domingo, 8 de julho de 2012

Nerd Pop

Boa noite e olá para todos vocês! Como estão? Tudo bem? Aproveitando as férias de suas escolas, faculdades? Odiando o inverno, amando o frio, torcendo pela Mega Sena? Saudades de vocês, leitores! :D
Mais de ano desde a última vez que postei no Inominativo. Mas mesmo sem postar por tanto tempo assim, eu nunca o declarei oficialmente falido, de modo que achei por bem postar algo aqui assim que sobrasse tempo livre e boas ideias.Modéstia a parte, boas ideias eu sempre tenho. Mas tempo livre, epa, acabou de aparecer. Então, senhoras e senhores estimados leitores, e leitor aleatório que parou no meu blogue sem querer querendo, convido-os para mais uma leitura, porque eu adorei escrever mais um texto para o meu blogue querido, e adoraria mais ainda que vocês os lessem! Aproveitem, e espero que se divirtam!
E se não se divertirem, também, vão cagar. Chatos.

Nerd Pop
Ser nerd está na moda

O mundo sempre gostou de rótulos. Rotular as coisas é uma maneira bastante fácil de entender o que você ainda não entende, de explicar o que ninguém te explicou, de dar uma cara familiar pra algo que você nunca viu. Então, não é de se espantar que as nossas felizes sociedades humanas tenham ocupado muito de suas vidas efêmeras rotulando as coisas, os fenômenos, os eventos e as pessoas. Siiim, as pessoas também! Porque, afinal de contas, humanos também são estranhos, e rotular ajuda bastante quando você quer entender humanos estranhos.
Rotular as coisas não é ruim, é claro. Muito pelo contrário! Vejam vocês, o Universo é um lugar bastante complicado, e a humanidade evoluiu encontrando padrões no Universo pra aprender a fugir de predadores, plantar batatas, dançar salsa e, enfim, viver uma vida feliz. Se não fosse nossa admirável capacidade de encontrar padrão em tudo quanto é lugar que olhemos (ou ouçamos, toquemos etc.), não teríamos essa nossa notável habilidade em evoluir e nos adaptar ao nosso mundo belo e hostil. E isso é ruim. Então, padronizar as coisas que encontramos nos ajuda, sabe, porque a gente entende o universo, consegue se adaptar, e vive feliz. Êêêêê!!
Mas eu viajei demais. Estávamos rotulando os humanos e, como vocês sabem, isso é bastante fácil e comum nos idos modernos. Desde que você é pequeno e começa a se acostumar com a sua sociedade estranha, você aprende a rotular as pessoas. Porque todo mundo faz, porque é divertido e rende boas piadas, porque é mais fácil. E aí, você passou, então, a ter, já na sua escolinha, os amigos palhaços, os atletas, as patricinhas, os filhinhos-de-mamãe.

E os nerds, claro. Todos conheciam alguns nerds. Aquela galera estranha, que entendia matemática, corrigia os que falavam errado, jogavam vídeo-game, eram desajeitados e esquisitos. Na época das panelinhas, ninguém se misturava com um nerd, porque eles eram bizarros e sem-graça, só falam de coisas que ninguém entende. E os nerds também não se misturavam, porque ninguém os entendia, e ninguém tolerava os gostos exóticos que eles tinham (como assim, gostar de química, jogar Mega Drive, ler Superinteressante?). Pelo menos na infância deste autor que vos fala (os saudosos anos 1990), nerds eram meio alienígenas, meio monstros, aqueles caras que você até conhece e dá bom dia, mas é melhor manter distância. Pode ser que mordam.
Bom, enquanto o resto do mundo vivia a sua vida feliz, jogando bola, andando de bicicleta, tomando sorvete e sendo tão normais quanto o possível, aqueles pobres nerds viviam nas suas vidas estranhas. Estudando química orgânica, comprando Playstations e lendo livros do Carl Sagan, os meninos nerds conseguiram mesmo viver numa vida paralela deles. Inventaram o RPG (role-playing game, jogo de fantasia assaz interessante em que você pode matar dragões e derrotar magos poderosos sem sair de casa), descobriram as ficções científicas americanas e, enfim, descobriram um breve nicho de felicidade nesse inóspito mundo moderno. Os nerds podiam ser estranhos em paz, sem incomodar ninguém!!
E prosperaram também! Como eles eram craques em matemática e física e química e essas coisas, eles conseguiram convencer seus governos a investir seus dinheiros em máquinas grandes e complicadas, que poderiam fazer coisas superbacanas (tipo descobrir como funciona o universo). Assim, os nerds podiam ser estranhos e, além disso, ajudar a sociedade de pessoas normais a viver uma vida mais bacana e frutífera! Nada mal pros nossos amigos nerds!

As coisas começaram a mudar quando o computador finalmente ficou barato. Até os anos 1970, computadores eram enormes máquinas barulhentas e cômicas, que tinham o tamanho de uma sala inteira e levavam eras pra realizar cálculos simples. Só laboratórios ricos e importantes tinham computadores, vocês entendem. Aí, bem, descobriram como fazer um chip de silício. E descobriram como fazê-lo funcionar com uma tela de cristal líquido. E aí, um computador do tamanho de uma sala ficou bem pequenininho! Agora, calculadoras pequenas e baratas poupavam o dono da lojinha a ficar fazendo suas somas enfadonhas, e os engenheiros podiam passar menos tempo checando seus cálculos quilométricos, e mais tempo inventando coisas bizarras (como uma lata de sardinhas que pousa na Lua).
E quando todo mundo achava que os computadores estavam tomando conta da vida comum de todo mundo normal surge o primeiro nerd pop. Bill Gates, o dono da Microsoft e inventor do DOS e do Windows, convenceu toda a civilização judaico-cristã ocidental a comprar um (agora) barato e simples computador pessoal, porque seria superbacana ter uma máquina pra jogar paciência em casa! Maomeno na mesma época, outro nerd pop, Steve Jobs, populariza o seu Macintosh e, agora, todo mundo tem um computador em casa! Pouco a pouco, as pessoas se acostumam com traquitanas eletrônicas, controles bizarros e outras estranhices obviamente nerds.

Por que estou dando toda essa volta? Para mostrar pra vocês que os nerds, aqueles caras estranhos e fora de contexto, agora estão inventando máquinas superlegais que estão totalmente na moda! De repente, todo mundo tem um computador portátil, e um espertofone com acesso a internet rápida, e um vídeo-game modernoso que identifica seu movimento... Já que não podiam ser populares normalmente, os nerds forçaram sua popularidade, inventando coisas que todo mundo sempre quis ter, mas nunca estudou o suficiente pra fazer. Mas os nerds fizeram!! E agora, liderando a sociedade ocidental, eles se tornam populares, idolatrados e referências. Os nerds, finalmente, acharam seu lugar na sociedade: bem no meio dela!!
É claro, esse processo não foi da noite pro dia. Lá nos anos 1990, onde comecei minha história, só alguns poucos nerds entendiam de sistemas operacionais, disquetes de 3 ½ polegadas, capacidade de processamento. Vídeo-game, então, era coisa de exilado social, de fracassado. Aos poucos, entretanto, os nerds ensinaram aos normais, pacientemente, como jogar Sonic the Hedgehog, como colocar um ringtone personalizado no Nokia novo, como usar o Firefox pra acessar a internet, como pesquisar no Google e aprender as coisas no Wikipedia. Os nerds, agora importantes gurus da vida moderna, passaram a inspirar a geração desse nosso magnânimo Século 21, e todos entendem um mínimo de nerdês pra viver essa vida moderna metropolitana.
Finalmente, capitalizando o sucesso dos nerds, séries de televisão e filmes e músicas trouxeram, aos borbotões, a cultura nerds, que viveu escondida nas gavetas dos seus amigos estranhos e exilados. Se antes era coisa de nerd, hoje todo mundo entende as referências a super-heróis, a livros esquisitos com idiomas próprios, a séries espaciais com sabres de luz e religiões fodonas. O nerd, caro amigo, hoje é pop. Até aquele cara bronco e valentão que fazia bullying nos nerds antigos hoje manja um pouquinho de nerdês, e até se diverte assistindo aos Vingadores! O nerd precisou de algumas décadas, mas finalmente venceu! Finalmente agora tem amigos, dinheiro, mulheres e vídeo-games aos montes.

