justo que eles possam ditar a cultura da população, vocês não acham? Quer dizer, a Globo cuida da gente melhor do que o nosso Governo! Pra dar ênfase à minha visão, lembro-me daqui do projeto que o SPTV (noticiário daqui da urbe paulistana) está a conduzir, buscando postos de combustível que vendem gasolina adulterada. A função que deveria ser da Prefeitura sendo conduzida pela Globo, a Imperatriz da nossa República.

Voltando a cultura musical: eu não sei o que aconteceu, mas em algum ano da metade da década de 1990 inventaram o Axé. Invenção de alguma universidade baiana, desembarcou na nobre capital paulistana com impressionante facilidade. É possível que seja porque São Paulo é a cidade com o maior número de baianos fora da própria Bahia, mas é só uma especulação. Seja lá como for, eu via o axé fazendo estrondoso sucesso em festas e rádios e programas. E todas aquelas meninas de dez anos dançando e rebolando escandalosamente suas bundas, e as mães orgulhosas daquele espetáculo sodomita.
Eu acho que já é possível notar que eu passava a adquirir aqui um viés de consciência. Eu finalmente descobri que eu não gostava daquilo. Não via a menor graça em músicas vazias e mulheres dançando com calças coladinhas. Vejam bem, eu nem 10 anos tinha ainda, entendia pouca coisa sobre essa história de conotação sexual pesada. É, eu sei, eu era um cdfzinho chato, mas como eu disse, eu só tenho a minha infância de parâmetro.

Eu lembro também que foi em torno desta mesma época que o gênero boy band americano veio à tona nas nossas indefesas rádios brasileiras. Bandas cujos nomes eu também considero impronunciáveis viraram febre como pipoca na nossa sociedade. E as mocinhas, já vitimadas do espetáculo pecaminoso e denegridor do axé, passavam em mesmo tom a gostar daqueles menininhos americanos com cara de riquinhos de Beverly Hills, que cantavam melosas músicas, com dancinhas ridículas e com caras de gostosões de filme B. Nossas colegas femininas, é natural, babaaaavam por eles. A indústria gráfica lucrava horrores com vendas de pôsteres e revistas e double-pôsteres e tudo o mais que vocês possam imaginar - ou lembrar.
Eu não quero ser injusto, também. Eu quero deixar claro que acho perfeitamente normal meninas gostarem de menininhos com cara de anjinho cantando musiquinhas melosas porque, oras, é o que as menininhas românticas esperam do mundo, não é mesmo? Acho natural. Mas eu, particularmente, abominava. Era terrível agüentar nossas amigas quando elas começavam a falar destas boy bands... Mas paciência, não?

Seja lá como for, pra onde eu olhava eu não via saída. "Oh, Deus", clamava eu, para as nuvens de uma sexta-feira de lua cheia "onde está sua Onipotente Presença, que tudo pode? Que tudo vê? Por que, Deus oh Deus, me abandonaste, à mercê destas vis criaturas?". Foi um tempo de terrível provação. Jogado entre as valas da sociedade marginalizada pela cultura massacrante da massa, sentia-me um ser sem alma. Eu deduzo que muitos quase-adolescentes passem por esta auto-indagação, não? É aí que vem esse momento de ruptura. E essas outras palavras que os adultos adoram usar para tentar entender os adolescentes de hoje. Quanta pretensão...
Eu, é claro, tinha contato leve com um pouco do mundo exterior. Minha mãe, sobrevivente da excelente era 1970, conhecia um bucado da era Disco, e de alguns pop/rocks que hoje são considerados antigos, como o Elton John, e outros nomes que ouvimos na Rádio Alpha FM, que já foi mencionada aqui, aliás. Mas, não sei... Me faltava algo...

Foi por volta de 1996/1997 que eu tive os primeiros contatos com o rock desta geração mencionada. Conheci por estas épocas o Skank e os Titãs. Boas bandas, aliás. Mas o meu irmão mais velho, que havia me apresentado, ouvia também muita música eletrônica - música barulhenta sem qualquer sentido lógico - e eu acabei conectando, por um bom tempo, uma coisa à outra. Foi só no fim do glorioso século XX que eu vim a conhecer Gorillaz. Munido de suficiente conhecimento em Inglês, eu passei a gostar de algumas músicas da banda, e passei a ouvir as rádios em que eles tocavam. E, como uma corda que você acha uma ponta e vai puxando o resto, eu descobri o pop/rock: o U2, o Sugar Ray, o Oasis e o Blur, o Offspring, o Santana... Enfim, comecei, ali, a ver como o mundo era grande. Havia, um Deus, afinal! Ele não havia me abandonado!
Desde então, tenho aprendido um pouco mais sobre o mundo da música que havia perdido enquanto estava sob um sono de doze anos. Os anos 80, os anos 90, as bandas americanas e inglesas, o rock brasileiro de qualidade... Não só havia luz no final do túnel - havia um maravilhoso sol de domingo! Eu fui salvo!!! Aleluia!!!