Há os nerds que se sentem recalcados, invadidos. Passaram a vida inteira se escondendo por serem nerds e, agora, todo mundo também é nerd. E ninguém nunca pediu desculpas pra ele!! Como assim? Mas, na minha opinião, somente o fato da civilização ocidental passar a gostar tanto de nerds a ponto de não ser mais estranho usar por aí camisetas do Lanterna Verde já é um grande passo nessa sociedade bizarra nossa. Hoje, espontaneamente, muito mais pessoas passam a usar o rótulo de nerd.
E você, caro amigo nerd, não precisa mais se esconder para ser feliz! A humanidade recebe você de braços abertos, oferece cookies e aulas de salsa! E até te dá de presente laboratórios caros! Desde que vocês nos deem mais alguns apps brilhantes e divertidos pra iPhone. Por favor, nerd. E aí a gente não enche você de porrada pra tomar o lanche do recreio. :D

domingo, 22 de maio de 2011

A Mina da UNICEF

Mais uma vez, olá, gente boa! Neste desagradável mês de Maio em que não há feriados (afinal, o Dia do Trabalho me resolve cair em um domingo) eu senti saudades e resolvi voltar para despejar mais bobagens no meu cantinho preferido da internet. Aê, viva o meu blogue!!
E obrigado pela visita :)

A postagem de hoje me ocorreu em uma epifania durante uma caminhada pela Avenida Paulista. Ah, vá, até você que não tem nem ideia de onde fica São Paulo deve saber que a Avenida Paulista é o nosso cartão-postal por excelência, a avenida mais importante, o lugar mais frequentado... É o xodó paulistano, a nossa tia Paulista. E aí este autor que vos escreve teve essa ideia. E achou por bem por no papel (ou na internet, vocês entenderam) antes que a ideia voasse. Será que fica um bom texto? Ou era melhor ter desencanado?

Contos do Cotidiano
XII - A Mina da UNICEF

"Alô?"
"Alô, Carlinhos? É o Márcio, cara!"
"Oho, seu viado! Tudo bem contigo?
"Tudo certo, Carlos, tudo certo... Escuta, véio: seu pai, como ele tá?"
"O meu velho tá bem, cara. Já voltou do hospital, era só um susto."
"Ufa, menos mal. O tio deu mó susto na galera."
"Pois é. Mas meu pai é assim mesmo: uma piada pra ele sempre vale a pena..."
"Maaano, preciso te contar, cara: conheci uma mina hoje!"
"Mais uma, Márcio? PQP, que aconteceu com a última? Ela já cansou de você?"
"Porra, não enche, cara. O que importa é que conheci essa mina hoje! Ela é linda, ela é uma graça, ela parece um anjo, velho!"
"Okay. Onde você a conheceu?"
"Na Paulista, Carlão. Tava andando lá, indo pra livraria comprar uns livros pra facul. E aí ela me abordou e a gente ficou conversando"
"Pera: ela te abordou?"
"É. É que ela é uma daquelas funcionárias de ONGs, manja? Que ficam na Paulista pedindo pra você ajudar alguma criança de algum país-quistão, sabe?"
"Ah, sei."
"Então, ela é da UNICEF."
"Putz. Ela foi vender o peixe dela e você se apaixonou. Típico de você, Márcio. Típico"
"Porra, Carlão, vá se fuder, velho. Eu falei pra ela que não tinha como ajudar. Era universitário, falido, liso, nem trabalhava. Ela insistiu. Eu falei que doava se ela saísse comigo. Ela sorriu. E aí eu peguei o telefone dela."
"É mesmo? Que cantada loser."
"Mas funcionou, mano, larga de encher o saco. Amanhã eu vou ligar pra ela e marcar alguma coisa. Que você sugere?"
"Ah, mano, sei lá. Leve-a pra jantar. Ou leve-a ao cinema. Algo bem sossegado. Só não vai levá-la pra ver Resident Evil, velho!"
"Huahuahua... Beleza, nunca mais faço isso de novo, prometo."
"Depois você me conta o que aconteceu com a mina da UNICEF."
"Beleza, Carlinhos. Manda um beijo pro tio"
"Mando sim."

---

"Fala, Márcio!"
"Eaê, Carlão? Beleza?"
"Beleza, cara. Escuta, meu pai pediu pra te mandar um beijo, agradeceu por você ter perguntado."
"Valeu. Avisa o tio que não é pra ele morrer antes de me levar pro Rock in Rio. Ele prometeu."
"Hehehe, vai esperando... Ow, e aí? Ligou pra mina da UNICEF?"
"Liguei, velho. Liguei ontem, antes da aula."
"Eaê, cara? Que pegou?"
"Maano, ela é um barato! Ficou fazendo docinho, disse que gostava de cinema, mas que não tinha nada legal... Então ela topou irmos jantar"
"Onde você vai levá-la?"
"Sei não. Tem uns restaurantes legais lá pela Paulista, mas eu não conheço muitos. E são caros."
"Eu tenho um legal. Vou te mandar por e-mail hoje quando chegar em casa. Lá é barato, e eu tenho um cupom de desconto. Usa lá pra aliviar pra você, seu pobre."
"Huahauhua, valeu.... O único chato é que ela ficou me enchendo saco pra doar pra porcaria da UNICEF. Mano, eu não quero dar meu pobre dinheiro pra alguma criança remelenta do Tadjiquistão! Nem sei onde fica esse país!"
"Larga de ser inculto, cara. Senta lá no Wikipédia, e aprende mais sobre o país dela. Surpreenda-a!"
"É, talvez você tá certo. Vou ver"
"Quando você vai?"
"Acho que sexta"
"Beleza. Não se esqueça de que domingo vai ter churras em casa por causa do jogo do São Paulo"
"Fechado, velho. 'Té domingo"
"Até, Márcio."

---

"Márcio, meu querido."
"Fala, seu viado."
"Ow, meu pai pediu pra você não se esquecer de trazer pr'aqui amanhã o pote que ele emprestou pra sua mãe aquele dia."
"Opa, tá lembrado! Vou pedir pra minha mãe deixar separado aqui."
"Eaê, cara? Saiu ontem com a mina da UNICEF lá?"
"Saí, velho..."
"Porra, cara, então conta! Que diabos aconteceu?"
"Putz, cara, a gente foi lá no restaurante que você indicou. Aliás, valeu pelo tíquete, ele aliviou bastante. Aí fomos lá, comemos, e eu me ofereci pra pagar a janta dela, claro."
"E ela?"
"Mano, ela aceitou, mas ficou me enchendo o saco a noite inteira. Disse que achava injusto eu ter dinheiro pra levá-la pra jantar e não ajudar a UNICEF com uma doaçãozinha de nada, que nem iria doer em mim. E me perturbou a noite inteira"
"Porra, velho, que foda. Ela é idealista mesmo, hein?"
"Ô se é. Aí ela disse que topava ir no cinema semana que vem comigo, mas com uma condição: eu deveria fazer uma doação pra UNICEF. Uma só, e ela parava de me encher."
"Huahuahuahua, não acredito, Márcio!! E aí? Que que você vai fazer?"
"Sei lá. Acho que não vou não. Vou ver se eu a enrolo"
"Pode crê, enrola a mina. Ow, peraê, meu pai tá me chamando, vou lá ver."
"Beleza, amanhã a gente se vê."
"Até amanhã, Márcio"

---

"Alô."
"Márcio, você é um grande filho da puta."
"Pô, Carlinhos, respeito com a sua tia."
"Maaano! Você não foi em casa ontem!"
"Foi mal, velho. Eu deitei no sofá e dormi. Só acordei no meio do segundo tempo do jogo. Aí desencanei."
"Bem feito, meu pai fez uma picanha que é de dar água na boca só de lembrar, cara. Como você me perde, velho? Como?"
"Foi mal, velho! Queria mesmo ter ido. Pior que nem levei o pote do tio. Que mancada."
"Mancada mesmo. Seu brocha."
"Acontece."
"Falar em acontecer, já falou de novo com a mina da UNICEF?"
"Falei, falei. Liguei pra ela hoje. Ela agradeceu a janta, a gente ficou conversando. Aí ela perguntou se eu fiz a doação que prometi."
"E você fez?"
"Não, claro que não. Mas eu falei que fiz. Que tinha ido no caixa eletrônico e tudo."
"E ela?"
"Maaano... Ela disse que ia entrar amanhã na conta pra ver se era verdade. Ela duvidou de mim. Mas que mancada!"
"Mancada mesmo, né? Até parece que você iria mentir pra ela"
"Carlão, que eu faço?"
"Agora, filhão, ela vai descobrir que você mentiu, né? Então, o negócio é o seguinte: ou você não doa o dinheiro e desencana da mina, ou você dá logo seu dindim, e pega ela duma vez. Mas peloamordedeus, depois de tudo isso, é bom que vocês no mínimo namorem uns 6 meses"
"É. Me dei mal, mesmo, vou ter de dar meu rico dinheirinho pra alguma criança remelenta no Tadjiquistão. Porcaria."
"Me liga depois pra me contar o que rolou."
"Firmeza."
"E sábado tem jogo no Morumbi. Vê com seu irmão se vocês vão também."
"Tá. Te cuida, Carlão"

---

"Marciããão"
"Fala, Carlinhos."
"Credo, Márcio, que animação é essa? Morreu alguém?"
"Acho que levei um fora."
"Como assim? Da mina da UNICEF?"
"É, velho"
"Como assim? E você não fez a porcaria da doação?"
"Então, meu. Eu fiz. Até dei um print screen do comprovante no site do banco e mandei por e-mail pra ela. Mó bonitinho."
"E então...?"
"Dia seguinte eu liguei, ninguém atendeu."
"Ué"
"Acho que liguei umas 10 vezes. O dia inteiro. Mandei e-mail no fim do dia. E no dia seguinte liguei de novo, mais umas 5. Aí, alguém atendeu o telefone. E desligou direto, manja? E aí passou a cair no ocupado"
"Pffft... Huahuahuahuahua!!"
"Porra, Carlos, vá se fuder, de que você tá rindo?"
"A mina esperou você doar o dinheiro e te deu um fora! Não acredito, velho!! Huahuahuahua!"
"Caramba, mano. Será?"
"Poutz, meu, tá na cara! Você mandou comprovante e tudo, e ela sumiu. Até bloqueou você do celular dela! Ai, caramba, eu não acredito... Huahuahua!"
"Velho, não é possível! Eu fui usado?"
"Caiu feito um pato! Hahuahuahuahua!"
"Maaaano... Que filha duma puta..."
"Bom, ela fez o trabalho dela, né? Conseguiu fazer com que você doasse pra UNICEF"
"Poxa, mas precisava de tudo isso? Ela me magoou, mano."
"E você doaria, de outro modo?"
"Nem a pau!"
"Pois é. Ela arrancou seu dinheiro. E sumiu. Huahuahuahua, eu não acredito..."
"Mano, nunca mais doo nada pra UNICEF"
"Desencana, velho, você já doou uma vez. Era o que ela precisava. E aí, a gente vai sabadão no Morumbi?"
"Pô, mano, nem vou não. Vou ficar em casa."
"Por quê, seu molenga? Tá tristinho, é? Tá sem vontade de sair de casa?"
"Pior - tô sem dinheiro, mesmo. Doei pra alguma criança remelenta no Tadjiquistão."

Ouvindo:
It's OK
Cee-Lo Green
The Lady Killer (2010)

sábado, 7 de maio de 2011

Adeus, Infância

Saludos, meus queridos! Bonsoir! Como vocês vão?
Nem parece que faz tanto tempo que estive aqui, né? O lay-out do blog continua o mesmo, olha só! E os links também estão meio iguais... PQP, que cara preguiçoso!

Nem me fale em preguiça. Hoje em dia estou tão ruim que me peguei dormindo em pé no elevador, esses dias. Durmo no meio da aula, no ônibus, no sofá da sala... Só não dormi no meio da prova com medo de acordar e ter babado em cima dela. Entregar uma prova babada pro professor é um atestado de derrota, hein? :D

Sabe, essa vida de adulto é chata. Aposto que você não tinha a menor ideia de que seria tão chato assim ser um adulto, quando você ficava revoltado com os seus pais por eles não deixarem você ver TV até tarde. "Um dia eu serei adulto!", você bradava, "e vou poder fazer tudo o que quiser!". Bom, parabéns, hoje você pode ver TV até tarde! O duro é que você hoje pode fazer tanta coisa, que só sobra tempo pra ver TV tarde da noite, mesmo, pra dar uma olhada nas notícias do Jornal da Globo, e olhe lá. Afinal, você tem trabalho, tem faculdade, tem curso de idioma, tem academia, tem os amigos, tem os pais, tem a namorada ciumenta e o namorado grudento... Aposto e ganho que você não tinha pensado nisso tudo quando gritava que não via a hora de ser adulto, só pra ver Casseta e Planeta, né? Pois bem, meu querido, as más notícias é que Casseta e Planeta nem eram mais tão engraçados, e eles acabaram anyways. E dois: ser adulto é um grande desastre. Faz você pensar porque diabos abandonar a infância.
E aí eu pensei - é, às vezes eu penso; dói pra caramba, mas eu penso - que é duro sair da infância. Quer dizer, você está lá, de boa na lagoa, brincando com seus comandos em ação ou sua barbie, quando sua mãe te pega pelo braço e avisa você que é hora de crescer. Duro, né? Então.

Adeus, Infância

Uma das lembranças mais vivas que tenho da minha infância foi a primeira vez que visitei o Parque da Mônica. Aos não-paulistanos que acabam errando por este blog, o tal Parque era um espaço enorme (para meus padrões de criança da época) encravado no Shopping Eldorado, em que havia um monte de brinquedos legais, e escorregadores e plataformas e desenhos e tudo isso mais, em óbvia alusão à Turma da Mônica, criação do grande Maurício de Sousa. Acho que foi em algum dia do ano de 1995 (eu tinha uns 7 pra 8 anos), e acho que fui com a minha mamãe (é possível que eu também tenha ido com excursão escolar; minha memória já foi melhor).
Seja como for, eu me lembro muito bem do monte de cores que havia, e tantas coisas para se fazer, e fotos com funcionários fantasiados de Mônica e Cebolinha, e o lanche legal que a gente comia... Enfim, parques infantis eram eventos sensacionais, maravilhosos, estratoféricos. O equivalente de hoje em dia a receber um cartão de crédito ilimitado em um free-shop em Nova York, ou a baixar seriados em uma conexão banda larga de 1Tbps (1 terabit por segundo, ou um milhão de vezes a sua conexão pobre de um mega, seu pobre).
Por que lhes conto esse feliz episódio da minha infância? Oras, porque eu quero evocar as lembranças que vocês têm das suas felizes infâncias, poxa! As excursões super-legais a um sítio no meio do lugar nenhum, as viagens com a família pra praia, aquele Natal em que apareceu um Papai Noel de verdade!!... A sua infância, amado amigo e amiga amada, é populada de eventos maravilhosos em que ser feliz era extremamente barato e simples. Oras, se a sua mãe lhe desse um daqueles potinhos pra bolhas de sabão, você dava paz pra ela a tarde inteira! E um balde de pipocas e um filme na Sessão da Tarde era a coisa mais legal do mundo!

É nessa hora em que você se pega pensando, com o olhar desfocado no seu monito, nas coisas legais de outrora. E aí você se pergunta o quê, afinal, aconteceu com você. Por que não o deixaram em paz, brincando com seus brinquedos e vendo seus filmes? Y U no leave me alone??
A culpa sempre caem, primeiro, nos pais, claro. Esses velhacos infelizes viviam me enfiando em escolas cada vez mais longes e mais difíceis, até que eu nem os via mais, e nem tinha tempo de apreciar direito os desenhos legais da TV Cultura. Traidores mequetrefes, meus próprios pais, que sentiam inveja de mim e mataram a minha felicidade! Oh, por que eles não me deixaram ser uma criança feliz eternamente?!
Olha, amigo, digo-lhe que seus pais bem que tentaram, e com muito afinco. Eles convenceram seu tio a se vestir de Papai Noel (isso quando não era o seu pai mesmo vestido) só pra que você acreditasse por anos a fio que o danado do velhinho existia mesmo, e ele viajava the whole fuckin' world!, dando presentes por aí. Eles compraram vídeo-games com jogos infantis pra você achar que o mundo seria sempre colorido e bonitinho. E tem o meu preferido, que era quando você obrigava a sua mãe a assistir 5 vezes o mesmo filme da Disney, até que você decorasse fala por fala a porcaria do filme inteiro. A sua mãe é um anjo de luz, né? Vá lá, e dê um beijo nela agora. Ela merece. :)

Assim como seus pais batalharam arduamente para que você aproveitasse sua infância, também foram eles que o introduziram, também, ao doloroso mundo do envelhecimento. Assim como eu me lembro vividamente daquele episódio no Parque da Mônica, também me lembro da vez em que fomos a uma lanchonete genérica do McDonalds em que havia daqueles brinquedos com túneis e escorregadores de plástico. Lembro-me de subir no brinquedo, de não conseguir correr nele direito, porque ele era meio estreito, sabe? E depois de ter muita dificuldade em descer pelo escorregador, lembro-me finalmente da voz de anjo de mamãe: "Filho, você não acha que cresceu demais pra esse tipo de brinquedo?". ;_;

Todo pai e mãe, em uma hora, precisa lembrá-lo que é hora de dar adeus a infância, de que a hora do recreio acabou. O ritual de deixar a infância é duro e árduo, caros leitores deste moribundo blogue. Alguns de vocês se lembrarão também do baque quando descobriram que Acapulco era no México, e que o México era muito longe. "Como assim, outro país?". Ou quando sua mãe lembrou você de que não podia mais passar por baixo da catraca do ônibus. Ou do primeiro Natal em que o Papai Noel não existiu pra você. Não é mole, amigos. Não é mole...
Mas, then again, a vida não é mole. Como eu comentei em outro post, melhor mesmo era quando estávamos dentro do útero de nossas mamães, quando era quentinho, e comíamos e defecávamos sem o menor esforço. Infelizmente, entretanto, crescemos devagar e sempre, rumo à nossa morte certa. E enquanto a morte não chega, contas a pagar, notas pra tirar, filhos pra criar, gorduras pra queimar.
E você reclamando da sua lição de casa, né? De como seus pais eram injustos por impedir você de ver TV até tarde, né? Se vocês querem saber, se me perguntassem agora, eu abandonaria numa boa a TV até tarde e os doces fora de hora. E trocaria meu trabalho e minha faculdade pelas minhas aulas de matemática da quinta série, pelas minhas aulas de literatura... Até aula de biologia, vai. Tudo pelo prazer de chegar em casa à tarde, tirar meu uniforme e dormir, a tarde toda, jogado no sofá. Ai ai...