Retornando ao meu discurso inicial: o conceito de "bom gosto" depende muito. Varia muito. Eu acho que bom gosto é uma boa banda, que tem um ritmo gostoso, uma letra gostosa e animada e uma aplicação cerebral considerável em suas composições. Outros acham que bom gosto é um deus da guitarra que toca o caralho a quatro em seu instrumento, e outros acham que bom gosto não é nada disso, é algo completamente diferente. Mas, como eu falei, "mau gosto" é um conjunto muito mais definido. É tudo aquilo que você houve em um dia de lucidez e fica deprimido por saber que tal disparate existe. Tente, por exemplo, entrar em um ônibus que está tocando uma música do Belo, aquele pagodeiro fracassado. Pelo amor de Deus, é terrível. A voz daquele cara me dá náuseas. A música dele me deixa de estômago embrulhado. Aquilo é um mau gosto terrível, não importa o seu ponto de vista.
Mas vocês, em algum ponto da vida de vocês - a não ser, como eu lembrei lá atrás, se você ouve Beatles desde antes de ser alguém - passou por mudanças de gostos. Talvez leves, talvez profundas, talvez radicais. Um pagodeiro que virou metaleiro, sabe? Já ouvi lendas do tipo. O negócio é que as coisas mudam. O que é febre hoje se torna abominável amanhã. Ou talvez não, talvez amanhã eles arranjem algo ainda mais abominável do que o que temos hoje, e aí ficaremos com saudades da era passada. Porque, vamos combinar, eu podia odiar profundamente Backstreet Boys, mas com certeeeeeza eles são preferíveis ao RBD. Eu só espero que, quem sabe um dia, surja algum investidor maluco que ache que o Brasil é um país digno de investimento, e eles montem aqui algumas estações de rádio que toquem boas músicas para o povo. E ensinem o povo a tocar boas músicas, também. Enquanto isso, a gente tem que ficar esperando as migalhas da cultura euro-americana, né? Pobres de nós, países do terceiro mundo. Sempre orgulhosos de nós mesmos, mas sempre invejosos dos outros. A vida é uma boa bisca, mesmo. =)

Depois de um blocão de texto como o de hoje, eu desligo-me! Ah, mas não antes de dizer: obrigado pelos elogios de vocês, pessoas. Eu gosto pra caramba quando recebo um comentário sobre meu blog. Me deixa confiante sobre ele. Meu blog não seria nem metade do que é se não fosse por vocês que vêm aqui ler porque, afinal, qual é a graça de escrever para ninguém? Nenhuma, eu acho. Então continuem vindo e lendo, praí eu continuar escrevendo, sabe? Obrigado mais uma vez. ^^

Ouvindo:
Put it Behind You
Keane
Under the Iron Sea (2006)

7 comentários:

Bié disse...

Estes dias atrás, levei um puta de um puxão de orelha de uma colega só porque brinquei com os gostos musicais juvenis. Meu, todos têm uma fase podre na vida, minha infância foi embalada por Raça Negra, por exemplo.

Não entendo essa gente

Kelly disse...

Huahuahua, mto bom esse texto...
E sim, o pior era saber as letras de cor, sem kerer =S

Karla, sim, a irmã superprotetora (mas não a sua) disse...

Bão, meu gosto não mudou praticamente nada, Fafazin ><
Quando eu era pequena, minha babá era roqueira (raro, uh?), então eu ouvia rocks por ae... Aliás, eu fui fanática pelo Kiss, que hoje em dia não é rock, nem metal, nem nada...
Enfim, eu mantive muito do meu gosto infantil
Rockinhos, MPB, e pra queimar meu filme, alguns forrós e SPICE GIIIIIRLS!


Oh yes, eu as adoro.
Mas te adoro mais! [modo bajuladora off*]

Virgínia disse...

Pro meu maninho ficar ainda mais feliz, outros elogios: Rafitxo, teu blog é o máximo!

E, eu confesso que a-do-ra-va os Backstreet Boys. Deprimente, não?

Saudades!

Cibele disse...

Siiiiiiiiiiiim (*big drama*) Eu admiiiito! Amava BSB... sabia todas as musicas, tudo, tudo q tinha pra se saber deles... e fui até no show! (e cá entre, foi um puta show)

Mas em questão de música, pra mim pelo menos, o que importa é não ter preconceitos. Por exemplo, tenho uns amigos que adoram sertanejo, então vou em altas baladas de sertanejo. E sabe o que mais? me divirto pra caramba. Claro que em casa não é o tipo de música que eu ouço. Mas se tem tanta gente que gosta, alguma coisa de bom deve ter, manja?


Concordo com você que infelizmente o potencial musical do Brasil é mto desperdiçado... Artistas bons não tem aquele investimento que precisariam... E falta também a nós valorizarmos o que é nosso: existe um preconceito contra o que é brasileiro por parte de nós mesmo brasileiros!

Finalizando, eu adoro música. E música de qualidade. E também adoro música sem qualidade. Mau gosto, bom gosto, tudo questão de ponto de vista, difícil demais de conceituar, como voce mesmo disse.

Então viva o Rock, a Mpb, a Bossa Nova, a Clássica, os clássicos e o Pop que embalam minhas tardes solitárias em casa.
E viva tambem o funk, o pagode, o sertanejo, o axé que embalam a noites mais engraçadas da minha vida.
O importante é ser feliz, não importa a trilha sonora ^^

Affee, me empolguei!! Fiz um sub-post! uahauhau

Anyway, ótimo texto. Super bem escrito.

Amo-te, primo meu!
beijããão

Ana Luiza disse...

E não é que eu fui citada no seu blog mesmo? Muito obrigada pelo amável e simpática, e modéstia parte o tema do seu texto de hoje ficou muuuuito legal...rs

Não, sério! Ficou muito bom! Eu ( e todo mundo,né?) vi minha trajetória musical ser desenhada bem na minha frente! Pagode, sertanejo, AXÉ....tudo...tudo....

Confesso que ainda ouço algumas coisas que você mesmo julga de mau gosto .... principalmente o funk que cá entre nós não há nada melhor pra se tocar numa balada (entre as músicas eletrônicas, claro, não estamos falando de baile funk também!)

Bom...antes que eu escreva um sub-post como o da sua amiga...vou parar por aqui!

Beijos

Fernando disse...

Caríssimo Sr. Rafa! Que prazer estar em seu blog!!! É impressionante, mas lendo isso aqui parece que eu ouço o sr. falando.
Só para constar!!!
Até mais ver!