Se bem que, justiça seja feita, nem é tão ruim assim ser adulto. Você pode trabalhar, juntar dinheiro e comprar o que bem entender!! Depois que você recebe seu árduo dinheirinho, entre pagar essa e aquela conta de telefone, comprar roupas novas e ir numa balada, você pode finalmente comprar aquele brinquedo que você sempre quis, aquela boneca que você sempre sonhou. Ou o vídeo-game que seus pais nunca deixaram você ter. Então me deem licença, porque eu sou adulto, mas ainda adoro brincar de carrinho. E é isso mesmo que eu vou fazer. :P

Ouvindo:
On a Cloud
PPP
Abundance (2009)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Agradeçam ao Bacalhau

Adeus, 2009! Até mais, so long!

Também cotado como o ano em que este autor que vos dirige a palavra menos contribuiu para este blog, o ano de 2009 se vai com muitas memórias. Siiim, lá se vai um ano verdadeiramente único, em que tantas coisas aconteceram...
Bah, grande merda. 2008 também aconteceram várias coisas, mas nem por isso ele foi diferente. A verdade é que logo mais, 2009 só será mais um ano no passado. E se você pensar bem, em pouco mais de um ano, 2010 também será passado. Então por que se importar com tudo isso? Pra que toda essa euforia? Vamos beber e gastar dinheiro com coisas desimportantes, em vez disso! Esses são os meus votos para vocês em 2010. Vivam desimportantemente, porque ser importante é chato e sem-graça :B

Esses 10 dias que antecedem a cerimônia oficial de troca de folhinha de calendário da parede costumam ser cercados de tradição, né? Comprar presentes de última hora, ir em festinhas de família, agradar a pentelhada que há na sua família (se você for azarada, tem de agradar a sua pentelhada também...).
E aí, passado o Natal, é época de Ano Novo! Aew! Virada de ano com comida e doces e alegria e rojões! Uma tradição, em especial, me chamou a atenção ainda hoje, no último dia do ano, vejam vocês: esse tal de bacalhau nas festividades de Natal/Ano Novo.
Uma vez me disseram (aula de História, talvez) que toda tradição é carregada de significados. Eu nunca pesquei o significado do bacalhau, entretanto (provavelmente porque eu nunca me importei), então eu fiquei cismado. E das últimas vezes que me cismei com alguma coisa, fui, claro, ao Google todo-poderoso, e não só aprendi mais sobre a vida e o universo - ou sobre a cultura inútil, como preferirem - mas também consegui informações suficientes para uma postagem neste blog! Então celebrem meu interesse por coisas aleatórias, porque graças a ela, tem texto aqui hoje, no dia último do ano! AEEEEW!!

AGRADEÇAM AO BACALHAU
Graças a ele, todos nós falamos Português

Era uma vez o Reino de Portugal. Uma nação menor, caipira e cafona nos lados mais esquecidos da borda ocidental do continente europeu. Enquanto o resto da Europa se divertia entrando em guerras por mais terras para plantar trigo, os tugas viram que não era uma boa ideia participar dessa brincadeira. Primeiro porque eles não eram nada bons em brigar por terras. Segundo porque do outro lado, tinham os reinos espanhois, que eram mais ou menos aliados entre si e também eram cristãos, então pegava mal matar filhos de Deus. Terceiro porque os portugueses nunca foram muito fã de pão, mesmo, então nem valeria a pena.
Já que não rolava plantar, eles se lembraram que estavam de frente para o maior mar que os povos europeus conheciam, esse tal de Oceano. E passaram a navegar nos oceanos, para comerciar com outros povos que também estavam à toa. Entre uma navegação e outra, eles começaram a praticar a pesca. E ficaram realmente craques nisso. Os portugueses viraram exímios pescadores, além de grandes comerciantes e craques em desbravamento.

Mas os tugas tinham problemas internos. Acontece que comer era um treco caro em Portugal no século 13 e 14, porque era difícil ter carne pra todo mundo e, como eu já frisei, pão não era a praia lusitana. A Igreja Católica, que na época se encarregava de controlar a vida dos seus fiéis, proibia que os portugueses comessem carne vermelha em dias comuns. Isso, naturalmente, porque o preço dela era extremamente proibitivo. Então os lusos tinham de se virar para comer outras coisas - peixe, por exemplo. Eram mais fáceis de achar, eram mais saudáveis e tudo isso. Não foi à toa que os lusos ficaram tão fissurados em navegar: era onde a comida estava, ó pá!
Bom, nestes mesmos séculos 13 e 14, os tugas passaram a desbravar as águas. Nadaram para o sul e para o norte e para tudo quanto era lugar em que tinha água suficiente pra se enfiar uma caravela. E um dia chegaram na costa do Canadá. O atual país do norte da América do Norte era há muito conhecido pelos víquingues, mas os portugueses chegaram lá e descobriram um tipo muito bacana de peixe: esse tal de bacalhau. Um peixe que depois de pescado, vem extremamente salgado e que precisa de um tratamento de pelo menos um dia pra que ele fique comestível. Difícil, né?

Mas aí é que está a graça! Ele era salgado!! Os europeus que viajavam muito descobriram que o sal mantinha a comida fresca por mais tempo. E o bacalhau, vejam vocês, era salgado por natureza! De sorte que ele aguentava longas viagens e continuava fresco! E ele era gostoso, ainda por cima! E como ele era um peixe, os portugueses podiam comê-lo em dias regulares da semana sem serem punidos pela Igreja Católica!
Pouco a pouco, o bacalhau foi considerado um alimento extremamente desejado na culinária portuguesa, e os nossos patrícios passaram a ser os maiores consumidores de bacalhau do mundo (recorde que ainda mantêm). Também foi conectado a motivos religiosos - afinal, a Igreja estimulava o consumo de bacalhau para que outras carnes mais caras fossem poupadas. Então comia-se bacalhau na Páscoa, e no Corpus Christi, e em festas de santos devotos... E, claro, no Natal! Graças ao sal do tal do bacalhau, os portugueses aprenderam a comê-lo tanto que virou símbolo nacional. Credo, né?

E o que tem a ver o bacalhau com o título lá de cima? Bom, há um historiador português que defende que graças ao bacalhau, o Reino Cafona de Portugal passou a ser o Império Megafodão Português. Isso porque os portugueses passaram a dominar as técnicas mestras de navegação ao buscar peixes para pescar. E as técnicas usadas pelos tugas ao desbravar, conquistar e consumir o tal do bacalhau lhes garantiu tamanha capacidade técnica que foi possível, em 1500, achar a Bahia! E com a Bahia (e também a Angola e o Moçambique e a Índia), os portugueses passaram a ser um superimpério que comprava e vendia qualquer quinquilharia, que ensinava português a qualquer metido a sabichão por aí e que dominava a maior parte das novas terras mundiais. Tudo isso a partir de um paizeco que parece uma orelha!
Segundo o raciocínio criado, graças à pesca, os portugueses se interessaram pela navegação. Aí eles se interessaram pelo comércio, aí eles se interessaram pelas rotas comerciais, aí eles se interessaram pelas Índias! E sem querer caíram no Brasil!

Então lembrem-se, queridos lusófonos: quando estiverem comendo seus bacalhaus com vinho Madeira, lembrem-se de que graças a este peixe salgado e que nem é encontrando nas costas portuguesas, hoje todos nós falamos português, e não algum dialeto bizarro derivado do francês ou holandês. Ou, pior ainda, poderíamos estar falando espanhol e viver numa grande Confederação Argentina! Imagina, nascer no mesmo país do Maradona e do Kirchner? Ainda bem que temos o bacalhau. :)

Despeço-me então de 2009 com esse post mais ou menos, crianças! E meus votos de que em 2010 eu consiga postar mais vezes, né? Não dói nada tentar.
Feliz Ano Novo para vocês, crianças! Até o ano que vem!!

Ouvindo:
Lovers in Japan (Osaka Sun Remix)
Coldplay
Prospekt's March (2009)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Segurem o Tchan!!

Aloha, chicos! Bons dias! Boas tardes! Boas noites! :D

Oras, depois de meses sem atividade aqui no meu blog, eu acabei por ficar meio enferrujado. Eu tinha uma ideia muito boa para um post aqui, que me renderia, em outros tempos, um texto realmente interessante. Mas a falta de óleo nas juntas fez com que eu não conseguisse sair do segundo parágrafo. Triste, né?
Mas eu não vou desistir! Estou a fim de fazer o meu blog voltar a rodar, e ele vai sair! Nem que pra isso eu tenha de me esforçar!
Mas se esforçar me dá uma preguiça... :P

Bem, vamos andando, né? Sem chiadeira, que ninguém gosta de parar pra ler chiadeira alheia. :P
Estive eu no ônibus, a voltar para minha casa, nesta segunda-feira. Oras, meus amigos e conhecidos bem sabem que moro em um lugar assaz interessante da majestosa capital paulista; lugar que, entre outros, promove a convergência cultural musical - as pessoas insistem em tocar músicas altas para que todo mundo possa ouvir.
Foi durante uma dessas músicas que eu passei a filosofar a respeito dela. Divido com vocês o fruto de meu pensamento livre, até porque eu não tenho nada mais interessante pra fazer, mesmo. :D

Segurem o Tchan!
O Conservadorismo sob a ótica de uma banda de Axé

Conforme eu frequentemente defendo entre meus amigos, a década de 1980 foi a responsável pela avacalhação simples, completa e irrestrita da História da Humanidade. Todo o tipo de pieguice e breguice que você encontrar dando sopa por aí ou se originou nos anos 1980 ou foi duramente exponencializado nessa época. Na minha concepção, depois de 10 longos anos estragando e degringolando tudo o que a Humanidade havia produzido desde que descemos das árvores, a década de 1990 seria uma espécie de ressaca. Um período de sem-gracice cultural, algo como o Eno depois de 2 dias bebendo vodka e pinga e tequila e xixi de cachorro.
O meu ponto alto de defesa de ponto de vista era a epopeia do axé music. Um grupo de pelo menos 4 baianos (muito deles baianos genéricos, do tipo que nascem no leste de São Paulo mas forçam um sotaque), com no mínimo duas bundudas, que rebolavam mediante qualquer tipo de barulho (ou o que eles preferiam chamar de "música"). Oras, todo mundo com mais de 15 anos deve se lembrar, ainda que brevemente, dos fins da década de 1990 e da enxurrada de baianos que vendiam seus CDs e faziam seus shows pelo Brasilzão afora. Certo?

A procedência foi aberta, não preciso nem lembrar, pela banda "É o Tchan". Uma banda baiana que começou com outro nome, mas foi processada e teve de abandoná-lo. Isso não fez diferença, porque todo mundo conheceu a banda pela música incrivelmente grudenta que eles tocavam. "Pau que Nasce Torto - Melô do Tchan" estourou nas rádios nacionais no bom ano de 1996, fazendo do planeta um lugar, em média, bem pior pra se viver.
E não era só pela qualidade da música, não! Conforme eu até cheguei a publicar em um outro post aqui, eu e (muitas) outras pessoas condenavam a banda baiana pela apologia à lascívia, ao despudorado, ao liberal sem responsabilidade e desprovido de culpas. Enfim, ao anarquismo livre, à putaria e ao fim da sociedade judaico-cristã ocidental. Afinal, o que dizer de uma banda que ensina menininhas de 10 anos a arte de rebolar a bunda e amarrar o Tchan? Só mesmo uma banda completamente perniciosa e extremamente liberal, né?
Eu pensava assim, também. Aí, em um dia de primavera destes, eu me pus a pensar na referida música acima. E o que eu pensei me deixou estarrecido. É o Tchan!, conservadores??

Acontece, caros, que o que verdadeiramente é importante na música - a letra dela - acaba sendo camuflada pela batida e pela loira e a mulata bunduda rebolando no Gugu. Você vê aquelas nádegas avantajadas balançando e até esquece de pensar no que está sendo dito. Mas pense direitinho, guri.
A música começa dizendo que pau que nasce torto nunca se endireita, e que menina que requebra, a mãe pega na cabeça. Pois, isso é bastante claro, actually: a mãe quer evitar uma filha que sai reboladeira por aí, porque se ela nascer estragada, continuará estragada para sempre. A versão é corroborada pelo zoom que a câmera dá na Loira do Tchan, que podemos deduzir que não era pega pela mãe quando rebolava. Então ela é um pau que nasceu torto, um erro social que poderia ter sido evitado se a mãe dela tivesse pego na cabeça dela, afinal.
Posteriormente, há a afirmação da autoridade materna, que reforça que "domingo ela não vai". Tentam convencer a mãe, que pegou na cabeça da menina, mas ela é irrefreável, e diz que "domingo ela não vai não". E então ela toma uma atitude drástica. Ela segura o tchan da filha. Eu não sei exatamente o que ela fez exatamente com a filha, quando ela segurou o tchan dela, mas é possível imaginar que seja algo que impeça a filha de sair por aí cometendo atrocidades contra a sociedade e os bons costumes, certo?
A música deixa bem clara, se você analisá-la com carinho: é um típico caso de jovem adolescente com as ganas de se tornar popular rebolando (requebrando, para usar o vocábulo da música), mas que tem a imperiosa supervisão de sua mãe, que pega na cabeça dela quando a vê desobedecendo. E então, ela se vê obrigada a segurar e amarrar o tchan, porque a filha está louca para ir no domingo. Para onde? Não sei, mas vejam vocês a seguir que não é nada bom.

Não é deixado exatamente claro o que acontece com a filha depois de ter seu tchan segurado. Na minha dedução, ela de algum modo dá um pelé na mãe (dar um pelé: enganar, dar olé, faz-que-fica-mas-vai) e consegue a liberdade. Aí é domingo, e ela vai para esse tal lugar. Não se sabe onde é, mas fica bem claro o que ela fez no domingo. "Joga lá no meio, mete em cima, mete embaixo" é mais claro do que vídeo pornográfico.
Ela, obviamente, foi no domingo, e se divertiu horrores. Só que aí, alertam Bejo Jamaica e Cumpadre Washington, é que mora o perigo. Porque "depois de nove meses você vê o resultado". Aí, já de nada adianta segurar e amarrar o tchan. A mãe havia avisado para a menina. Mas a mãe também havia sido avisada que pau que nasce torto nunca se endireita... Bem-feito pra todo mundo, quem mandou viver em um mundo tão liberal?

Olhando por essa ótica, entendemos a profundidade do ponto de vista dos colegas com nomes geográficos (Jamaica e Washington). Nossos dois amigos, baianos, decidiram que se cansaram desse mundo absurdamente liberal, às portas da devassidão completa. Antes que o país decidisse ingressar em uma mega-orgia anárquica, eles decidiram alertar o mundo! Segurem o tchan! Impeçam suas filhas de irem no domingo! Peguem na cabeça dela! Mas, pelo amor de deus, impeçam a degringolação da Bahia! Pelo amor de Deus, segurem o tchan!!
Para alcançar as pessoas, eles decidem usar fogo contra fogo, e atacam as massas usando justamente uma música popular, que aparenta ser lasciva e liberal. Mas é, na verdade, uma cruzada contra todas as fundações que ela aparentemente usava para se basear. É uma música de Troia, praticamente, em que saem os soldados do cavalinho bonitinho quando todo mundo deixa entrar na cidade.
Só que, nós bem sabemos, a ideia não deu certo. A música que seria um estandarte contra a liberação completa da raça humana acabou sendo só mais um passo rumo a ela. Os motivos são muitos, e talvez sejam todos. Vai ver, os ouvintes não se importavam mais com essas defesas conservadoras, e as ignoraram. Vai ver, Cumpadre Washington e Beto Jamaica preferiram ficar muito ricos com a sua música, em vez de defender seus valores. Vai ver, ninguém ouvia a letra, e só prestava atenção no enorme busanfão da Carla Perez.

De todo modo, passados 13 anos, sabemos que o Melô do Tchan falhou em seu ideal conservadoresco. As pessoas não se entregaram à mega-orgia nacional, e nem todas viram o resultado depois de nove meses (talvez algumas, mas nem todas). No mais, as pessoas só aproveitaram a música (?) tocada à exaustão nas rádios tupiniquins, até que veio outra ainda pior e lhe tomou o posto. Assim é a vida, no Brasil do Carnaval.
Então, rapazotes e meninotas, da próxima vez que olharem para trás, reviverem os anos 1990, pensem em tudo o que podia ter sido e não foi. Se todos entendessem a mensagem do É o Tchan!, talvez viveríamos em um mundo bem mais sério, recatado e conservador. Ou, pode ser que o Melô do Tchan tenha funcionado só um pouquinho, o suficiente para evitar a tragédia orgiática maior, em que as fronteiras do país são fechadas para 300 anos ininterruptos de sexo selvagem com animais e coqueiros. E aí, olhem também para os anos 2000, em que descobrimos que, sim, existem muuuitas coisas piores do que uma banda de axé que ganha dinheiro fazendo bundudas rebolarem no Gugu. Pelo menos, naquela época, as músicas ainda rimavam...

Oras, quem diria? Os anos 1990, afinal, deixaram saudades... :P

Ouvindo:
Voodoo Cowboy
The Cat Empire
So Many Nights (2007)

domingo, 24 de maio de 2009

O Grande Colisor de Hádrons

Saudações, cordiais membros da comunidade terrestre! Mais uma agradável noite na minha metrópole, e como eu estou sem muito o que fazer por aqui, acho que vou agraciar este meu pobre blogue com alguma coisa desimportante, para que vocês venham visitar, ler, e pensar, afinal: "Por que diabos eu visito esse blog?". Sim, a cara de arrependimento e de frustração no ser humano alheio me diverte e me alimenta. Hohoho, seus bunda-moles.

Recentemente, entre minhas navegações pelo vasto oceano internético, li uma interessante notícia. Um grupo de cientistas norte-americanos decidiu que vai fundar uma estrela em pleno laboratório terrestre, em breve. Tratam-se de funcionários americanos dentro da National Ignition Facility (Centro Nacional de Ignição) em Livermore, cidade da Califórnia (aquele estado que parece um rim, e que é governado pelo T-101, o Exterminador do Futuro). E a função deles é bastante simples, na verdade: produzir uma reação em cadeia de feixes laser que vão ser todos condensados em um único ponto, onde fica uma pobre carga de hidrogênio. Com todos os lasers ligados, produzindo uns 500TW de energia (lê-se terawatt, ou um milhão de megawatts) - setecentas vezes a capacidade de produção da nossa Usina de Itaipú - o calor e a pressão seriam tão violentos que os átomos de hidrogênios teriam suas bolas esmagadas (literalmente) e se juntariam, formando átomos de hélio; entre outros, isso libera uma energia dos infernos. O Sol faz isso também, só que várias vezes e há bem mais tempo. Então, a ideia é bem essa: criar um anão do Sol, um irmãozinho menor e gerido pela própria humanidade. Medonho, né?
Quer dizer, e se essa desgraça der errada? E se de repente o sol cresce demais, engole a Califórnia, o planeta todo e todos morremos dentro de um sol? Macabro, cara! Eu já penso na saúde das minhas vestimentas interiores, só de imaginar essa hecatombe! Isso me lembrou a história do Grande Colisor de Hádrons, que foi apelidada de "Máquina da Destruição", entre outros adoráveis apelidos pouco assustadores. E foi aí que eu me toquei: "gente, eu nunca escrevi nada sobre o Grande Colisor de Hádrons! Que brisa mais errada!".
Pois é. Graças ao pequeno sol californiano, às 700 Itaipus e ao Exterminador, ponho-me a trabalhar. Vamos criar caos :B

O GRANDE COLISOR DE HÁDRONS
Quebrando coisas com estilo

O mundo era perfeito, no final do século XIX. Isaque Nílton (aquele cientista, cuja cabeça foi atingida por uma recém-madura maçã vermelha, lembram-se?) tinha ficado famoso por ter provado com 99,9% de acurácia como era o funcionamento do Universo. Ele previu como corpos se moviam no espaço, como a Terra rodava em torno do Sol, como era o bagulho da ação e reação, descobriu a receita da torta de maçã... Bom, ele descobriu um bocado de segredos universais. Com o universo praticamente teorizado, só faltava termos suficiente tecnologia para provarmos que Isaque estava tão certo quanto alguém poderia estar em uma mesma encarnação.
Mas é claro, ele estava errado (hehe). Quer dizer, não exatamente errado, ele só não terminou de acertar as coisas. Acontece que naquela época, achavam que átomos eram meio que bolinhas indivisíveis (do grego, ατομόσ, ou atomós, "que não é divisível"). Bom, durante o fim do século XIX e o início do nosso glorioso século XX, descobriram que o átomo é, sim, divisível. Acharam os elétrons, e depois os prótons. E acharam os nêutrons, também, que têm gosto de nada, mas que está lá. E foram achando cada vez mais coisas dentro dos átomos. Eles descobriram, por exemplo, que a luz também tem partículas (os fótons). E que o próton é feito de quarks. Enfim, quando eles descobriram um monte de coisas sem nexo nenhum para a Física Newtoniana, eles acharam por bem fundar uma nova área da ciência. E nascia aí a Física de Partículas.

A primeira grande pergunta da Física de Partículas nasceu no primeiro segundo de funcionamento deste campo científico. Como diabos estudar um negócio tão pequeno que nem com vários microscópios combinados se veria? Como provar que existe algo tão estupidamente pequeno dentro das coisas? Como cientistas não são cientistas à toa (eles convenceram um monte de gente a acreditar nas abobrinhas deles), eles tiveram de ter uma genial ideia para provar que os quarks estão lá, e não são só um nome engraçado. Como se fazer isso? Da maneira mais inteligente possível: quebrando as coisas pra ver como é dentro.
Imagine-se você, meu caro leitor, tendo lá seus oito anos de idade, e da posse de um relógio analógico. Sabe, um bastante bonitinho, que faz tic-tac, que tem algarismos romanos, que marca que dia é hoje, é super-estiloso. Um luxo. Naturalmente, por você ser uma criança, teve uma súbita curiosidade de saber como ele funciona. E então, você decide abrir o relógio pra vê-lo por dentro. Mas não tem chaves especializadas, não tem força nas mãos e está sem paciência. Qual é a maneira mais fácil pra abrir o relógio? Espatifá-lo na parede, é óbvio. Você o amarra em uma corda, e roda roda roda roda o relógio até que ele esteja bem rápido. E o atira na parede. Depois de aberto e todo virado pelo avesso, agora você cata de volta as tripas do relógio, e tenta remontar o objeto, antes que seu pai descubra. :D

A Física de Partículas ficou craque nesse episódio acima. Eles querem saber o que diabos há dentro de um átomo. Então eles pegam o átomo, rodam o infeliz e o atiram contra um outro átomo. Só que não é exatamente fácil "pegar um átomo e rodar o infeliz". Pra que se "pegue" um átomo, você precisa criar um campo magnético, pra que, digamos, um próton possa flutuar. E pra rodar, você precisa de vários ímãs alinhados em um túnel. E tem que sincronizar todos, pra que eles liguem e desliguem no tempo exato, para empurrar o próton pra frente. E isso tem que ser estupidamente rápido, porque quanto mais rápido uma partícula viaja, mais massa ela adquire (não me perguntem o porquê; Einstein provou e eu aceito como verdade fundamental). Se você puser um próton viajando a mais ou menos 99% da velocidade da luz, ele fica bem gordo. E aí, você manda um outro próton viajar no caminho reverso. E espatifa os dois. Pop!
Por isso, eles precisam construir túneis extremamente caros, cheios de ímãs e cabos e tubos e laboratórios, que ficam de prontidão pra entender o que exatamente sai de dentro dos prótons esmigalhados. E é essa a função de um acelerador de partículas: um túnel circular (a maioria é circular, mas tem uns que são retos e outros mais bizarros) em que se pode rodar prótons livremente, pra espatifar um no outro e ver se é colorida a joça que sai de dentro. E eles gastam bilhões de dólares construindo, e pagam milhões de dólares em salários mensais pros cientistas brilhantes que trabalham lá. Só pra brincar de jogar tijolinhos na parede. :D

E qual é a do Large Hadron Collider?
Depois de quebrarem milhões de prótons e nêutrons, os físicos montaram modelos malucos e teorias viajantes. Provaram que os prótons e nêutrons são formados por quarks, e que existem outras partículas que podem ser formadas por quarks. Todas essas partículas são chamadas de hádrons, que é um nome legal e que não significa paçoca nenhuma (mentira, vem do grego, significa "grosso" ou "robusto" :B). Então, um LHC nada mais é que um acelerador de prótons, mas muito grande. Tipo, muito, mas muito grande mesmo.
Os físicos quebraram vários prótons, até encontrarem todas as partículas que eles previam encontrar (bom, todas as plausíveis, pelo menos; teve uns que queriam encontrar a Força, mas falharam). Só falta um que eles querem achar, e que tá danado de aparecer. Ele tem até nome e função, mas tá que nem camisa 10 da seleção brasileira, fica só na promessa. É o bóson de Higgs, e a função principal dele é dar massa pras coisas. Mas ele é meio pequenininho, e ruim de se achar. Então os físicos convenceram os seus respectivos governos que com túneis ainda maiores, computadores ainda mais sofisticados e bolsos ainda mais fundos, eles provariam que o bóson de Higgs existiria. E convenceram a Suíça e a União Europeia a custear o LHC, o maior espatifódromo da história. Tudo em nome da ciência.
O truque do LHC é bater de frente dois prótons com uma velocidade dão alta, mas tão alta, que eles terão muita massa junta em um espaço muito pequetinininho. Quando se chocarem, vai rolar uma explosão energética semelhante ao do início do universo (Big Bang, manja?). Com tanta energia vai rolar, com certeza, esse tal bóson.

O problema com essa teoria é que todo mundo prestou atenção nas explicações seguintes: tanta massa junta em um espaço pequenininho vai criar um corpo extremamente massivo e minúsculo, que terá tanta densidade quanto um buraco negro. Isto é, teremos uma miniatura de buraco negro, no nosso próprio planeta! Holy cow!!!
E agora? E se tudo der errado? E se esse buraco negro sobreviver, engolir o laboratório, engolir a Suíça, a Europa e a nossa boa e velha Terra? E se formos engolidos por um vórtex no espaço-tempo? E se dividirmos o Universo por zero?
Foi aí que os cientistas se explicam: ainda que, de fato, ele vire um buraco negro fominha, ele terá a capacidade gravitacional de um buraco de agulha. E você não é sugado por um buraco de agulha, nem vê o Planeta Terra ser sugado por um buraco de agulha. Então não, não será criado o artefato que destruirá a humanidade de dentro do túnel. :)

O que me faz pensar: 3 bilhões de euros, milhares de cientistas e toda essa cobertura da mídia, e eles não vão montar um supertime de futebol, não vão criar um super-herói radioativo, não vão transformar chumbo em ouro e, o mais importante, não vão montar uma super arma que destruirá o planeta, para usar em alguma chantagem maligna contra o James Bond. Pra que, então, um túnel quilométrico que faz prótons rodarem?
Bom, se você tivesse 3 bilhões de euros e uma vontade inexplicável de jogar coisas na parede, você, com certeza, faria a mesma coisa. Quando se tem o orçamento da União Europeia, você pode fazer qualquer coisa. Tomara que montem, na próxima, uma máquina que faz chover sorvete. Ou que quebre coisas de verdade. Tipo carros. Adoro batida de carros. Então eu acho que vou assistir à reprise da Fórmula 1. :P
Boa semana, meninos ^^

Ouvindo:
Squeeze Me
Kraak & Smaak
Plastic People (2008)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sendo um Super-Herói

Buenas, pessoal! O Inominativo comemora o seu post de número 75! São três quartos de posts rumo ao centésimo e além!
Caramba, setenta e cinco posts? Haja linguiça pra encher em todo esse tempo, hein? Cá entre nós, se eu utilizasse essa criatividade e esse empenho todo em algo produtivo, eu estaria melhor de vida. Mas eu não quero melhorar de vida, quero fazer a vida de vocês mais divertida (ohn, que gracinha...)

Sigamos o nosso rumo, então. É dia de texto novo no Inominativo, então tenham uma boa leitura. ^^

MANUAL MODERNO DO MANO METROPOLITANO
Sendo um Super-Herói

Então, meu nobre mancebo, minha garbosa donzela. Em uma feliz tarde primaveril você foi exposto a uma dose de radiação advinda de alguma fonte altamente improvável (sendo picado por uma abelha transgênica, passando pela Usina Nuclear de Springfield, sobrevivendo a uma radiação cósmica proveniente do espaço, ou algo abilolado assim) e, agora, você está munido de inexplicáveis poderes sobre-humanos, verdade? De repente, você deixou de ser um zé-ninguém, e passou a ser um rapaz (ou uma moça) fodão, que não teme nem cárie nem o leão do IR, e está mais do que disposto a encher os vilões criminosos de bulachas e sopapos, para que eles não desviem a feliz sociedade humana do natural caminho de paz e convivência respeitosa, certo? Mas não tem certeza de como começar, eu presumo. Você nunca teve poderes sobre-humanos (não nesta vida, pelo menos) e está receoso sair fazendo caquinhas e ser preso na primeira oportunidade, né? Pois não tema! Fear not! A mais nova edição do Manual Moderno vai lidar, devagar e sempre, com essa sua capacidade hercúlea de cortar a raiz do mal mundano. E, talvez, como ficar rico e arranjar várias gatinhas pra você. Fala a verdade, esse post é ou não é imprescindível?

A início, é importante (quiçá imperativo) que você entenda quais são os seus poderes. Quer dizer, não adianta de muita coisa você estar todo empolgado por receber uma dose de radiação se você não compreende exatamente o que você ganhou. Afinal, pode ser que a única coisa que você tenha recebido foi uma sobre-humana capacidade de abrir garrafas de vinhos. O melhor que você pode fazer com isso é trabalhar em adegas como sommelieur. Você vai ser admirado por muitos, mas vai receber um salário de merda. Como eu canso de frisar, a vida é uma biscate. :P
Todo super-herói que se preza, destarte, conta com uma super-ferramenta de locomoção. Se o seu desejo foi, realmente, enfrentar o crime, você tem de se prontificar para que tenha a capacidade de enfrentá-lo rapidamente, em qualquer lugar da cidade que ele aconteça (a não ser que você more em uma cidade de, tipo, 40 mil habitantes, porque aí um patinete motorizado já serve). Por exemplo, Super-Homem voa, o Batman tem o Bat-Móvel e o Bat-Jet-Pack e o Bat-Helicóptero portátil, o Flash corre que nem corintiano fugindo da PM, o Homem-Aranha atira teias de aranha e voa por entre os prédios... Você não vê por aí heróis entrando nas estações de metrô ou entrando nos ônibus lotados para salvar as vítimas de assaltos. Então certifique-se de que você tem um arojado e eficiente método de traslado por sua metrópole. E se você, infelizmente, não tem um método de transporte rápido, de dois, um: ou você mora perto do centro da cidade e tenta defender uns 3 quarteirões; ou você desiste de ser super-herói e vai ganhar dinheiro no Faustão. Se vira nos 30, meu! Ô loco, olhaí!

Bom, você já descobriu como chegar na cena do crime. Agora, temos que pensar no que fazer quando você chegar lá. Ou você acha que os vilões ficarão amedrontados somente com a sua capacidade de voar ou de criar uma dobra espaço-temporal que transporta você automaticamente? No, sire! Você tem que utilizar o seu poder para derrubar uma gangue de malfeitores! Como fazer isso?
Muito dependerá do seu poder. Novamente, de nada adianta um poder chulé, como uma capacidade sobre-humana de calçar meias no escuro. Você precisa de, no mínimo, capacidade de lutar artes marciais (de preferência uma oriental, que ensine você a derrubar dez capangas mesmo quando você estiver desarmado e sozinho). É bom também ter força para que seus murros doam nos caras, e que você seja esperto pra que não acabe apanhando. Ou, você pode ter um super porrete de beisebol que nocauteie qualquer metido a esperto. Ou um super flato mortal. Sei lá, mas tenha a certeza de que o seu poder é a diferença entre mandar os caras pro hospital ou ser mandado para o hospital pelas autoridades policiais competentes. Se o seu caso for o último, então não saia para as ruas para causar problemas. Não atrapalhe os policiais, e fique em casa assistindo Heroes. Confie em mim, assim você será bem mais útil para a sociedade. Seu zero à esquerda.

Outro importante aspecto em ser um super-herói é a camuflagem da sua identidade. Convenhamos, ser famoso é uma zica da braba. Imagina, você ser seguido por paparazis a toda hora por ser o salvador da cidade. Suas fotos em lanchonetes, cinemas, lojas de artigos esportivos e boutiques estamparão todos os tablóides e jornalecos, enquanto você quer um pouco de sossego para recuperar sua saúde por causa da pancadaria de ontem à noite. Ah, sim, tem também o fato dos criminosos tentarem atacar seus entes próximos para enfraquecer você, é verdade. Mas eu acho bem mais incômodo quando os paparazis o seguem até o banheiro. Um saco.
Pensando nisso, arquitete um sagaz esquema para que você continue sendo um zé ninguém, mesmo que todos conheçam o super-herói que você é às escondidas. Use uma máscara, use uma roupa (de preferência cafona, com a cueca por cima da calça), disfarce a voz, pra que algum amigo mané não o reconheça e inutilize seu disfarce. Enfim, planeje sabiamente para que você não seja você mesmo quando estiver utilizando os seus poderes. E, no resto do dia, aja como se você não tivesse poder algum. Confie em mim, você não quer esse tipo de atenção. A não ser que você queira chamar a atenção de algum espécime do sexo oposto. Nesse caso, até vale, mas seja discreto. Não faça o bar inteiro chamar a redação do Fantástico, hein?

No mais, aproveite os seus poderes secretos! Aproveite sua capacidade de voar para tirar fotos do alto de prédios e pontes para montar wallpapers bonitos para publicar na internet. Trapaceie nas mesas de pôquer em Las Vegas com sua visão raio-x, e dê uma surra nos seguranças do cassino quando eles descobrirem que você está roubando. Arranje uma grana licenciando bonecos de ação que imitam você (sim, claro, não deixe que os outros enriqueçam por sua causa).
Ser super-herói pode, sim, trazer uma série de responsabilidades, como salvar a cidade, cuidar da formação moral dos cidadãos (e especialmente das crianças, que adoram heróis que acabam com o crime) e manter a corja de bandidos na linha. Mas ser um ícone da justiça pode até ser legal. Você pode dar autógrafos enquanto estiver mascarado (só faça o favor de disfarçar a caligrafia) e dar entrevistas no Jô.

Ou, melhor ainda, pode ignorar todo este manual, e dizer fuck it para a luta contra o crime. A partir daí, pode se divertir hoje e sempre com os seus poderes, entrando em vestiários femininos, ganhando dinheiro com um talk-show na TV, virando ícone de um programa de vale-tudo, ou só tirando sarro dos outros esportivamente, mesmo.
Imaginem só, voar por aí à toa, não ter de acordar cedo pra ganhar dinheiro, não ter preocupações nenhumas com a vida ou com a humanidade... Pra quê, ficar salvando os humanos do crime? Eles pagam impostos pra polícia, mesmo, é o trabalho dos policiais, e você não deveria facilitar o trabalho dos outros se eles são incompetentes.

Aproveite seus novos poderes, meu amigo super-herói! Mas aproveite com parcimônia. E lembre-se: se beber, não saia voando por aí. Você pode dar vexame. Isso não é bom pra sua imagem. :B

Ouvindo:
Make it Wit Chu
Queens of the Stone Age
Era Vulgaris (2007)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Lição de Casa Escolar

Ah, o Verão... A ensolarada estação, em que tudo parece mais amarelado e azulado, os humores se renovam, o mundo está no ápice da felicidade e da boa vida.
Uma pena que não estamos no verão. In fact, se você morar no Hemisfério Sul, como o autor que lhes escreve, deveria saber que o verão acabou há mais de 30 dias. O que significa que teremos 8 longos meses até tornar a ver essa tão querida estação. Enquanto isto, contentemo-nos com o outono, a feliz estação das folhas que caem. Até porque já já piora, com a vinda do inverno. Sim, porque uma hora ele vem. A não ser, claro, que uma guerra nuclear entre as potências ocidentais e a Coreia do Norte desloque a Terra do seu eixo de órbita graças às explosões de enormes ogivas nucleares, e tudo dê muito errado no clima.
Mas ainda assim! Se isso acontecer, não precisaremos mais nos preocupar com o aquecimento global! Estaremos muito ocupados sendo desintegrados por raios subatômicos dilacerando nossos corpos. ^^

Enquanto um hecatombe nuclear não dizima a feliz sociedade humana, continuemos nossos planos de seguir vivendo. E, para mim, isso significa publicar algo no meu querido blog. E pra vocês, tomara que isso signifique ler o texto. Ou, pelo menos, fingir que lê. :B

LIÇÃO DE CASA ESCOLAR
Das Injustiças Cometidas com a Pirralhada

Ser criança não é fácil, colegas. Claro que, comparada à vida medíocre que você leva hoje, como adolescente/jovem/adulto, a vida de uma criança é tão moleza quanto sentar no pudim com as nádegas nuas (por favor, não imaginem isso; é uma visão medonha). Mas a gente já sentia as injustiças da vida pesarem sobre nossos jovens ombros, mesmo na época em que não éramos nada mais do que remelentas versões de miniterroristas afegães. Aparentemente, a vida não escolhe idade nem sexo, e costuma ser uma boa biscate para todo mundo, sem preconceito. Sim, vivemos em um mundo sem preconceitos. Yes, we can!

Lembrem-se, por exemplo, da vida escolar. Sim, claro, quando se é criança, a escola é o único programa que existe no seu dia (isso se você não tiver pais ricos e que desejem que você faça balé, natação, piano, futebol, inglês, espanhol, artes...). E como era a monopolista do nosso dia-a-dia, a escola tinha o direito (e o dever) de ser filha-da-puta com os alunos, a fim de representar a filha-da-putice geral que é a vida.
Muitos de nós (eu incluso) estudávamos cedo. O que significa dormir cedo para acordar impiedosamente cedo no dia seguinte. Nem seis da manhã eram, e seus pais terminavam com suas horas de sono para enfiar você no carro - e, às vezes, nem isso, enfiavam em um ônibus escolar, ou no ônibus da prefeitura, mesmo, se você for suficientemente pobre - para que você fosse para um lugar amplo, frio, desaconchegante e muito, mas muito chato. Ah, sim, tinha os coleguinhas, que tornavam o dia meio melhor. Mas você pode ser azarado o suficiente para ter coleguinhas ainda mais chatos do que a escola (ô azar). Então relevaremos os coleguinhas.
Oh, sim, a vida na escola era chata e injusta. Horas e horas com um cara falando bobagens na frente da lousa, as quais provavelmente nunca usaremos na vida - e, agora que estamos mais longes na nossa breve vida humana, sabemos que estávamos certos - e sendo submetidos à tirania de pessoas alheias. Quando tudo o que queríamos era jogar bola, assistir TV Globinho e dormir mais um pouco.

Oh, sim, escola era um negócio sacana. Uma espécie de vampiro, que chupa nossa juventude. Só que todos os dias, e nossos pais ainda pagam por isso. Passar a manhã (ou a tarde) toda enfurnado em um prédio feio, com professores tiranos em um ambiente maligno. Não pode ser pior, pode? Quer dizer, por mais que você passe 5 horas em uma sala de aula, você tem o resto do dia para se divertir, certo?
Errado.

Voltemos ao tempo. Imaginem três monges irlandeses, mestres de um pequenino mosteiro no sopé de uma simpática montanha, nos idos do século XIII, nos arredores da cidade de Belfast (atual Irlanda do Norte, parte integrante do Reino Unido, caso você seja ignorante em Geografia). Bom, esses três monges, como são monges maus que não gostam de crianças (porque crianças são barulhentas, e ninguém em um mosteiro gosta de barulho), eram muito malignos dando aula aos guris (caso você também seja ignorante em História, monges católicos davam aulas aos meninos de um vilarejo). Mas tudo ficava sem graça para nossos monges irlandeses quando as aulas acabavam porque, oras, os moleques começavam a correr e a bagunçar e a barulhar e essas coisas de moleques, e que irritam a nossos monges velhos e chatos. Qual foi a grande sacada deles? Ocupar os meninos mesmo enquanto eles não estavam em aula! E como isso? Dando tarefas para eles fazer durante o dia! Entupindo a macacadinha de lição de casa!

Desde estes infelizes monges irlandeses, a pobre pirralhada têm problemas com uma das instituições mais cruéis e injustas da nobre humanidade. Eles tinham de lidar com a odiosa lição de casa. Oh, sim, fazer lição de casa era uma grande e generalizada merda.
Quer dizer, éramos privados das diversões puras da vida para ficarmos a manhã toda trancafiados em uma sala, com matérias chatas na lousa e sem poder se divertir. O sol lá fora, um lindo dia, e você aprendendo sobre a geologia do solo brasileiro, sobre a Guerra dos Canudos, sobre a aceleração de um corpo inicialmente em repouso.
E então quando dava o seu horário e você estava liberado para voltar pra casa, em vez da liberdade e da alegria de poder aproveitar o resto do dia brincando com a molecada, jogando uma bolinha, assistindo TV a esmo ou o que o valha, você tinha aquele calhamaço de tarefas para entregar. Vinte e cinco exercícios de matemática, um resumo sobre o capítulo da Revolução Francesa, ler e decorar as fases da mitose. Agora, poxa, pra que isso? Privar a molecada da própria infância? Obrigá-los a passar ainda mais tempo se dedicando à escola, quando eles não estão mais lá? Exigir que eles estudem coisas a mais? Revisar a aula? Pra quê? As escolas não botam fé nas aulas, e precisam que os alunos aprendam sozinhos?

Eu nunca entendi qual é a pegada da lição de casa. E, por isso, sempre fui contrário a ela. Tomava meu tempo, não deixava eu me divertir e, em geral, era um saco. Vai ver que era por isso que eu preferia fazer a lição de casa no meio da aula, mesmo. Pra que fazer em casa, com tanta coisa legal pra se fazer, quando eu posso fazer na escola, que será chata de qualquer maneira? Naturalmente, os professores ficavam revoltados com essa decisão mas, hey, era uma decisão minha, eles deveriam respeitar.
Mas eu dormia tranquilo. Uma hora, eventualmente, eu cresceria, e trabalharia. Sim, claro, com um trabalho efetivo, eu fico bem mais tempo na empresa do que eu ficava na escola. Mas a empresa me paga pelo tempo que fico lá. E uma vez fora da empresa, eu não preciso fazer lição de casa. Posso jogar Guitar Hero a noite toda. Sem me preocupar com listas de exercícios pro chefe ou resumo do capítulo de gerenciamento corporativo.
Pensando bem, por que todo mundo sente saudade da infância? Você tinha que fazer lição de casa quando era criança!! Convenhamos, macacada: é bem mais legal ser adulto.
Yeah, right :P

Ouvindo:
Ant Music
Hyper
We Control (2005)